Itália escolhe entre a direita e o risco de uma paralisia

Em diversos colégios eleitorais havia longas filas, em parte pela participação elevada, mas também pelo novo sistema eleitoral, para muitos complexo e difícil de entender

Ativista - supostamente do grupo Femen - salta em mesa na frente de Silvio Berlusconi, líder do partido de direita Forza Italia, para protestar de topless com a frase "Berlusconi, você expirou" pintada sobre os seios. Ativista - supostamente do grupo Femen - salta em mesa na frente de Silvio Berlusconi, líder do partido de direita Forza Italia, para protestar de topless com a frase "Berlusconi, você expirou" pintada sobre os seios.  - Foto: Miguel Medina/AFP

Os italianos votam neste domingo (4) em uma das eleições mais incertas de sua história recente, em que a coalizão de direita liderada por um ressuscitado Silvio Berlusconi parte com uma vantagem sobre o Movimento 5 Estrelas (M5S) antissistema. Por volta das 19h, a pesquisa de boca de urna apontava o partido antissistema com maioria de 30% dos votos.

Em diversos colégios eleitorais havia longas filas, em parte pela participação elevada, mas também pelo novo sistema eleitoral, para muitos complexo e difícil de entender. Às 19h00 locais (15h00 de Brasília), a taxa de participação era de 58%, segundo o Ministério de Interior, percentual mais alto que em 2013 - quando a votação aconteceu em dois dias.

Uma ativista - supostamente do grupo Femen - saltou na mesa na frente de Silvio Berlusconi, líder do partido de direita Forza Italia, para protestar de topless com a frase "Berlusconi, você expirou" pintada sobre os seios. 

O resultado ainda é muito incerto para os mais de 46 milhões de eleitores, cujo voto será a chave para o futuro da terceira economia da União Europeia, que luta contra a estagnação. A votação começou às 7h (3h de Brasília) e vai até às 23h (19h de Brasília) para eleger 630 deputados e 315 senadores.

O ministro de Interior, Marco Minniti, alertou na sexta-feira que os resultados serão divulgados muito tarde e que a contagem será muito lenta. Após votarem, muitos eleitores expressavam sua amargura, ao final de uma campanha dominada por questões como imigração, insegurança e promessas econômicas milionárias impossíveis de cumprir, bem como agressões e insultos entre militantes neofascistas e antifascistas, algo que não se via desde a década de 80.

"É uma honra para mim votar na Itália. Foi uma campanha horrível, cheia de ódio, mas votei com esperança de que tudo melhore, de uma mudança", comentou em Florença o escritor de origem argentina Roben Edgardo Caime, de 65 anos, que vive há 35 anos na Itália.

Se as últimas projeções forem confirmadas, a coalizão formada pelo partido de Berlusconi, Forza Italia, os xenófobos da Liga do Norte e os neofascistas dos Irmãos da Itália não conseguiriam uma maioria absoluta e teriam que negociar com outras formações para poderem governar.

De acordo com especialistas, o limiar para obter a maioria dos assentos é entre 40 e 45% dos votos com o novo sistema eleitoral, um verdadeiro labirinto que combina o voto proporcional com o voto majoritário.

À direita
A aliança liderada pelo magnata e três vezes o primeiro-ministro Berlusconi, de 81 anos, alcançaria, de acordo com as pesquisas, entre 35 e 37% dos votos, uma porcentagem insuficiente para governar.

Berlusconi, com 17%, luta dentro de sua própria coalizão com a Liga Norte de Matteo Salvini (13%), que surgiu como uma formação ultranacionalista e eurocética, seguindo o modelo da Frente Nacional francesa de Marine Le Pen.

Uma vitória de Salvini, que prometeu a expulsão de 600 mil imigrantes e o fechamento das fronteiras, sacudiria grande parte da Europa. Enquanto isso Berlusconi, inabilitado para o cargo devido a uma condenação por fraude fiscal, tenta tranquilizar o bloco europeu propondo como primeiro-ministro o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani.

Não está descartada a possibilidade de que a Itália seja governada por um líder abertamente de extrema-direita, que reúne parte do descontentamento e mal-estar dos italianos.

O PD dividido
Matteo Renzi, líder PD, politicamente desgastado, convidou "os eleitores da esquerda radical e os moderados a votarem para o Partido Democrata (PD, centro-esquerda) para que este país não caia nas mãos de Matteo Salvini".

A situação é complexa para a coalizão de centro-esquerda, com 27,4% das intenções de voto, e para o outrora maior partido na Itália, o PD, com 22,9%. "Pessoalmente, vejo muita confusão, perdeu-se o rumo", disse Giuseppe, natural do sul da Itália, à AFP no sábado, enquanto um grupo de jovens disse que estava indeciso.

Seguro de sua vitória, o Movimento 5 Estrelas, que participa sozinho e se recusou a fazer alianças, apresentou os 17 ministros de seu futuro governo. "A fase em que estávamos na oposição acabou e agora vamos governar", disse o jovem Luigi Di Maio, candidato com apenas 31 anos ao cargo de primeiro-ministro.

"Eu quero punir essa classe política corrupta e enganosa que nos governa e é por isso que eu voto para o M5E", declarou um médico sem revelar seu nome. Os indignados "à italiana", sem ideologia, apoiados principalmente por jovens dispostos a romper a bipolaridade tradicional entre a direita e a esquerda, estão prontos para governar pela primeira vez o país se alcançarem a façanha de mais de 40%.

Mais de um milhão e meio de italianos residentes na América Latina, incluindo 800 mil na Argentina, foram convocados a votar. Esta é a quarta vez que os italianos que vivem no exterior, perto de 4 milhões, exerceram esse direito, concedido em 2001.

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