Mutum-de-alagoas

Mutum faz postura na Usina Utinga, em Alagoas, após 42 anos

A fêmea, de forma inesperada, colocou um ovo, fato que causou comoção e alegria, pois é um indício que a reprodução da espécie é possível

Mutum fêmea que vive na Usina Utinga pôs um ovo Mutum fêmea que vive na Usina Utinga pôs um ovo  - Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

Após 42 anos, uma das aves mais raras do mundo e no limiar da extinção, o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), deu um sinal de sobrevida à espécie. No Zooparque Pedro Nardelli, conhecido pelo Programa de Reintrodução da espécie, localizado na Usina Utinga, em Alagoas, vive um casal de mutuns desde 2017. Esta semana, a fêmea, de forma inesperada, colocou um ovo de 130 gramas, fato que causou comoção e alegria, pois é um indício que a reprodução é possível e que a ave está madura para acasalar. 

No momento da postura, o casal de mutuns estava separado e devido a isso, o ovo não foi fertilizado. A expectativa é de que, daqui há 3 semanas, os dois estejam juntos novamente no viveiro que está passando por reformas e que a fêmea, novamente, ponha um ovo, desta vez, fertilizado. 

De forma inédita, os filhotes devem ser criados pela mãe. Nenhum mutum que nasceu em cativeiro, até então, foi chocado pela mãe, mas por chocadeiras elétricas. Agora, a probabilidade é de que o macho e a fêmea - ou somente a fêmea - realizem todo o processo. 

A expectativa é de que daqui há 3 semanas a fêmea coloque um novo ovo. Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

De acordo com o presidente e um dos fundadores do Instituto Para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), Fernando José Mendes Pinto, responsável pelo Zooparque, com o viveiro projetado de 400 metros quadrados de área, o intuito é de que o casal crie os filhotes no ambiente e que a equipe acompanhe desde a postura até a criação do filhote de mutum.

Devido à pandemia da Covid-19, alguns fatores atrasaram esse momento de copulação, como o crescimento das árvores que quebraram a tela do viveiro maior e o espaço precisou ser reformado. O casal de aves foi separado em dois locais menores ao lado do viveiro central. A equipe realiza obras para que os dois voltem a ficar juntos o mais rápido possível

Fernando foi a última pessoa a ver um ninho com ovos de mutum na natureza, há 42 anos, e se sente emocionado pelo ocorrido. 

“Nós estamos fazendo agora todo o protocolo para que a gente consiga, se não nessa primeira postura, porque foi de imprevisto, a gente não esperava isso, que na segunda postura dela que pode ser daqui há 3 ou 4 semanas, nós tenhamos toda uma estrutura de ninho, viveiro pronto, para ver se ela põe os ovos, choca e cria os filhotes nesse viveiro” destacou Fernando. 

Presidente e um dos fundadores do Instituto Para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), Fernando José Mendes Pinto. Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

No local, a equipe terá a oportunidade de acompanhar o casal de mutuns criando o filhote como se o processo estivesse sendo realizado na natureza. Todos os momentos serão acompanhados e estudados, como o côrte que o macho faz para a fêmea, a postura, o choco e a criação

“Dá uma repercussão de mostrar que é possível a gente fazer um trabalho desse, salvar uma espécie que estava no limiar da extinção, graças a um trabalho conjunto de várias instituições”, afirmou Fernando. 

De volta para casa 
Ave símbolo de Alagoas e primeiro animal a ser considerado extinto da natureza no Brasil
, o mutum voltou ao seu habitat há 5 anos no viveiro montado na Usina Utinga. O retorno foi possível graças aos esforços de uma série de criadores, universidades, Organizações Não Governamentais (ONGs), além de órgãos dos governos federal e estadual, entre eles o Ministério Público do Estado de Alagoas

A Usina Utinga, do Grupo EQM, presidida por Eduardo de Queiroz Monteiro, do qual faz parte a Folha de Pernambuco, teve papel fundamental nesse processo e cedeu o terreno que se tornou o reduto da ave. 

O mutum é uma grande bandeira. Se você preserva o mutum, tem que preservar a mata e preservando a mata você preserva todas as aves endêmicas da Mata Atlântica do Nordeste”, pontuou Fernando.

WhatsApp Image 2022 12 14 at 19.03.45Mutum-de-alagoas. Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

Ainda de acordo com Fernando, o mutum só existia no Estado de Alagoas e era da área litorânea de Mata Atlântica. Para serem soltos na natureza, as aves precisavam de uma grande área de mata. 

“Nós já estávamos com o projeto do IPMA na Usina Utinga. Na época, a Utinga foi fundadora do instituto junto com a Serra Grande. As duas instituições fundaram comigo o IPMA. O Dr. Eduardo deu continuidade a esse processo, então nós viemos pra cá, fizemos um comodato dessa área, o Ministério Público Estadual, que é um outro grande parceiro, fez um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e isso propiciou a criação desse parque, que era o meu sonho, ter um lugar onde a gente pudesse mostrar a população um casal de mutum”, reiterou. 

Usina Utinga aliada à preservação 
A Usina Utinga apresenta um sistema de gestão ambiental com 14 programas
, entre eles, a conservação da biodiversidade. No programa, o local apoia o IPMA na conservação das espécies ameaçadas. Além disso, o local tem uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) com 960 hectares, que foi criada, principalmente, para servir de abrigo para o mutum, com o intuito de reintroduzir a espécie na natureza. 

Segundo Sônia Roda, assessora de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Grupo EQM, o sistema de gestão ambiental, baseado no ISO 14000 inclui diversos procedimentos que visam um melhor funcionamento da gestão ambiental. 

“Um desses programas, envolve o setor agrícola e inclui a proteção às áreas florestadas, principalmente da RPPN que tem alta  biodiversidade. O setor agrícola se comprometeu a reduzir algumas  práticas como a aplicação de defensivos e vinhaça nas proximidades da área florestada  para não haver nenhum tipo de contaminação além de auxiliar o setor ambiental no enriquecimento florestal”, pontuou. 

Assessora de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Grupo EQM. Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

Sônia destacou que o Grupo EQM enxerga a conservação da biodiversidade de uma forma diferenciada e com a realização de diversas ações.

A analista ambiental da Usina Utinga, Marcela Daher, reiterou que existem diversas estratégias de conservação das espécies que são praticadas no local, entre elas o reflorestamento. 

“O mutum é uma espécie que está praticamente extinta e algumas atitudes e ações são voltadas para a manutenção dela como, por exemplo, a criação de um espaço aclimatado para que a espécie fique bem acondicionada antes da sua soltura. A gente também tem estratégias de reflorestamento. A Usina tem um papel muito forte com relação à gestão ambiental, porque segue leis e segue a questões de instalações, processos, produtos e serviços. A gente segue todo esse padrão de gestão ambiental dentro da empresa. É nossa obrigação manter o equilíbrio das nossas matas e manter as nossas bordas protegidas”. 

O diretor da Usina Utinga, Eduardo Cunha, e o superintendente Tony Ramos Paz, juntamente com o presidente do Grupo EQM, Eduardo de Queiroz Monteiro, defendem as ações promovidas no local para a preservação da Mata Atlântica e de espécies que são consideradas extintas, como o mutum-de-alagoas. A promoção de uma gestão ambiental é uma política e um compromisso de toda a equipe. 

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