Eleição de Trump nos EUA complica a vida dos rebeldes na Síria

Rebeldes sírios podem ver o governo americano - um de seus maiores aliados externos - virar as costas

Rebeldes síriosRebeldes sírios - Foto: Omar Haj Kadour/AFP

O anúncio da eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos foi recebido com apreensão pelos grupos que lutam na Síria para derrubar o ditador Bashar al-Assad.

Já enfraquecidos por uma guerra civil que se arrasta por quase seis anos, os rebeldes sírios podem ver o governo americano -um de seus maiores aliados externos- virar as costas após o republicano se mudar para a Casa Branca, em janeiro.

Se, durante o governo de Barack Obama, essas facções contavam com treinamento e apoio financeiro do serviço secreto americano, a expectativa sobre o governo do presidente eleito é de que Assad e a Rússia -a principal parceira militar do regime sírio- encontrem o caminho livre para terminar de "varrer" os insurgentes de seus últimos bastiões no norte da Síria.

Durante a campanha presidencial, Trump sinalizou que não se importaria com a manutenção de Assad no poder, apesar do repúdio da comunidade internacional ao regime de Damasco por sua campanha de violência contra rebeldes armados e civis.

"Se em algum momento conseguissem depôr Assad, pode ser que terminássemos com alguém [no poder] tão mau quanto Assad, e ele é um cara mau", disse o magnata novaiorquino em uma ocasião. "Mas pode ser que terminemos com algo pior que Assad."

Também gera preocupação entre os rebeldes sírios o "namoro" entre o presidente eleito dos EUA e Vladimir Putin. Trump já declarou ter "grande admiração" pelo líder da Rússia, que confirmou recentemente ter mantido contato com a equipe do republicano durante a campanha eleitoral.

Aliado do regime de Damasco, Putin ordenou no ano passado o início de uma campanha de bombardeios na Síria em favor de Assad. Atualmente, os dois governos preparam uma ofensiva militar para expulsar os rebeldes de Aleppo, uma das maiores cidades da Síria.

As duras críticas do governo americano à participação da Rússia na guerra da Síria podem ser reduzidas, ou até silenciadas, na administração de Trump. Mais de 400 mil pessoas já morreram desde o início do conflito.

Estado Islâmico

Se, por um lado, o governo de Trump pode afastar os EUA da oposição armada ao regime de Damasco, por outro, o republicano promete incrementar o envolvimento militar americano na região no combate ao Estado Islâmico (EI).

Graças ao vácuo de poder gerado pela guerra civil, a facção terrorista conseguiu conquistar territórios na Síria e no vizinho Iraque, expandindo sua influência e sua capacidade de realizar atentados no Oriente Médio e no Ocidente.

Atualmente, os EUA lideram uma coalizão internacional que bombardeia posições do EI na região. Além disso, algumas centenas de soldados americanos participam em terra da ofensiva do governo iraquiano para expulsar os extremistas da cidade de Mossul.

Trump pretende colaborar com a Rússia na luta contra o EI e tem no combate ao "islamismo radical" uma de suas prioridades na política externa. Com uma retórica inflamada, o ex-apresentador de TV prometeu "acabar com o EI".

"Bombardeá-los até a merda. Eu bombardearia esses otários. É isso mesmo. Eu explodiria os oleodutos [controlados pelo EI]... Eu explodiria cada centímetro. Não sobraria nada", declarou o republicano.

Durante a campanha, Trump afirmou que enviaria mais soldados para o Iraque para combater a facção radical e que não descartaria responder a agressões de terroristas com armas nucleares.

Ao buscar um envolvimento mais direto no combate ao EI, Washington corre o risco de aumentar o saldo de civis mortos e agravar a crise humanitária na região.

Longo prazo

É difícil prever neste momento até que ponto serão cumpridas as promessas do de Trump em relação ao Oriente Médio. A postura moderada adotada pelo republicano desde sua eleição contrasta com as posições estridentes que ele expressou ao longo da campanha.

No que diz respeito à guerra na Síria, pode se estabelecer uma nova correlação de forças a partir da posse do magnata. O possível abandono dos rebeldes pelo governo americano abre o caminho para a permanência de Assad no poder e para que Putin consolide sua influência na região.

Por outro lado, o distanciamento dos EUA da guerra civil pode levar os rebeldes sírios a buscar em maior intensidade o apoio de outros aliados, como Turquia e Arábia Saudita. Esses países têm poucas restrições em apoiar facções islamitas mais radicais, evitadas pelo Ocidente, e isso pode retroalimentar o terrorismo.

Além disso, uma provável vitória de Assad na guerra civil pode gerar um profundo ressentimento entre os grupos derrotados, trazendo perspectivas sombrias para o futuro da Síria.

Com relação às propostas de Trump para lutar de maneira mais incisiva contra o EI, teme-se a piora da situação humanitária na região. O republicano pode acabar reeditando a guerra do Iraque, iniciada pelo governo de George W. Bush em 2003 e muito criticada pela opinião pública americana.

Causa assombro a possibilidade aventada pelo presidente eleito de serem empregadas armas nucleares no combate ao terrorismo —a única vez em que uma bomba atômica foi usada em guerra foi em 1945, nos bombardeios americanos sobre o Japão.

O aumento da violência na região produziria um fluxo ainda maior de refugiados, agravando a crise migratória mundial. Isso pode aumentar a presença de requerentes de asilo nos EUA, sendo que uma das principais promessas de campanha Trump é barrar a entrada de imigrantes e refugiados.

Apesar de incerta, a política externa de Trump pode abrir um novo capítulo da guerra na Síria.

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