Presidente escolhe ex-economista do FMI como primeiro-ministro da Itália

A designação de Carlo Cottarelli para a chefia de governo veio um dia depois de o presidente desafiar os partidos populistas Liga e 5 Estrelas, que haviam vencido as eleições de março com mais de 50% dos votos

O economista Carlo CottarelliO economista Carlo Cottarelli - Foto: Flickr

Em mais um capítulo de um imbróglio político que ameaça se tornar uma crise de gravidade inédita, o presidente italiano, Sergio Mattarella, pediu ao economista Carlo Cottarelli que forme um governo de técnicos. A nomeação foi divulgada na segunda (28). A escolha do ex-economista do FMI (Fundo Monetário Internacional) representa um gesto arriscado, que pode turbinar a insatisfação popular, em um país que já demonstrou estar desgostoso do statu quo político.

A designação de Cottarelli para a chefia de governo veio um dia depois de o presidente desafiar os partidos populistas Liga e 5 Estrelas, que haviam vencido as eleições de março com mais de 50% dos votos. Mattarella vetou o gabinete deles, impedindo que governem de fato o país -razão pela qual Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas, agora pede o seu impeachment, além de convocar protestos pacíficos contra a decisão do mandatário.

A Liga, de direita nacionalista, e o 5 Estrelas, que questiona o sistema tradicional de legendas, queriam que o professor Paolo Savona fosse o próximo ministro da Economia. O nome dele, no entanto, contrariava Mattarella, por se tratar de uma figura extremamente crítica à moeda comum europeia, o euro.

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Por essa razão, o chefe de Estado não aceitou a composição de gabinete com Savona. Ao pedir que Cottarelli monte o próximo governo, ainda que de maneira temporária, o presidente quer sinalizar ao restante da Europa que a Itália ainda é um parceiro confiável. A mensagem é relevante, em meio ao crescimento dos grupos que contestam as instituições europeias.

Cottarelli tem experiência em cortes de gasto público (foi apelidado de "sr. Tesouras") e sua tarefa será manter as contas em dia até as próximas eleições. Se ele conseguir um improvável voto de confiança do Parlamento, o pleito deverá ser realizado no início do ano que vem. Se for barrado, italianos podem ir às urnas já em setembro ou outubro, em uma situação inédita na história moderna do país.

A Itália deve hoje o equivalente a 132% de seu PIB (Produto Interno Bruto), um percentual frequentemente lembrado por seus vizinhos. Na zona do euro, apenas a Grécia tem uma dívida pública maior.

"A economia italiana está em pleno crescimento, e as contas públicas estão sob controle", afirmou Cottarelli após ser incumbido de formar o novo governo, em mensagem clara à União Europeia. A chanceler alemã, Angela Merkel, disse durante o dia que lidará com qualquer administração italiana, mas insistiu na necessidade de que sejam respeitadas as regras da zona do euro.

O quadro convulsionado empurra a Itália ainda mais para o fundo de sua crise. Cottarelli não tem o apoio dos principais partidos e, mesmo que governe apenas provisoriamente, terá dificuldade em aprovar medidas.

Vendo no tumulto político uma oportunidade para voltar à cena pública, o ex-premiê Silvio Berlusconi disse que poderia se candidatar nas próximas eleições representando seu partido, o Força Itália. Ele concorreu neste ano em aliança com a Liga e estava impossibilitado de ser premiê por causa de uma condenação -mas um tribunal de Milão já decidiu que ele pode voltar ao cargo no futuro.

O quiproquó oferece à Liga e ao 5 Estrelas a possibilidade de sustentar um discurso eleitoral forte: eles dirão que Mattarella, representando a elite, impediu um governo eleito pelo povo de se consolidar. Analistas preveem que as siglas populistas podem se fortalecer assim. "A fé na moeda comum europeia é mais forte do que a democracia? De verdade?", escreveu o americano Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia.

"As instituições europeias já sofrem por falta de legitimidade devido ao déficit democrático. Isso vai piorar a situação."

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