Oposição pede renúncia de presidente da Colômbia por propina da Odebrecht

Prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos teria recebido US$ 1 milhão de propina na campanha para reeleição

Presidente da Colômbia, Juan Manuel SantosPresidente da Colômbia, Juan Manuel Santos - Foto: Don Emmert/AFP

A notícia de que o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, prêmio Nobel da Paz, poderia ter recebido US$ 1 milhão de propina da Odebrecht para sua campanha de reeleição, em 2014, causou forte repercussão no cenário político local, nesta quarta-feira (8).

Dois de seus principais opositores, o ex-presidente Andrés Pastrana e a senadora esquerdista Claudia López, pediram a renúncia do mandatário, caso a informação se confirme.

No começo da tarde, Santos divulgou um comunicado afirmando que a única evidência que o Ministério Público tem de tal pagamento seria a denúncia do ex-congressista Otto Bula, e que esta não "é embasada em nenhuma prova documental". "É absurdo e inaceitável que personagens de reputação duvidosa, com uma simples declaração, pretendam manchar a campanha de 2014", diz o texto.

O escândalo estourou na tarde de terça (7), quando o procurador-geral, Néstor Humberto Martínez, tornou público o depoimento do ex-senador Bula, preso em janeiro sob acusação de fazer lobby para que a Odebrecht ganhasse licitações no país.

Bula, que pediu, em troca das declarações, redução de pena e a transferência para uma prisão militar, afirmou ter recebido US$ 4,6 milhões, mas que, deste valor, US$ 1 milhão teria sido entregue ao chefe da campanha eleitoral de Santos, Roberto Prieto Uribe.

Uribe, no entanto, declarou tratar-se de "uma calúnia" e que nem sequer conhecia Bula. "Jamais tomei nem um café com este senhor", disse.

O caso Odebrecht vem fazendo vítimas em ambos os lados do espectro político na Colômbia. Do lado da oposição, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), o ex-candidato Óscar Iván Zuluaga também foi acusado de ter recebido dinheiro da empresa para sua campanha, por meio do marqueteiro brasileiro Duda Mendonça.

Também o ex-vice-ministro de Transporte do governo Uribe, Gabriel García, foi preso sob acusação de ter recebido US$ 6,5 milhões para garantir à empresa brasileira a habilitação para construir o trecho de uma estrada, a ruta del Sol.

O ex-presidente, normalmente muito agressivo com Santos, desta vez foi mais cauteloso e evitou repercutir a acusação contra o mandatário antes de "estudar o tema atentamente".

Dentro de seu partido, porém, o Centro Democrático, já se estuda substituir Zuluaga, que era a primeira opção de Uribe para disputar as eleições presidenciais de 2018, por outro nome.

A analista política María Jimena Duzán aponta, de modo irônico, para a proporção que o caso Odebrecht ganhou na Colômbia, inimaginável há até pouco tempo. "Em 2009, quando soube que a obra da Rota do Sol ia ser entregue a Odebrecht, uma empresa brasileira, senti certo alívio", disse. Isso "porque existia a possibilidade de que caísse nas mãos dos Nule, empresários sem experiência na área mas que haviam conseguido, durante o governo Uribe, ganhar as maiores licitações na Colômbia".

A acusação contra Santos é a primeira no exterior contra um presidente que segue no cargo, dentro do caso Odebrecht. Porém, desde dezembro, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que a empresa pagou, além das propinas a políticos brasileiros, mais US$ 439 milhões (R$ 1,4 bilhão) em outros 11 países, nenhum mandatário parece estar com o sono tranquilo.

Argentina

"Eu espero que o Brasil, que a Justiça brasileira, nos informe assim que possível os nomes dos que teriam recebido propina da empresa aqui na Argentina", disse o presidente Mauricio Macri na última segunda (6), quando perguntado sobre o caso Odebrecht.

Segundo o informe do Departamento de Justiça dos EUA, a Argentina teria recebido US$ 35 milhões, entre 2007 e 2014.

Neste período, governava o país a peronista Cristina Kirchner, e estariam na mira principalmente alguns nomes da cúpula de seu governo, como o ministro do Planejamento, Julio de Vido.Algumas propinas, no entanto, estariam também relacionadas a obras de infraestrutura na cidade de Buenos Aires, governada na época pelo atual presidente.

Nas últimas semanas, a imprensa local divulgou que, em delação, o doleiro Leonardo Meirelles acusava o atual chefe do serviço de inteligência do governo Macri, Gustavo Arribas, de receber pagamentos ilícitos de parte da empresa. Apesar de a investigação ainda estar em seu início, Arribas tem dado informações contraditórias a respeito da origem do dinheiro recebido.

Peru

Em nenhum dos países mencionados, porém, parece haver mais ex-presidentes envolvidos do que o Peru. Nesta terça (7), a Procuradoria do país pediu a prisão preventiva do ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), após realizar uma busca em sua casa.

No Peru, a Odebrecht admite ter pagado US$ 29 milhões entre 2005 e 2015, o que abarca, além da gestão Toledo, as de Alan García (2006-2011) e Ollanta Humala (2011-2016). Este último teria recebido US$ 3 milhões da empresa durante sua campanha eleitoral, quando disputou com Keiko Fujimori.

Toledo, que está em Paris, é acusado de receber uma propina de US$ 20 milhões da Odebrecht, para que a empresa fosse beneficiada no concurso para a construção de uma estrada, a ruta Interoceânica. O ex-presidente negou e acrescentou que "quer provas do banco em que esse dinheiro estaria depositado". Toledo também diz que a busca policial à sua casa foi irregular e sem autorização.

De acordo com ele, a acusação tem conotação política e estaria ligada ao fujimorismo, seus adversários históricos. A explicação, porém, carece um pouco de sentido, uma vez que o atual presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, não apenas é antifujimorista como foi ministro do próprio Toledo. Hoje, a influência do fujimorismo no Peru está reduzida ao Congresso.

A Procuradoria peruana também está investigando García e Humala.

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