Novas manifestações contra o governo e disparos no Iraque

Em Bagdá, as forças de segurança dispersaram a maior concentração, diante do MInistério do Petróleo

Manifestantes no Iraque Manifestantes no Iraque  - Foto: AFP

Milhares de manifestantes voltaram às ruas no Iraque neste sábado para exigir uma mudança no governo, acusado de corrupção, no quinto dia de um movimento de protesto que já deixou quase 100 mortos.

Tiros foram ouvidos na capital iraquiana e em outras cidades do sul do país, como Diwaniya e Nasiriya.

Em Bagdá, as forças de segurança dispersaram a maior concentração, diante do MInistério do Petróleo. Cerca de 4 mil pessoas ficaram feridas nos confrontos, segundo a comissão parlamentar de Direitos Humanos.

Uma reunião parlamentar que estava prevista para discutir a crise durante a tarde não foi realizada, por falta de quórum. Os 54 deputados da coalizão do influente líder xiita Moqtada al-Sadr, principal bloco parlamentar, a boicotaram.

O presidente do parlamento prometeu em entrevista coletiva uma longa lista de reformas, principalmente no que diz respeito ao desemprego.

Moqtada Sadr, um peso pesado na política iraquiana e cuja coalizão participa do governo, retomou na sexta-feira a principal reivindicação dos manifestantes e pediu ao governo de Adel Abdel Mahdi que renuncie "para evitar mais derramamento de sangue".

Ele também solicitou eleições antecipadas sob supervisão da ONU.

Nascido através de apelos nas redes sociais, o movimento protesta contra a corrupção, o desemprego e a decadência dos serviços públicos em um país emergente há menos de dois anos de quase quatro décadas de conflito e na escassez crônica de eletricidade e água potável.

É o primeiro teste para o governo de Adel Abdel Mahdi, em vigor há apenas um ano.

Depois que o toque de recolher foi levantado ao amanhecer em Bagdá, as lojas foram reabertas em diferentes bairros.

As ruas que levam à Praça Tahrir, onde o protesto começou, ainda assim foram isoladas por uma grande mobilização de veículos policiais e blindados.

4.000 feridos

No dia anterior, confrontos violentos opuseram manifestantes e forças de segurança, e pesados tiros foram ouvidos até altas horas da noite.

"Se as condições de vida não melhorarem, a disputa será retomada e a situação será muito pior", alertou Abu Salah, 70 anos, antes das novas manifestações.

De acordo com uma avaliação final realizada no sábado pela comissão de direitos humanos do governo iraquiano, 93 pessoas foram mortas desde terça-feira, a grande maioria delas manifestantes, e cerca de 4.000 ficaram feridas.

A maioria dos manifestantes mortos foi baleada, segundo fontes médicas, que informaram no dia anterior que seis policiais morreram durante os quatro dias de violência.

As autoridades têm exigido tempo aos manifestantes para implementar reformas para melhorar as condições de vida dos 40 milhões de pessoas do país devastados por guerras, desemprego e corrupção.

Movimento antissistema

Esse movimento espontâneo é apresentado pelos manifestantes como "não partidário", em oposição a mobilizações partidárias, tribais ou confessionais anteriores.

"Ninguém nos representa", afirmou um manifestante à AFP.

"Não queremos ninguém que fale em nosso nome", disse ainda.

As autoridades iraquianas estão vendo um novo fenômeno se desdobrar diante delas, diz Fanar Haddad, especialista em Iraque.

"Essas são manifestações antissistema", explica. "É a primeira vez que vemos pessoas reivindicando a queda do regime", baseado, segundo ele, na distribuição confessional e étnica.

"O que agora pode satisfazer as pessoas são grandes mudanças e decisões radicais, como a demissão de grandes nomes da política acusada de corrupção", diz, por sua vez, Sarmad al-Bayati, especialista em questões de segurança.

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