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Para Fernández, relação com Brasil vai além de ideologias de conjuntura

Enviado de última hora para a cerimônia por Jair Bolsonaro, o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, assentiu com a cabeça enquanto ouvia Fernández falar

Presidente Alberto FernándezPresidente Alberto Fernández - Foto: Juan Carlos CARDENAS / ARGENTINA'S SENATE / A

Em seu discurso de posse como presidente da Argentina, nesta terça (10), Alberto Fernández disse que o país vai continuar priorizando o Mercosul e que quer fortalecer a relação com o Brasil.

"Com o Brasil, temos que construir uma agenda ambiciosa, inovadora e criativa, que esteja respaldada pela nossa relação histórica e que vá além de qualquer diferença pessoal ou ideológica dos que governam na conjuntura."

Enviado de última hora para a cerimônia por Jair Bolsonaro, o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, assentiu com a cabeça enquanto ouvia Fernández falar. Mais cedo, Mourão havia dito que "ambos os países têm de se ajudar mutuamente".

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O futuro embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, valorizou a presença de Mourão na posse, dizendo ser um gesto "contundente e muito positivo para a nova relação que começa e, principalmente, para o comércio bilateral".

Acrescentou ainda que pretende, como embaixador, "encerrar a divisão que há entre os dois países". "As diferenças que tivemos no início devem ficar no passado. Sou um homem de experiência justamente nisso, em promover reconciliações", disse à Folha.

Em sua primeira fala oficial, Fernández defendeu a conciliação política no país e prometeu colocar o bem-estar do povo à frente do pagamento da dívida externa do país.

Ele disse que vai pagar a dívida de US$ 57 bilhões contraída com o FMI (Fundo Monetário Internacional), "mas antes temos que crescer". "Não podemos apresentar uma solução que comprometa o futuro de milhões de argentinos."

Segundo o presidente, há "muros" por superar. "Muros da pobreza, da desigualdade, das disparidades do país. Esses são os muros que existem, não os muros ideológicos. Temos que deixar de apostar na polarização", disse. "Digo isso para os que votaram em mim e para os que não votaram".

Fernández destacou que é necessário um pacto para superar "esse presente penoso, acabar com as dívidas de nossos compatriotas e a do país."

Ele culpou a política econômica de seu antecessor, Mauricio Macri, e afirmou que "o Estado estará presente, oferecendo linhas de créditos e de bônus, além de recursos para investimentos".

Acrescentou também que, nos próximos dias, haverá o anúncio de medidas para atender os mais pobres e que chamará um compromisso de empresas e produtores para que os preços não aumentem.

O discurso teve fortes tons nacionalistas. "Nossas respostas para essa crise têm de ser criadas por nós mesmos e não vamos seguir receitas de fora." Neste momento, foi amplamente aplaudido.

Durante a fala, ele voltou a mencionar uma possível reforma judiciária e a criticar os que, segundo ele, usam a política para influenciar a Justiça.

Do lado de fora do Congresso, em Buenos Aires, onde ocorreu o juramento de Fernández, e da Casa Rosada, onde depois tomam posse os ministros, havia grande público e muitos membros de organizações sociais kirchneristas.

Antes de sair de casa, em Puerto Madero, em direção ao local da cerimônia, Fernández divulgou uma foto ao lado do cachorro, Dylan, tomando suco e ajeitando a gravata.

Ao entrar no Congresso, ele foi recebido pela vice de Macri, Gabriela Michetti, cadeirante. Ele a levou, empurrando sua cadeira até o palco. A nova vice, Cristina Kirchner, os acompanhou. E Michetti tomou o juramento de ambos.

No Congresso, estavam presentes parlamentares, ex-presidentes, ministros, delegações estrangeiras e familiares dos eleitos, incluindo o filho de Fernández, Estanislao.

Depois que terminaram de jurar, ouviu-se a marcha peronista, cantada aos gritos pelos presentes. Os eleitos e os ministros recém-designados acompanharam o coro.

O agora ex-presidente Macri apareceu depois do juramento, como manda o protocolo. Os peronistas continuaram cantando. Macri esperou silenciosamente. Seus apoiadores o aplaudiam, mas foram suplantados pelo canto peronista.

Fernández levantou a mão e pediu que as pessoas se calassem. Logo, Macri entregou o bastão e a faixa presidencial a seu sucessor e deu-lhe um abraço. Os dois se cumprimentaram de modo efusivo e trocaram algumas palavras.

Já quando Macri esticou a mão para cumprimentar Cristina, ela não o olhou nos olhos e fez cara feia para frente, apenas aceitando o cumprimento.

Em seu discurso, Fernández voltou a dizer que a Segurança será voltada à prevenção e não à repressão. Fez referência clara à posição do governo anterior. Durante a gestão Macri, policiais que matavam suspeitos de assalto tinham uma pena abrandada.

O presidente também se referiu à verba publicitária, da qual dependem vários veículos de comunicação, dizendo que haverá uma redistribuição e uma nova estrutura para a entrega dos recursos. Durante o kirchnerismo, a distribuição da verba publicitária para os meios era usada como uma maneira de controlá-los.

Sobre as mulheres, ele repetiu "Nem uma a menos", o lema do coletivo feminista mais engajado do país, e disse que lutaria pelo fim da violência contra a mulher.

Ao final, com lágrimas nos olhos, agradeceu a Néstor Kirchner, que "me ensinou a tirar a Argentina da prostração". Agradeceu ainda à militância. Fernández disse ainda que quer que seu governo seja conhecido por trazer de volta "à mesa familiar a boa convivência de quem pensa diferente e de ter resolvido o problema da fome de muitas famílias".

Entre as delegações estrangeiras presentes ao evento, estavam o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, que foi com o presidente eleito de seu país, Luis Lacalle Pou. Mario Abdo, do Paraguai, e Miguel Díaz-Canel, dirigente de Cuba, também estavam presentes.

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, cancelou a ida devido ao desaparecimento de avião militar de seu país na noite anterior. A Venezuela de Nicolás Maduro foi representada pelo ministro da Comunicação, Jorge Rodríguez –apesar de haver uma proibição expressa de Macri para que ele não ingressasse no país, por estar na lista de autoridades chavistas vetadas pelo Grupo de Lima (conjunto de países que coordena resposta regional à crise venezuelana).

O ex-presidente equatoriano Rafael Correa também foi à cerimônia. "Vim aqui para prestigiar o amigo Alberto, mesmo sendo uma vítima de 'lawfare', assim como Lula, como Cristina, e sei que vindo aqui corro o risco de ser preso", disse à Folha. "Mas era necessário vir, até para expor esse problema para o mundo. Não quero me vitimizar, precisamos estar juntos e reunificar a América Latina."

Outro ex-presidente de esquerda era o paraguaio Fernando Lugo, que deixou o poder após um processo de impeachment. Entrou sem dar declarações e sentou-se ao lado de Correa.

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