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No Dia do Solteiro, conheça histórias de quem é feliz independentemente do estado civil

Bruna, Camila e Guilherme ajudam a quebra o estigma de que ser solteiro é sinônimo de solidão

"Hoje, eu me considero mais livre para saber o que eu quero e quem eu aceito", refletiu Camila Menezes"Hoje, eu me considero mais livre para saber o que eu quero e quem eu aceito", refletiu Camila Menezes - Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

O mandacaru é um cacto típico da região semiárida do Nordeste brasileiro. Uma espécie rústica, que sobrevive em terrenos secos, longe das condições consideradas ideais para prosperar. Símbolo de resiliência, seu desabrochar é visto como um sinal de renovação. Assim como algumas plantas buscam maneiras particulares de crescer, há pessoas que também constroem sustentação própria, sem ter um parceiro amoroso como único ponto de apoio. Ser solteiro não é viver sem raízes, mas descobrir que elas podem evoluir de várias formas: nas amizades, na família, nos hobbies ou qualquer outra ramificação que ofereça afeto, companhia e pertencimento. No Dia do Solteiro, comemorado em 15 de agosto, a Folha de Pernambuco conversou com quem aprendeu a ser feliz independentemente do estado civil.

Luto

Antes de se redescobrir como solteiro, muitas pessoas passam por uma espécie de “luto” pelo fim da relação, observou a representante comercial Camila Menezes, de 36 anos, divorciada há cinco anos e com um filho de 11.

"Foi a descoberta de um mundo novo. Pela distância geográfica, como meus familiares não são daqui do Recife, o meu ex-companheiro era tudo para mim: marido, melhor amigo, família… Eu vivi um luto, mas hoje eu estou bem solteira. Não vou dizer que é tudo maravilha, mas você volta a ser você porque, em alguns casos, você acaba na relação vivendo mais a vida e o gosto do outro. Era engraçado que eu via um olhar quase de pena de algumas pessoas porque, enquanto meu ex-parceiro estava em outra relação, eu seguia solteira. Vinha o discurso de 'calma que já, já aparece alguém', como se eu precisasse disso para validar minha superação", salientou.

Camila contou que encontrou em um trabalho voluntário uma das principais redes de apoio para superar a separação. "Sempre quis fazer parte de um projeto voluntário e hoje eu criei laços fortes com o pessoal da Hamburgada do Bem (projeto social que promove lazer e alimentação para crianças de comunidades carentes). Eles me salvaram com o suporte que recebi. Hoje, eu me considero mais livre para saber o que eu quero e quem eu aceito".

Solitude

“Solidão não é um estado civil. Acho que existe uma confusão em achar que ser solteiro significa estar sozinho. Solidão é uma experiência emocional. Não ter um relacionamento é mais uma condição. É possível estar casado e ser profundamente solitário ou ser solteiro e feliz, com uma rede de afeto positiva”, afirmou a historiadora Bruna Neves, de 35 anos. O conceito abordado por ela se encaixa no termo “solitude”, estado consciente e voluntário de optar pela própria companhia. 

"Percebi que é possível ser feliz, ter uma vida afetiva rica, sem depender de alguém", concluiu Bruna



Solteira há três anos, Bruna conta que, com o passar do tempo, observou a busca por relacionamentos de uma maneira distinta da qual enxergava no passado. "A perspectiva feminista, por exemplo, me fez questionar algumas coisas. Antes, as mulheres viam o parceiro como o centro da vida. Isso acaba enfraquecendo amizades, redes de apoio e até a própria pessoa. O ideal de felicidade era a família nuclear, com o casal e filhos, e a mulher tinha essa pressão maior para se relacionar, casar, como se isso fosse um prêmio, o topo dentro de uma hierarquia de sucesso”, explicou.

"Estar solteira me fez enxergar que eu consigo estar bem comigo mesma. Nos últimos três anos, eu percebi que é possível ser feliz, ter uma vida afetiva rica, sem depender de alguém. Não sou contra namorar. Se eu decidir me relacionar novamente, morar junto e casar com alguém, a grande questão é que não colocarei isso no topo de uma pirâmide, mas sim entender que será um espaço importante da minha vida junto com outros pontos que também me preenchem", concluiu.

Dados

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados em 2023, o Brasil tem cerca de 81 milhões de pessoas solteiras. Uma delas é o jornalista Guilherme Vila Nova, de 39 anos, que se considera um “solteiro bem resolvido”. Definição que passou pela maturidade de relações passadas e pela autossuficiência emocional.

Guilherme não abre mão de sua personalidade para tentar se encaixar dentro de um namoroGuilherme não abre mão de sua personalidade para tentar se encaixar dentro de um namoro

“Antes, eu projetava muito minha felicidade em estar com alguém. Via amigos namorando, casando, e pensava que só seria feliz tendo alguém do lado. Depois eu entendi que o caminho não era esse. Estou solteiro há seis anos e não sinto pressão para namorar novamente, mesmo tendo os comentários de que estou ‘passando da idade’. Se eu disser que não sinto falta de ter um relacionamento, eu estarei mentindo. É sempre bom ter alguém para compartilhar o dia, celebrar conquistas, mas eu estou feliz com os meus amigos”, contou.

Adepto do "solteiro sim, sozinho nunca", Guilherme reforça que não abre mão de sua personalidade para tentar se encaixar dentro de um namoro.

"Não tenho relação séria, mas durante esses seis anos eu conheci pessoas, tive relacionamentos, mas não evoluíram. Eu saio sozinho, vou ao cinema e me sinto bem. Também não mudo quando estou namorando. Por exemplo, quando eu chego nos lugares, gosto muito de abraçar as pessoas. No começo do meu último relacionamento, meu ex estranhava um pouco esse comportamento, mas eu falava que sempre fui assim. Eu sou o mesmo estando em uma relação ou não. Antes de estar bem com alguém, preciso estar bem comigo mesmo".

Influência

A importância atribuída ao relacionamento não é uma exclusividade da sociedade ocidental. Estudos antropológicos mostram que, em diferentes culturas, as relações conjugais podem desempenhar papéis fundamentais na organização da vida social.

“Existe um antropólogo chamado Claude Lévi-Strauss que escreveu sobre relações em povos indígenas. Ele disse que certa vez perguntou o motivo de um homem da tribo estar desmotivado e a resposta foi de que ele estava assim por não ter se casado. Para eles, era preciso casar para se tornar uma pessoa. Já na nossa sociedade, nós tratamos isso como opção, mas ainda é um padrão normativo que foi imposto como modelo”, argumentou a antropóloga e socióloga Marion Teodósio de Quadros.

Marion também argumentou que a cobrança por relacionamentos pode ser distinta a depender do gênero, orientação sexual e faixa etária.

“Como a nossa sociedade é patriarcal, a mulher solteira é mais discriminada do que um homem solteiro. Ele até pode ser questionado perto dos 40 anos, quando já começam a pensar que ele pode ser homossexual. Já ela é vista como uma pessoa que não é atraente o suficiente para os homens, principalmente ao ficar mais velha. Quase como se fosse um fracasso dela e não como uma opção”.

Qualidade

De acordo com a psicóloga Laíse Alves, o valor das interações que vão além do aspecto do relacionamento amoroso é fundamental para preservar também a saúde emocional. "A solidão é uma experiência objetiva, mas é preciso desconstruir a ideia de que estar sem parceiro significa estar sozinho. O que importa é a qualidade dos vínculos”, reforçou.

“O relacionamento amoroso pode ser uma fonte importante de afeto e apoio, mas não a única. Nenhuma relação precisa dar conta de todas as nossas necessidades emocionais. Preservar as amizades não significa que você ama menos o seu companheiro, mas sim que você não vai deixar de existir como indivíduo”.

Laíse ainda complementou que o questionamento sobre a vida amorosa dos solteiros pode gerar uma sensação de incompletude. "Esse tipo de situação pode trazer muita ansiedade e fazer com que a pessoa entre num relacionamento não porque deseja, mas sim para corresponder ao que se espera dela. Estar solteiro não é estar atrasado na vida. Cada pessoa constrói sua trajetória em tempos diferentes e algumas se completam consigo mesmas, sem depender de uma relação". Assim como uma planta, cada pessoa pode encontrar terrenos próprios para criar raízes e florescer.

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