'Não considero meu filho uma pessoa sadia', diz Cláudio Amaro, alegando inocência

"Eu fui doutrinado para salvar vidas, não para tirá-las", disse o ex-médico Cláudio Amaro em sessão do júri nesta terça

Chegada dos acusados no julgamento do caso Artur EugênioChegada dos acusados no julgamento do caso Artur Eugênio - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

No segundo dia de julgamento de Cláudio Amaro e Jailson Duarte César, dois dos cinco apontados de envolvimento no assassinato de Artur Eugênio, 35 anos, em maio de 2014, o ex-médico Cláudio Amaro enfrentou os questionamentos da promotoria do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). No último interrogatório da sessão, por volta das 22h, Jailson optou por não responder às perguntas, citando apenas "nada a declarar".

A sessão, que começou por volta das 11h desta terça-feira (11), com três horas de atraso, precisou ser interrompida logo em seguida porque Cláudio Amaro não se sentiu bem por estar vestido com a farda do Cotel. A reportagem do Portal da Folha de Pernambuco foi exibida na plenária para provar que ele estava com uma camisa social em mãos ao chegar ao Fórum de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, e que poderia tê-la utilizado. Ele alegou que cumpriu o que o diretor do Cotel indicou.

Depois, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves suspendeu a sessão para analisar uma reportagem, feita à época da prisão de Cláudio, e que teve duração de duas horas. Após o intervalo do almoço, a mídia foi exibida para o júri, formado por seis homens e uma mulher, fazendo com que Cláudio Amaro só começasse a falar às 16h.

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A promotora Dalva Cabral questionou o réu sobre a relação dele com a vítima: impressões, opiniões e envolvimento nos acontecimentos nos últimos meses que antecederam o crime.  De forma muito evasiva, tanto que em determinado momento chegou a descrever com detalhes a primeira cirurgia da história da humanidade, que seria torácica, com a retirada da costela de Adão para a criação de Eva (descrita no livro de Gênesis da Bíblia), Cláudio Amaro colocou sua versão dos fatos. O depoimento dele durou cinco horas e meia.

O ex-médico Cláudio Amaro disse que conheceu Artur Eugênio em São Paulo, quando ele estava concluindo a residência. Falou que considerava a vítima apenas uma pessoa qualificada pelo fato de ter se formado, e que só o chamou para Recife a pedido de um médico amigo. "Mas ele tinha, como todo médico que sai da residência, apenas embasamento teórico. Faltava conhecimento prático, que ele iria adquirir com o tempo." Questionado, ele afirmou que "não considerava Artur um médico brilhante e acima da média".

Pagamento de honorários com percentuais menores para Artur e o julgamento ético pelo qual passou no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) em abril, quando teve o diploma de médico cassado, também foram debatidos entre promotoria e réu. As divergências entre os dois foram o principal mote da sessão. "Durante a parceria que nós mantivemos, não houve qualquer atrito nos casos cirúrgicos. O que ele falava de mim não me incomodava, porque isso é normal."

O acusado alegou, durante seus posicionamentos, que Cláudio Amaro Júnior, filho dele e já condenado, ouviu Artur Eugênio xingá-lo de "mau-caráter" em duas situações. A primeira, por causa de uma ata do Hospital das Clínicas, e a segunda, por causa de uma avaliação na qual Cláudio reprovou Artur Eugênio. Nessa última ocasião, ele teria sido chamado também de "crápula" e acusado de prejudicar Artur por perseguição. "Houve um afastamento, não um estranhamento. Nada que gerasse inimizade."

Ele contou ainda que, em um almoço em família, comentou com o filho Daniel que ele considera como único "filho-amigo", que, de novo, Artur Eugênio estaria agindo contra ele. Durante a conversa, enquanto Daniel sugeria uma ação política contra Artur por meio do Cremepe, Cláudio Amaro Júnior teria ouvido a conversa e se irritado.

Sobre o filho, o réu disse que não tinha muito contato pessoalmente, mas que se falavam, em média, três vezes por semana. "Júnior sempre foi de relacionamento difícil. Mas todos os meus filhos merecem meu amor igualmente." Cláudio Amaro falou que ficou sabendo do envolvimento do filho no crime no Cotel. "Ele disse que não matou, mas que tinha envolvimento. Um filho destruir uma história de vida que eu lutei para construir, eu não considero uma pessoa sadia. São quatro anos e meio no Cotel. Perdi 23 quilos, por uma coisa que não fiz", afirmou. "Eu fui doutrinado para salvar vidas, não para tira-las."

Ainda foi ressaltada, por tempo considerável, o atual estado de saúde de Cláudio Amaro, que alega ter alto teor de ferro no sangue, o que seria um indicativo de possibilidade de câncer no pâncreas e intestino.

A sessão foi encerrada por volta das 22h30 desta terça. A expectativa é de que o julgamento chegue ao fim nesta quarta (12), após debate entre promotoria, assistente de acusação e advogados de defesa.

Entenda o caso
O cirurgião Artur Eugênio foi sequestrado na porta de casa e assassinado com quatro tiros no dia 12 de maio de 2014. O corpo dele foi encontrado no dia seguinte na BR-101, no bairro de Comporta, no município de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife (RMR). Segundo a denúncia do MPPE, o crime teria sido motivado por desentendimentos profissionais entre o então médio Cláudio Amaro e a vítima.

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