Trump, a cada dia, mais isolado

Declarações sobre violência em Charlottesville criaram um vácuo em seu próprio partido e apoiadores

Presidente americano mais uma vez produziu uma crise em seu governo e é alvo de críticasPresidente americano mais uma vez produziu uma crise em seu governo e é alvo de críticas - Foto: Bredan Smialowski/afp

Donald Trump conseguiu criar uma nova tempestade para seu governo após as últimas declarações sobre o episódio de violência racial em Charlottesville, que provocaram um profundo mal-estar em seu próprio partido e que pode marcar uma mudança em sua presidência. Ao afirmar que os dois os lados eram responsáveis pela violência que abalou essa pequena cidade da Virgínia, onde uma manifestante antirracista foi morta por um simpatizante neonazista, o presidente americano ultrapassou um limite muito significativo, há pouco mais de 200 dias no cargo.

Suas declarações chegaram a ser elogiadas pelo ex-líder da Ku Klux Klan (KKK) David Duke por sua "honestidade e coragem", mas deixaram diversos legisladores mudos. E deu a clara impressão de que essas expressões eram o que Trump realmente pensava, e não o que disse no dia seguinte aos fatos, quando leu na Casa Branca uma declaração condenando a "violência racista".

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Um sinal claro deste desconforto é que os republicanos sequer apareceram na televisão para defender o presidente, e as únicas vozes a emergir foram de crítica. "Em Charlottesville, os errados estão claramente do lado da KKK e dos supremacistas brancos", disse a presidente do Comitê Nacional Republicano, Ronna Romney McDaniel, à rede ABC.

 "É preciso que ele repare os danos, e é preciso que os republicanos se manifestem alto e forte", afirmou à rede NBC, nessa mesma linha, o governador de Ohio, John Kasich, que enfrentou Trump nas prévias do partido na corrida pela Presidência em 2016. Kasich advertiu que Trump corre o risco de "colocar a Presidência em um terreno que não é aceitável para o país".

Os ex-presidentes republicanos George H.W. Bush e George W. Bush divulgaram um comunicado conjunto pouco comum para eles, no qual pedem que "repudiar o racismo, o antissemitismo e o ódio em todas as suas formas".

Na outra ponta, o comentário do ex-presidente americano Barack Obama sobre o episódio de violência em Charlottesville foi o tuíte mais curtido da história do Twitter, com 3,8 milhões de curtidas e 1,5 milhão de retuítes. "Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião", escreveu Obama no último domingo, reproduzindo frase do líder sul-africano Nelson Mandela.

Em mais um editorial combativo, o jornal The New York Times lamentou o comportamento de Trump, que se tornou, "infelizmente, nada surpreendente". "Os políticos de Washington esperavam que a indicação recente de John Kelly, um ex-general dos Marines, ao posto de chefe de gabinete da Casa Branca impusesse um pouco de disciplina nesse governo caótico", escreveu o jornal. "Mas o cerne do problema não está ligado à composição da equipe presidencial: está ligado ao homem que está no topo".

Dissolução
Em mais uma atitude tempestiva, por meio de seu Twitter, o presidente dos EUA Donald Trump, dissolveu ontem dois conselhos consultivos empresariais após vários executivos desistirem de integrá-los por causa dos comentários do mandatário sobre a manifestação de supremacistas brancos neste último fim de semana. Os líderes de companhias como Intel, 3M e Under Armour estavam entre os últimos a renunciar a seus cargos nesses conselhos.

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