Entrevista

'É pouco provável que haja reforço anual de vacina contra a Covid-19', diz Margareth Dalcolmo

Em entrevista à Folha de Pernambuco, pesquisadora da Fiocruz fala ainda sobre os efeitos da 'Covid longa' e as formas de combatê-la.

Médica e pesquisadora Margareth DalcolmoMédica e pesquisadora Margareth Dalcolmo - Foto: Divulgação

Pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), a pneumologista Margareth Dalcolmo é uma das principais referências sobre a Covid-19 e a pandemia no Brasil. Recentemente, ela esteve no Recife para lançar o livro “Um tempo para não esquecer”, em que traça uma cronologia da visão científica sobre o novo coronavírus. Na entrevista a seguir, a médica fala sobre os efeitos da ‘Covid longa’ e a importância da vacinação no combate à crise sanitária.

Como se caracteriza a “Covid longa”?
Como a Covid-19 é uma doença de natureza inflamatória, ela se caracteriza pelo comprometimento da microcirculação do corpo, venosa e arterial, com liberação de citocinas tóxicas, inflamatórias e pró-coagulantes, o que caracteriza o quadro que favorece o surgimento de tromboses, embolias, os fenômenos vasculares. Além disso, a Covid-19 é uma doença que afeta o corpo todo e pode deixar muitas sequelas, com a permanência de sintomas inflamatórios. Essas sequelas dizem respeito a qualquer órgão, seja o coração, o pulmão, o sistema nervoso central. Então, a ‘Covid longa’ se caracteriza por uma série de sintomas diferentes, eventualmente comprometendo mais ou menos um órgão. E isso exige uma organização de serviços multidisciplinares que contemplam várias especialidades médicas, de fisioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos, para reabilitar as pessoas para uma “vida normal”, digamos assim.

Quais são os sintomas mais comuns que se prolongam?
Muitas das sequelas, que se caracterizam, portanto, como a “Covid longa”, são de natureza psíquica. Muitas pessoas saem com alteração de comportamento, de humor. E tem outra característica, que é o aparecimento de sintomas depois do ciclo. A pessoa sai da doença, bem, relativamente estável, e começa a aparecer determinado sintoma algum tempo depois. Inclusive, sintomas dermatológicos. Há muitas dessas chamadas dermatoides que aparecem pós-Covid-19. São alergias, reações, conforme o quadro de sintomas e sinais decorrentes desse processo inflamatório causado pela doença.

Como surgem as complicações psíquicas? E as renais?
As sequelas de natureza psíquica estão relacionadas tanto ao comprometimento do sistema nervoso central, que pode ocorrer, quanto a reações de traumas. As pessoas ficaram muito tempo hospitalizadas, sob ventilação mecânica. Há muitos casos de pessoas que desenvolveram medos, temores que não tinham antes. A reabilitação existe pelas sequelas não só respiratórias como cardiovasculares, motoras e psíquicas. E os rins são alguns dos órgãos mais lesados, porque a filtração renal fica muito comprometida pelo processo inflamatório da microcirculação. Por essa razão, muitos pacientes ficam dependentes de hemodiálise. Alguns conseguem sair, outros ficam com essa lesão para sempre.

Durante a pandemia, nos deparamos com diversos absurdos sobre como enfrentar a Covid-19. Algumas delas dizem respeito à vacinação. O que dizer às pessoas para convencê-las do papel da vacina no combate à doença e às consequências que ela traz?
Não há dúvidas de que a arma mais poderosa para combater a doença e impedir mortes pela Covid-19 é a vacinação por uma razão muito lógica da medicina. Para as viroses crônicas, como a Aids e a hepatite C, a grande solução são os medicamentos, ao contrário das viroses agudas. A Covid é uma delas. Eu considero as vacinas contra a Covid-19 o feito humano mais extraordinário das últimas duas décadas, porque elas foram elaboradas resgatando modelos já existentes de vacinas testadas para outras doenças, que não haviam funcionado. As vacinas não burlaram nenhuma etapa metodológica ou ética. São altamente eficazes, e quem tinha qualquer dúvida sobre isso provou na prática pela enorme redução de hospitalizações e mortes que ocorreram no Brasil com o aumento da proporção de população vacinada.

A aplicação de uma quarta dose começa a ser uma realidade para pacientes imunossuprimidos. Esse segundo deverá ser estendido a todo o público adulto como foi a terceira? É provável que a vacina contra a Covid-19 se torne anual?
Esse é o grupo prioritário, mas ele será certamente estendido no momento em que nós alcançarmos e resgastarmos todos esses milhões de pessoas que ainda faltam tomar a segunda dose, além daquelas que tomaram duas, mas não tomaram a terceira. Esse resgate é muito estratégico hoje, no Brasil. É pouco provável que haja necessidade de reforços anuais como se faz com o vírus da Influenza, que é muito mais mutável. Todos os anos a vacina da gripe é nova, constituída a partir do vírus que circula naquele ano. Por exemplo, a de 2022 vai incorporar o H3N2, responsável pela endemia que houve no Sudeste e no Nordeste no começo do ano.

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