Noiva de promotor é pressionada em júri

Também vítima, por estar no carro quando Thiago foi assassinado, Mysheva foi alvo de acusações fora e dentro do plenário

Em 3h30 de depoimento Mysheva chorou e chegou a gritar : “Thiago me fez viver”Em 3h30 de depoimento Mysheva chorou e chegou a gritar : “Thiago me fez viver” - Foto: Clemilson Campos

 

O primeiro dia do júri popular de três dos cinco réus pela morte do promotor de Justiça Thiago Faria Soares foi marcado pelos relatos de Mysheva Martins, noiva da vítima na época do crime. Por quase três horas e meia, ela deu detalhes sobre a disputa de terra que, segundo o processo, motivou o homicídio. Emocionou-se ao falar dos planos que tinha com Thiago e disse que “o conto de fadas que vivia”, preparando o casa­­mento, “se tornou um fil­­me de terror”. Não escapou, porém, de ser pressionada por advogados de defesa so­­­bre pontos sensíveis, que insinuavam um suposto interesse dela na morte do promotor por razões financeiras. Fora do plenário, ela também foi alvo de declarações duras do cunhado de um dos acusados, Edmacy Ubirajara.

Ele é parente de José Ma­­­ria Pedro Rosendo Barbosa, apontado como mandante. Foi preso dois dias depois do assassinato, mas liberado quando a polícia confirmou seus álibis. “Tudo o que está havendo é uma armação de Mysheva. Ela sabia que eu mo­­­rava numa fazenda, achava que estaria lá e não teria co­­­mo provar que sou inocente. Por azar dela e sorte minha, eu estava na cidade e câmeras do comércio me filmaram lá”, afirmou.

Já no júri, Mysheva foi questionada por advogados dos réus por ter tratado, com parentes de Thiago, sobre uma solicitação de união estável, que lhe daria direito a uma pensão. Ela reconheceu que pensou em fazer o pedido. Também foi perguntado o motivo de ela, mesmo alegando ter ficado sob efeito de remédios após o trauma, ter se deslocado até o Re­­­cife, menos de 20 dias depois do crime, para pedir a devolução do dinheiro pago na viagem de lua de mel.

A noiva do promotor lembrou, várias vezes, que não estava sendo julgada. Assistentes de acusação e advogados chegaram a elevar o tom de voz quando perguntas mais contundentes eram feitas a Mysheva, tendo sido necessária a intervenção da juíza federal Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo, que presidia a sessão.

A magistrada também solicitou que, nas oitivas seguintes, perguntas que já tinham si­­­do feitas fossem evitadas. A repetição de questões po­­­de ter sido uma estratégia da defesa para expor eventuais con­­tradições nos relatos de Mysheva Martins.

Emoção
Mysheva detalhou minuciosamente a trajetória até o dia do crime, 14 de outubro de 2013. Disse que desavenças entre a família dela e a de José Maria Rosendo começaram antes mesmo de ela nascer, com assassinatos planejados e até atentados envolvendo o tio dela e o acusado.

A situação teria piorado quando a noiva de Thiago arrematou, num leilão, 25 hectares da Fazenda Nova, em Águas Belas, onde Rosendo e a família viviam. O réu teve que deixar o local, mas teria feito ameaças ao longo de cin­­­co meses.

Mysheva se emocionou por, pelo menos, quatro vezes. Quando foi perguntada sobre o que Thiago representava para ela, deu um bra­­­do que emudeceu todo o plenário, dizendo em seguida: “Thiago me fez viver, me fez sonhar, me deu uma vida que eu não tinha. A essa altura, estaria casada, talvez com meus filhos. Agora, não tenho mais vida”, gritou, afirmando que só está viva “porque Deus existe”.

Mysheva viajava com o noivo pela PE-300, de Águas Belas para Itaíba, no Agreste, onde o promotor trabalhava, quando foram atacados. Ela disse que escapou dos tiros porque se jogou num barranco ao lado do carro. O tio de­­la, Adautivo Martins, também saiu ileso.

O delegado federal Alexandre Alves, o segundo e último a depor no primeiro dia do júri, explicou que, do ponto de vista técnico, os relatos dela sobre a dinâmica do crime são endossados pelas perícias feitas com uso de um scanner 3D. A sessão acabou por volta das 22h50, quase 12 horas após iniciada. Nesta terça-feira o julgamento continua, com a ouvida de uma testemunha de acusação e cinco de defesa.

 

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