Governo da Bolívia reconhece erro em apuração e diz que Evo pode vencer no 1º turno

A contagem preliminar do domingo não será mais retomada porque haveria "contradições" entre esta e a soma voto a voto, que são concomitantes

Evo Morales, presidente da BolíviaEvo Morales, presidente da Bolívia - Foto: José Cruz/Agência Brasil

Mais de 14 horas depois de interrompida a contagem dos votos na Bolívia, a situação era de impasse no país. A apuração foi paralisada às 22h40 (23h40 em Brasília), quando havia atingido 83,7% dos votos. O atual presidente, Evo Morales estava adiante, com 45,28%, contra 38,16% de Carlos Mesa, mas haveria segundo turno.

O ministro das comunicações da Bolívia, Manuel Canelas, disse que a contagem preliminar do domingo não será mais retomada porque haveria "contradições" entre esta e a soma voto a voto, que são concomitantes. A primeira vinha contabilizando as atas de mesa da eleição, enquanto a segunda considerava os votos individualmente, o que faz com que demore mais tempo.

No entanto, ambas as contagens são oficiais e apenas a primeira vinha sendo revelada publicamente na noite anterior, sem explicar que uma segunda poderia derrubar a que estava sendo divulgada.

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O corte nas transmissões e nos trabalhos do tribunal deu-se logo depois de que Evo disse a seus apoiadores, no Palácio Quemado, que tinha certeza de que ia ganhar. "As pessoas do interior votaram em nós. Esperaremos até a contagem do último voto."

Segundo Canelas, quando as primeiras mesas da contagem de votos começaram a mostrar um resultado muito diferente do das atas, resolveu-se abandonar o primeiro método, porque o segundo seria "mais confiável".

"O órgão eleitoral errou ao não deixar claro que havia duas contagens. Uma vez que percebeu que a contagem dos votos estava dando outro resultado, resolveu interromper a das atas, para não causar confusão, e não explicou isso direito. Mas foi um erro, porque está dando à oposição espaço para dizer que houve uma fraude".

Em entrevista a jornalistas, num hotel de La Paz, o opositor Carlos Mesa acusou Evo, de estar construindo uma "fraude". E contrariou, também, o argumento da autoridade eleitoral, de que estariam faltando "votos do interior rural", sem esclarecer de onde eles seriam.

"Segundo nossos observadores e os da OEA, os votos estão todos aqui, a contagem está sendo seletiva, eles não querem divulgar porque sabem que a vontade do povo expressada nas urnas é de que haja segundo turno. E vão fazer o possível para mudar isso", disse.

Mesa também convocou a militância para realizar protestos pacíficos pelo país. Na entrevista à imprensa, havia muitos apoiadores, com cornetas e bandeiras do candidato, que gritavam: "Evo, perdiste, que parte no entendiste?" (Evo, você perdeu, que parte não entendeu?).

Em entrevista à reportagem, o ex-presidente opositor Jorge Quiroga, que apoia Mesa, disse que "o conto do voto rural é um mito, esses votos não chegam a cavalo, não na época do WhatsApp.

E acrescentou: "O que está ocorrendo é a fraude dentro de duas outras fraudes. Primeiro, o referendo que ele mesmo convocou e ignorou o resultado. Depois, a postulação à Presidência que vai contra a Constituição que ele mesmo mandou redigir. Agora, vai ganhar tempo, esperar que saiam do país os observadores internacionais, a OEA (Organização dos Estados Americanos), os jornalistas estrangeiros, para daqui a uns dias anunciar que venceu em primeiro turno", diz Jorge Quiroga. "Com esse conto de que há um voto que vem à cavalo, eles terão tempo para fabricar essa vitória em primeiro turno", diz Quiroga.

O ex-mandatário também elogiou a ação do presidente colombiano, Iván Duque, que acionou um pedido de consulta sobre a legitimidade da eleição junto à Corte Internacional de Direitos Humanos. E criticou o silêncio, até aqui, do brasileiro Jair Bolsonaro. "Sua solidariedade com Evo Morales deve ser uma solidariedade entre pirômanos da Amazônia", ironizou.

Canelas rebateu a acusação de manipulação com os resultados no interior. "Não é assim, os votos rurais demoram mais em chegar, ainda não estão computados, e em geral são votos mais pro-Evo. Por isso estamos confiantes numa vitória no primeiro turno". E ainda lamentou que a oposição não aceite a contagem atual, cujos números deverão ser conhecidos mais tarde nesta segunda-feira, segundo ele.

Na Bolívia, é necessário alcançar 50% dos votos mais um, ou 40%, com dez pontos percentuais de diferença com relação ao segundo colocado, para obter vitória já no primeiro turno. Caso haja segundo turno, a votação será realizada em 15 de dezembro.

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