Marine Le Pen cancela encontro com líder islâmico por se negar a usar véu

Candidata à presidência da França é ultra-direitista e tem campanha marcada pela xenofobia e pela islamofobia

Marine Le Pen Marine Le Pen  - Foto: Joseph Eid/AFP

Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional às eleições presidenciais francesas, cancelou nesta terça-feira (21) seu encontro com um líder muçulmano libanês após recusar-se a cobrir o cabelo.

Le Pen reuniu-se com o presidente Michel Aoun e com o premiê Saad al-Hariri, mas desmarcou a reunião com o grão-mufti Sheikh Abdul Latif Derian, principal clérigo sunita do país. Os sunitas são o ramo majoritário no islã. Ela foi recebida no escritório de Derian e um funcionário pediu que colocasse um véu antes do encontro. Ela recusou-se e deixou o lugar.

"Vocês podem repassar meu respeito ao grão-mufti, mas não vou me cobrir", afirmou. A equipe do clérigo disse que Le Pen estava ciente da exigência antes do encontro e afirmou ter se surpreendido com a recusa.

A França restringe o véu no serviço público e no ensino médio, uma medida que Le Pen - uma das favoritas à Presidência - quer espalhar por todo o espaço público, afetando em especial a população muçulmana.

FRANCO-LIBANESES

A ultra-direitista Le Pen, cuja campanha é marcada pela xenofobia e pela islamofobia, visitou o Líbano como parte de sua campanha internacional, com a provável meta de ter o apoio dos eleitores franco-libaneses.

Parte da população libanesa fugiu à França durante a guerra civil (1975-1990), como o premiado autor Amin Maalouf ("Samarcanda"). Apesar do constrangimento causado pela recusa de Le Pen, seu caso não é único. Outras mulheres se recusaram, no passado, a cobrir o cabelo durante visitas oficiais, incluindo a chanceler alemã, Angela Merkel.

A polêmica do véu se soma a outro obstáculo na candidatura de Le Pen: uma investigação de cargos-fantasma e do uso irregular de fundos da União Europeia. O escritório da Frente Nacional foi vasculhado pela polícia na segunda-feira (20). Le Pen é acusada, entre outras ações, de pagar seu guarda-costas, Thierry Légier, alegando que ele fosse um assistente parlamentar.

A Frente Nacional, que nega as acusações, afirmou que as buscas da polícia foram uma tentativa de prejudicar a campanha de Le Pen no ápice de sua popularidade.

PRIMEIRO TURNO

As sondagens preveem, por ora, que Le Pen vença o primeiro turno das eleições em 23 de abril, mas perca no desempate, em 7 de maio. Ela apareceu em uma pesquisa divulgada na quinta-feira (16) com 26% da intenção de voto no primeiro turno. O centrista independente Emannuel Macron teria 19%.

A perspectiva traz preocupação no continente europeu, após a decisão britânica de separar-se da União Europeia. Le Pen é aversa ao processo de integração regional e a sua eleição poderia ameaçar a estabilidade desse bloco.

Partidos populistas têm crescido no restante do continente, desbancando siglas tradicionais de centro-esquerda. É o caso da Espanha, com o declínio do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), e da Alemanha, com a ascensão do partido extremista e islamofóbico AfD (Alternativa para a Alemanha).

As pesquisas de intenção de voto na França devem ser vistas, no entanto, com algum cuidado. Houve uma série de surpresas nos últimos meses, como a escolha de François Fillon para representar o partido conservador Republicanos, derrotando o ex-presidente Nicolas Sarkozy, da mesma sigla.

Fillon, que tornou-se então um dos favoritos ao pleito, tem perdido espaço nas pesquisas de opinião devido a suspeitas de corrupção.

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