Papa colocado sob “júdice” por cardeais

Carta que veio a público, por meio de quatro sacerdotes da ala conservadora da Igreja Católica provoca tensão

Presidente estadual do PSB, Sileno GuedesPresidente estadual do PSB, Sileno Guedes - Foto: André Nery/Folha de Pernambuco

 

Uma carta tornada pública esta semana promete provocar um ambiente tenso na Igreja Católica. Grupo de cardeais liderado pelos alemães Walter Brandmüller, Joachim Meisner, o italiano Carlo Caffarra, todos aposentados da Cúria, e o americano Raymond Leo Burke, único que ainda está na ativa, mas é crítico frequente do papa Francisco, manifestaram publicamente insatisfação com os ensinamentos do papa Francisco, em assuntos relacionados a doutrina católica nas questões da família.
Apesar de o assunto vir à tona, esta semana, publicada ontem pela BBC, a carta foi endereçada ao Pontífice em setembro, porém, até o momento, Francisco não teria se posicionado quanto aos questionamentos levantados pelos cardeais. No documento, o grupo de sacerdotes questiona o Papa por encorajar a Amoris laetitia (Alegria do Amor), um guia de 260 páginas publicado em abril deste ano, que trata sobre a vida em família e propõe que a Igreja aceite algumas realidades da sociedade contemporânea.
Ao invés de fazer críticas, a Amoris laetitia convoca os sacerdotes a tratarem com compaixão, por exemplo, os católicos divorciados que voltam a casar, dizendo que “ninguém pode ser condenado para sempre”. Em outras palavras, tornar a Igreja mais tolerante com questões relacionadas à família.
Segundo a reportagem publicada, a carta enviada pelos cardeais, possuía cinco perguntas com respostas diretas para um “sim” ou um “não”. Para eles, há imprecisões no tratado da Amoris laetitia.
Para os sacerdotes, que representam um dos setores mais conservadores da Igreja Católica, o documento não é “claro” em situações que tratam sobre o amor. Como pano de fundo, o que se observa, entretanto, é que existe uma forte tendência de oposição entre setores da Igreja. Os sacerdotes negam, no entanto, que se trate de um ataque “conservador” contra setores “progressistas” da Igreja, ou uma “tentativa de fazer política” ou de se rebelar contra o papa.
A Amoris laetitia é uma das tentativas mais contundentes do papa Francisco em tornar a Igreja Católica mais aberta e inclusiva para seu 1,3 bilhão de fiéis no mundo.
Pontos polêmicos
Especialistas ouvidos pela BBC, os cardeais não escolheram tornar a carta pública agora por acaso. A divulgação aconteceu logo após o vazamento de uma correspondência do Papa com os bispos de Buenos Aires, sua terra natal, em que o pontífice sugere uma interpretação do seu tratado, considerado uma “heresia” por um dos cardeais signatários.

Em específico, o capítulo oito de Amoris laetitia, que fala da possibilidade dos divorciados que voltam a se casar em cerimônias civis, sem conseguir a nulação da união religiosa, receberem a comunhão.
A Igreja proíbe a comunhão de divorciados há séculos, por considerar como “irregular” ou ato de adultério toda tentativa de se constituir um casal após uma separação, a menos que se abstenha de relações sexuais e a convivência seja “como ir­mão e irmã”.
A Amoris laetitia não altera a doutrina, mas abre brechas para que os bispos de cada país a interpretem de acordo com a cultura local e avaliem cada caso. Para o papa Francisco, há fatores que limitam a “responsabilidade e culpa” do divorciado, então a “Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia”. “Não há outra interpretação”, informou o pontífice, em sua carta aos bispos argentinos.

 

Veja também

Grécia anuncia confinamento parcial para conter coronavírus
Pandemia

Grécia anuncia confinamento parcial para conter coronavírus

Biden e Trump cortejam eleitores no Meio Oeste a quatro dias das eleições
EUA

Biden e Trump cortejam eleitores no Meio Oeste a quatro dias das eleições