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EUROPA

Nacionalista inspirado em Trump vence 1º turno das eleições presidenciais na Romênia

Eleição ocorre meses após pleito ser cancelado por suposta interferência russa

George SimionGeorge Simion - Foto: Daniel Mihailescu/AFP

George Simion, um nacionalista de extrema direita que prometeu “tornar a Romênia grande novamente” (uma referência ao movimento MAGA, do presidente Donald Trump nos Estados Unidos), venceu o primeiro turno das eleições presidenciais do país no domingo, contrariando a tendência recente de eleitores ao redor do mundo de punir candidatos associados ao mandatário americano. Líder da Aliança pela União dos Romenos (AUR), Simion, de 38 anos, superou com ampla margem os demais candidatos, conquistando 40,96% dos votos. Ele agora enfrentará o prefeito reformista de Bucareste, Nicor Dan, que acumulou 20,99%.

O segundo turno, previsto para ocorrer em 18 de maio, colocará em disputa dois candidatos fortemente anti-establishment, mas com visões ideológicas opostas. Matemático e ex-ativista anticorrupção, Dan, de 55 anos, fundou o partido União Salvar a Romênia (USR) em 2016 e concorreu com uma plataforma pró-União Europeia. Na manhã desta segunda-feira, Dan disse à imprensa esperar por um “segundo turno difícil, contra um candidato isolacionista”.

— Esse foi um processo democrático que a Romênia precisava [passar]. Esta não será uma disputa entre indivíduos, será um debate entre uma direção pró-Ocidente para a Romênia e uma direção anti-Ocidente — afirmou. — Conclamo todos os romenos a fazerem parte desta batalha, e estou otimista de que venceremos.

A disputa mais recente foi a segunda tentativa de eleger um presidente no país após a vitória surpreendente de outro candidato da extrema direita no ano passado. Na ocasião, a liderança inesperada de Calin Georgescu – que foi impedido de concorrer no último domingo – levou o tribunal superior do país a anular o pleito apenas dois dias antes do segundo turno original, previsto para dezembro. Após acusações de interferência russa na campanha eleitoral – que Moscou nega –, a Justiça romena alegou que a decisão teve como objetivo “garantir a correção e a legalidade do processo eleitoral”.

A decisão, que Simon classificou como um “golpe de Estado”, tem sido criticada por grupos de extrema direita e aliados de Trump. Em fevereiro, o vice-presidente americano, JD Vance, citou o caso como exemplo de retrocesso democrático e alegada discriminação contra políticos de extrema direita durante um discurso na Conferência de Segurança de Munique. Por outro lado, o vice-presidente da Comissão Federal de Eleições dos EUA, James Trainor, declarou no sábado que estava “muito claro” que a eleição do ano passado havia sido manipulada.

Simion compartilha muitas das visões de Georgescu, incluindo a hostilidade à União Europeia e a oposição à ajuda militar à Ucrânia. Apesar disso, Simion, que já é conhecido na política romena há anos, é considerado mais previsível do que Georgescu, uma figura considerada errática, dada a reflexões místicas e a elogios a fascistas do passado romeno. Simion, que ficou em quarto lugar na eleição do ano passado e depois apoiou o candidato banido, declarou em discurso pré-gravado exibido após o fechamento das urnas no domingo:

— Estou aqui para restaurar a ordem constitucional — disse. — Quero democracia, quero normalidade, e tenho um único objetivo: devolver ao povo romeno o que lhe foi tirado e colocar no centro das decisões pessoas comuns, honestas e dignas.

A vitória de Simion pode levá-lo ao cargo mais alto da Romênia, apesar de ele ser proibido de entrar na Ucrânia e Moldávia, países vizinhos, por fazer reivindicações territoriais. Defensor do fim da ajuda militar a Kiev, ele representaria a Romênia em cúpulas da União Europeia e da Otan e se tornaria o comandante supremo das Forças Armadas. Falando a repórteres no domingo, Simion declarou ser adepto ao movimento do presidente dos EUA e fez uma série de acusações sobre irregularidades na votação, além de acusar várias emissoras de divulgar “mentiras”.

Premier deve renunciar
Em terceiro lugar no pleito ficou o candidato da coalizão governista, Crin Antonescu, com 20,07% dos votos. Logo atrás dele veio Victor Ponta, ex-primeiro ministro (2012-2015), com 13%. E Elena Lasconi, que ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições do ano passado, obteve apenas cerca de 2,6%. A participação final no último domingo foi de 9,57 milhões de pessoas, cerca de 53% dos eleitores habilitados, segundo dados das autoridades eleitorais do país.

Após o fraco desempenho, Lasconi anunciou nesta segunda-feira sua renúncia à liderança do partido USR. E o primeiro-ministro romeno, Marcel Ciolacu, também deve comunicar aos seus parceiros de coalizão que está preparado para deixar o cargo após o segundo turno, segundo uma fonte familiarizada com a decisão. Antonescu, o candidato da coalizão, por sua vez, se distanciou dos dois finalistas e não declarou apoio a nenhum deles no segundo turno, afirmando:

— Não fiz parte da coalizão. Apresentei um programa, algumas ideias, e algumas pessoas votaram em mim. Peço a elas que decidam por si mesmas qual dos candidatos remanescentes está mais alinhado com as ideias que propus. Incentivo todos que votaram em mim hoje a comparecerem às urnas.

Os mercados romenos despencaram após a vitória de Simion levantar dúvidas sobre a posição do país como parceiro confiável do Ocidente. Esse novo cenário também pode dificultar os esforços do governo para conter o maior déficit orçamentário da União Europeia. Ainda assim, Simion atribuiu a virada à pobreza persistente, que forçou milhões de romenos a deixar o país em busca de trabalho. Ele também disse ter se beneficiado da falta de firmeza do atual governo na defesa dos interesses da Romênia dentro da UE e em outros contextos internacionais.

A turbulência eleitoral mergulhou a Romênia em sua maior crise política desde o colapso do regime de Nicolae Ceausescu, há três décadas e meia, e ameaça fortalecer ainda mais as forças antiliberais que vêm ganhando espaço em toda a Europa. 

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