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Grandes lições para a vida

O que o brasileiro viveu em 2016 foi suficiente para provocar uma catarse coletiva.

Em reação às manobras suspeitas de deputados e senadores, o povo realizou diversos protestos ao longo de 2016Em reação às manobras suspeitas de deputados e senadores, o povo realizou diversos protestos ao longo de 2016 - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

 

O ano de 2016 pode ser considerado o ano da catarse. Para Aristóteles, esse era um fenômeno de purificação da alma que acontecia durante ou após o público assistir às tragédias gregas. As emoções vivenciadas durante as apresentações provocavam transformações no ser. O que o brasileiro viu e viveu este ano foi suficiente para gerar uma catarse coletiva. As crises política, econômica e institucional atingiram seu ápice. Saltamos de pouco mais de 10,3 milhões de desempregados, para mais de 12 milhões em menos de 12 meses, segundo o IBGE. Milhões de desesperados, milhões desesperançados.
A emoção que uma pessoa experimenta ao ser demitida num cenário de baixas perspectivas pode provocar profundas transformações. Fomos levados a extremos: extremo do aperto, da pressão, da paciência. Enquanto muitos lutavam para pagar as contas, eram simultaneamente bombardeados com a comprovação de denúncias de corrupção nas mais altas esferas da República. A Odebrecht pagou R$ 3,4 bilhões em propinas a todo tipo de político neste e em outros países. Não à toa, a prisão de Marcelo Odebrecht foi um dos fatos mais marcantes do ano.
O afastamento da presidente Dilma, que sinalizava como promessa de estabilidade e correção de rumos, abriu as portas para mais turbulência. O Congresso deu sua lamentável contribuição, dando as costas à sociedade. Das imorais tentativas de minar a Lava Jato à desfiguração de projetos relevantes para a sociedade, deputados e senadores chegaram até a querer anistiar a corrupção. Contra suas manobras, o povo foi às ruas em vários momentos.

Com o País desgovernado e vendo a economia afundar dia após dia, milhares de Joãos e Marias foram morar com os sogros. Os filhos, agora, estão matriculados em escolas públicas. E como foi difícil conseguir as vagas! Mas eles têm sorte. Estão juntos. Sobre outros casais o efeito foi mais devastador. A crise desfez muitos relacionamentos. Destroçou sonhos, pôs à prova amores ditos eternos.
Mas é preciso viver... O dinheiro da indenização, a última gota de esperança. A saída é empreender! Vender bolos ou dirigir Uber? Bendito seja o Uber! Graças a ele, desde o gerente de logística demitido de um estaleiro até o dono da pequena gráfica que faliu, agora ganham um trocado. Mas também é possível pilotar um food truck. Já que comer fora do lar virou luxo, a comida barata foi a saída para quem ousou abrir um cardápio tentando fugir da rotina. Rápido, a febre das carroças gourmet invadiu as cidades.
Nem todos tiveram sucesso. Segundo o IBGE, mais de 700 mil pessoas que vinham desenvolvendo atividades por conta própria desistiram ou faliram. E a pior hora é a de pagar as contas. Atrasar não compensa, os juros estão muito elevados, ainda que o governo tenha decidido reduzi-los praticamente à metade após permitir que chegassem ao patamar dos incríveis 475,8% ao ano. A saída tem sido cortar. Cortar plano de saúde para usar o SUS. Cortar a TV por assinatura. Cortar as compras em shopping para recorrer aos brechós. Cortar a gasolina e encarar os ônibus e metrôs lotados.

A população dá um freio no consumo. Não é para menos, já usou boa parte da poupança. De janeiro a novembro, a retirada da caderneta atingiu R$ 51,3 bilhões. Mas, para alívio de todos, o ano termina com uma pequena folga: a inflação recuou de 10,7%, em janeiro, para 6,99%, (novembro).
Voltemos à catarse e tentemos ser um pouco otimistas. Afinal, ano novo vem aí e queremos alegria. Vamos crer que ela vai, digamos assim, purificar e transformar as cinzas em um terreno fértil para o replantio. As mudanças que provocou ajudarão na escolha das sementes que trarão a nova safra, evitando a repetição dos erros deste ano.

A vivência da dor leva à sabedoria das escolhas. Agora é um bom momento para que as coisas do espírito recebam mais atenção. Que esses meses difíceis nos façam olhar um pouco mais para dentro de nós e para o outro, e menos para as coisas. A faxina geral que o Brasil tanto precisa deve começar dentro de cada um de nós. Nesta edição, você confere uma retrospectiva dos fatos que nos fizeram olhar o País e o mundo de uma outra forma. Que tiremos lições desses tempos de crise para fazermos um 2017 melhor.

 

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