Relatório de ONG expõe grave crise humanitária na Venezuela

Governo afirma que falta generalizada de produtos é guerra econômica travada pela oposição, setor privado e forças estrangeiras

Padre José Edwaldo GomesPadre José Edwaldo Gomes - Foto: Marina Mahmood/Arquivo Folha

A ONG Human Rights Watch divulgou nesta segunda-feira (24), o resultado de uma investigação sobre a crise humanitária na Venezuela, marcada pela falta generalizada de remédios, insumos médicos e alimentos.

O relatório expõe como essa escassez tem tornado extremamente difícil o acesso de muitos venezuelanos a assistência médica essencial ou o atendimento das necessidades básicas de suas famílias.

Durante o mês de junho, a Human Rights Watch entrevistou mais de 100 pessoas em Caracas e seis estados -Aragua, Carabobo, Lara, Táchira, Trujilo e Zulia-, além de acompanhar a situação por telefone e outros meios de comunicação. Pesquisadores também visitaram oito hospitais públicos, um centro de saúde na fronteira com a Colômbia e uma fundação que oferece cuidados médicos.

O governo do presidente Nicolás Maduro nega veementemente que a escassez constitua uma crise. A falta generalizada de produtos é atribuída a uma "guerra econômica" travada pela oposição política, o setor privado e forças estrangeiras. O governo, entretanto, não ofereceu evidências para comprovar tais acusações.

"O governo venezuelano parece mais motivado a negar a existência de uma crise humanitária do que a trabalhar para resolvê-la", disse José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas na Human Rights Watch. "Seus fracassos têm contribuído para o sofrimento de muitos venezuelanos, que agora lutam diariamente para ter acesso a saúde básica e à nutrição adequada."

A ONG constatou que nos últimos dois anos a falta de medicamentos básicos e outros suprimentos médicos cruciais levou a uma deterioração significativa na qualidade e segurança do cuidado médico no país. Médicos e pacientes relataram escassez severa -e, em alguns casos, a ausência completa- de medicamentos básicos como antibióticos e analgésicos. Dentre os suprimentos insuficientes ou ausentes incluem-se luvas cirúrgicas, gaze e álcool médico.

Uma pesquisa realizada em agosto de 2016 por uma rede de mais de 200 médicos constatou que 76% dos hospitais públicos nos quais os profissionais trabalhavam não tinham os medicamentos básicos que, segundo a rede, deveriam estar disponíveis em qualquer hospital público em funcionamento.

Dentre os reflexos da crise está o aumento de 79% da taxa de mortalidade materna nos primeiros cinco meses de 2016, em comparação com a última taxa divulgada, em 2009. A taxa de mortalidade infantil aumentou 45% com relação aos números de 2013.

Pesquisadores da Human Rights Watch também encontraram longas filas que se formavam cada vez que supermercados recebiam mercadorias com preços regulados. Pessoas esperando disseram que tentavam comprar itens como arroz, macarrão, farinha, fraldas, pasta de dente e papel higiênico. Supermercados costumavam ficar com os estoques vazios muito antes de atenderem a todos.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2015 por grupos independentes da sociedade civil e duas importantes universidades venezuelanas, 87% das 1488 pessoas entrevistadas em 21 cidades de todo o país -a maioria de famílias pobres- disseram ter dificuldades para comprar comida. Cerca de 12% das pessoas disseram que comiam apenas uma ou duas refeições ao dia.

Segundo a ONG, o governo da Venezuela tem atacado aqueles que criticam seus esforços ineficazes para aliviar a escassez de alimentos e de medicamentos. A Human Rights Watch defende que governos da América do Sul deveriam pressionar o presidente Nicolás Maduro a adotar medidas imediatas para lidar melhor com a profunda crise humanitária, o que inclui explorar formas de contar com maior ajuda internacional.

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