Museus do Recife à espera de visitantes

Diariamente, centenas de pessoas passam em frente de prédios sem saber que dentro deles existem museus com muita história para contar

Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano  - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

A história é construída e contada todos os dias. Nas ruas, dentro das casas, em prédios públicos, praças. Parte dessas experiências vividas através dos anos é guardada para que se perpetue entre as gerações, que podem visitar o passado estampado ali, numa vitrine de museu.

No Brasil, os dados mais atualizados sobre esses equipamentos são da plataforma MuseusBR, que faz o mapeamento desde 2015 e aponta a existência de mais de 3.000 espaços do tipo em todo o país, dos quais 125 estão em Pernambuco, sobre as mais variadas temáticas. Em alusão ao Dia Internacional do Museu, comemorado no último sábado (18), a Folha de Pernambuco foi a três locais que estão à disposição da sociedade, mas que acabam passando despercebidos.

Na Cidade Universitária, por exemplo, está localizado o único Museu de Ciências Nucleares do país. “O que as pessoas sabem sobre o tema é algo muito negativo, relacionado a bombas e ataques. Mas é uma área da ciência presente no dia a dia das nossas vidas e que as pessoas desconhecem”, explica a professora e pesquisadora Denise Levy, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da Universidade de São Paulo (USP).

Leia também:
Obras de reconstrução do Museu Nacional começam este ano, diz diretor
Cepe abre nova unidade no Museu do Estado

Ela vem pelo menos uma vez ao ano até o espaço, ministrar palestras e aulas acerca do tema. “Daí a importância de um espaço como esse, interativo, com esculturas de personalidades, como Albert Einstein e Marie Curie, que descobriu a radioatividade e recebeu dois prêmios Nobel. Temos réplicas de usinas nucleares, painéis que explicam como essa energia funciona e como está presente nas nossas vidas”, defende a professora.

O espaço foi idealizado e construído por Helen Jamil Khoury, que é a coordenadora do local. “Nós estamos abertos para todo o público, mas geralmente são alunos e professores que vêm. A energia nuclear hoje é um tema que faz parte da grade curricular do ensino básico. As pessoas precisam conhecer até para desmistificar o tema”, ressalta Helen.

Lá, é possível aprender sobre a aplicabilidade da energia nuclear na indústria de alimentos, dos cosméticos, como fonte de energia limpa, na medicina, farmácia, entre outros segmentos. “Esse é um espaço necessário para aproximar a população do tema, assim como estimular o surgimento de novas pessoas interessadas em estudar e pesquisar a área”, insiste Denise.

Fundado em junho de 2010, o Museu de Ciências Nucleares funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12h30 e das 13h30 às 17h, na Avenida Professor Luiz Freire, 1000, e a entrada é gratuita. Para grupos e escolas que desejem agendar uma visitação, pode entrar em contato por meio do (81) 2126.8708.

Mas, para quem prefere assuntos mais amenos, como música, o Pátio de São Pedro, no Centro do Recife, tem um equipamento que reúne um vasto acervo dedicado ao Rei do Baião, o artista Luiz Gonzaga. Com mais de 1.500 peças, entre discos, fotografias do Velho Lua com personalidades do Brasil e do mundo, textos, livros, peças da vida sertaneja que influenciaram o compositor, o espaço tem uma fachada discreta no coração da Capital Pernambucana. Diariamente centenas de pessoas passam na frente, indo e vindo das feiras do entorno, e não imaginam a vasta história de uma das maiores expressões populares.

“Nós começamos a levar a exposição para outros lugares, fizemos palestras, falamos no Mercado de São José e isso chegou a atrair muitas pessoas interessadas na obra de Luiz Gonzaga”, conta Mauro Alencar, coordenador do local. Fundado em agosto de 2008, o memorial nasceu da indagação pública de artistas que sentiam a necessidade algo voltado pra esse marco cultural, no Estado em que ele nasceu. “Mário de Holanda tinha uma vasta coleção sobre Luiz Gonzaga e queria vender. As prefeituras de Alagoas e da Paraíba tinham interesse em comprar, mas Mário queria que ficasse aqui em Pernambuco. E aí fizemos a ponte com a Fundação de Cultura que comprou esse acervo, em 2006, e nós começamos a trabalhar para instituir o lugar.”

Desde então, outras doações e aquisições foram se somando ao que já existia, inclusive uma roupa de sertanejo doada pela viúva de Luiz Gonzaga. “Aqui é ideal para quem quer ter embasamento informativo, com acesso a materiais que não é possível encontrar em nenhum outro lugar, inclusive lá em Exu”, continua Mauro.

Por causa desse vasto acervo, o Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem, com sede no Rio de Janeiro, elegeu no início do mês, o espaço como um dos top 10 a nível Nordeste para visitação. “São mais de 800 fotos, LPs dos anos 40 a 80, recortes de revista. Nós auxiliamos exposição na Holanda, no Estados Unidos. Também servimos como fonte para a escola de samba Unidos da Tijuca, em 2012, que homenageou Luiz Gonzaga e saiu campeã”, acrescentou o jornalista, músico e pesquisador Diviol Lira. “Estamos sempre estudando, indo atrás, para oferecer esse espaço para as pessoas contemplarem a vida e a obra de Luiz Gonzaga.”

O memorial funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, aberto ao público de forma gratuita. Grupos e escolas podem agendar visitação por meio do (81) 3355.3155.

Também no coração recifense, na Rua do Hospício, número 130, o Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano guarda parte importante da história não só do nosso Estado, mas do Brasil. “Foi fundado em 28 de janeiro de 1862, para agregar objetos, achados arqueológicos, conservar documentos, com objetos antigos, que datam de 1816”, explica Reinaldo Carneiro Leão, um dos 50 sócios efetivos do espaço. Trata-se de um museu particular, que tem o acervo tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Lá você encontra os óculos que pertenceram ao capitão Barros Lima, o Leão Coroado, da Revolução Pernambucana de 1817, assim como a espada. Temos o canhão de maior calibre do Brasil, que data de 1629”, continua Reinaldo.

Também é possível encontrar mobiliários do Século 19, louças, armas, espadas, dentre outros objetos. “Temos uma escrivaninha do padre Miguelinho, revolucionário de 1917. Tem uma mesa do século 18, em que a sentença de morte de Frei Caneca foi alterada, para enforcamento. Pratos que pertenceram ao império, armas da guerra de canudos, espadas, uma série de coisas e objetos que contam muito da nossa história”, insiste Reinaldo, que está no Instituto desde 1975.

No local também está a maquete do Recife Holandês, construída a partir de plantas que estão guardadas em um de Berlim. “Nós estamos localizados no Centro do Recife, ao alcance das pessoas que estão por ali, todos os dias. Estamos em um casarão cedido pelo nosso único grande benfeitos, o governador Manoel Borba, que nos deu o espaço em 1918.”

O museu abre das 8h às 12h e das 14h às 17h, de segunda a sexta-feira, com entrada a R$ 2. O telefone para agendar visitação de grupos e escolar é o (81) 3222.4952.

Veja também

Pandemia reduziu migração mundial em 30%, aponta ONU
Mundo

Pandemia reduziu migração mundial em 30%, aponta ONU

Familiares buscam cilindros de oxigênio salvar pacientes em Manaus
Pandemia

Familiares buscam cilindros de oxigênio salvar pacientes em Manaus