"Não me abandona, Bento, não me deixa", pediu menino que segurou no colo o irmão baleado no Rio
Menino, de 13 anos, viu o irmão um ano mais novo, Bento Costa Petillo Bezze, ser baleado e cair em seus braços
"Ele caiu nos meus braços. Se eu soubesse que ele seria atingido...", lamentou o irmão de Bento, de 13 anos, enquanto tentava secar com força o rosto molhado pelas lágrimas. A cena de Bento Costa Petillo Bezze caindo em seu colo após ser atingido por uma bala perdida, em 31 de maio, não sai da sua cabeça. Durante o velório de Bento, realizado nesta terça-feira no Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte do Rio, o garoto repetia todo o tempo que queria o irmão de volta. E que, se soubesse que Bento seria baleado, não teria ficado com ele na quadra do condomínio da Pavuna onde a família mora.
Dezenas de amigos e conhecidos compareceram à despedida de Bento. A mãe, Fernanda, gritava de saudades do filho assim que chegou à capela; o pai, Luiz, andava cabisbaixo, com o rosto inchado de tanto chorar. Mas foi o irmão de Bento que ficou o tempo todo cercado por, no mínimo, duas pessoas. Por vezes, a mãe, o pai e o irmão mais velho, Kauã, de 18 anos, seguravam as lágrimas para se transformar no suporte que o garoto precisava.
O menino de 13 anos só saiu da capela quando o caixão precisou ser fechado. Do lado de fora, foi mais uma vez abraçado e consolado. Desta vez, por amigos de Bento, que seguravam cartazes com declarações de amor, luto e dor escritas pelas próprias crianças e pelos adolescentes.
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"Bento, você era o nosso herói", "Também sinto vontade de te abraçar", "Volta pra gente!" e "Nosso eterno menino maluquinho" eram algumas das frases escritas pelos amigos de Bento. A frase no cartaz do irmão era singela: "Irmão, eu te amo".
A mensagem de amor completava o que o irmão disse a Bento no último abraço, com o garoto baleado no colo: "Eu vou pedir socorro, irmão, espera". No velório, o garoto conseguiu segurar a cartolina por poucos segundos, ao lado da amiga de 12 anos que estava no momento em que Bento foi baleado, mas logo soltou o papel e foi puxado para o meio de um abraço coletivo.
— Eu quero o meu irmão! Traz o meu irmão de volta! — gritou o menino ao ser abraçado pelas crianças que tentavam consolá-lo.
Quando chegou ao cemitério, o garoto caiu sentado na calçada que ficava no começo do caminho até a gaveta onde o caixão com o corpo de Bento seria colocado. Aos prantos, o menino voltou a chamar pelo irmão e até a se culpar pela morte dele.
— Se eu soubesse que foi a última vez, o último abraço... — lamentou aos gritos, cercado pela família que fazia um cerco ao redor do menino. — Foi nos meus braços! Acertaram o meu irmão.
A caminhada até a gaveta foi iniciada após e irmão de Bento se recuperar. Diante do jazigo vertical, ele observou atentamente o coveiro retirar as seis coroas de flores de dentro do carro e disse ao pai que o caixão não estava coberto com a bandeira do Flamengo, time do coração de Bento. Ele reclamou que precisavam cobrir, que tudo precisava ser feito "direitinho".
Com o caixão coberto com a bandeira do time, o garoto se juntou ao pai, ao irmão e ao tio, Daniel de Castro, para carregá-lo até a sepultura. Entretanto, a pouca altura e força de um garoto de 13 anos não permitiram que o menino conseguisse levantar o caixão e colocá-lo na gaveta, e ele foi substituído por um parente mais forte.
— Não deixa levarem o meu irmão, pai, não deixa — o garoto pediu ao ver o coveiro colocar o cimento em volta da gaveta. — Não me abandona, Bento, não me deixa.
Com a gaveta lacrada, o garoto colocou uma flor branca sobre o cimento que ainda secava.
Tiro pode ter vindo de festa de traficante
A polícia suspeita que o disparo que matou Bento tenha sido feito durante a comemoração de aniversário de Douglas Oliveira dos Santos, o Geremias ou Pudim, apontado como chefe do tráfico do Morro da Quitanda, em Costa Barros. O criminoso do Terceiro Comando Puro (TCP) completou 34 anos naquele dia.
Há um mandado de prisão em aberto contra Geremias por roubo. Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ), em 30 de novembro de 2023, ele e cinco comparsas roubaram um mototaxista perto da Quitanda, levando-o para dentro da comunidade e mantendo lá a vítima por cerca de uma hora e 20 minutos. À época da denúncia, em junho de 2024, Douglas tinha 14 anotações criminais.
Procurada, a Polícia Civil informou que 'a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) foi acionada e, desde os primeiros momentos, adotou as medidas investigativas necessárias para apurar a morte de Bento Costa Petillo Bezze. Agentes realizaram a perícia no local nesta terça-feira e a investigação está em andamento'.

