Noiva do promotor, Mysheva deve ser uma das primeiras a depor sobre crime em Itaíba

Defesa diz que intenção é condenar sem provas e acusação garante que há evidências suficientes contra os acusados

“Recebemos o fundo com R$ 1 mi e deixamos com R$ 80 mi”“Recebemos o fundo com R$ 1 mi e deixamos com R$ 80 mi” - Foto: André Nery/arquivo folha

A advogada Mysheva Freire Ferrão Martins deve ser uma das primeiras a depor no júri popular dos quatro acusados de matar o promotor Thiago Farias, há três anos, em Itaíba, no Agreste de Pernambuco. Mysheva era noiva da vítima. O julgamento começou por volta das 10h desta segunda-feira (24) e deve durar quatro dias. A defesa havia solicitado adiamento alegando que há pouco tempo para explanação, mas o pedido foi negado, bem como o de julgar em separado os acusados.

Para Anderson Flexa, advogado de José Marivaldo, todas as versões direcionam para uma intenção que é condenar os acusados mesmo sem provas. Já o procurador federal Luiz Vicente afirma que a motivação do crime, as desavenças entre José Maria Rosendo e Mysheva e os laudos constantes nos autos são provas suficientes para a condenação. O julgamento ocorre na sede da Justiça Federal, situada no Jiquiá, Zona Oeste do Recife. O júri é presidido pela juíza federal Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo. São responsáveis pela acusação os procuradores da república Alfredo Falcão Júnior, Luiz Vicente Queiroz, Bruno Costa Magalhães e Fabrício Carrer.

O ritual desta segunda começa com o sorteio dos jurados e a formação do conselho de sentença. Na abertura dos trabalhos, deve ocorrer a oitiva de Mysheva e do delegado da Polícia Federal Alexandre Alves, que concluiu as investigações e encaminhou ao Ministério Público Federal (MPF). Ele deve falar sobre as investigações, esclarecer as dúvidas que o júri tiver. O tio de Mysheva que estava junto com ela e Thiago no carro na hora do crime, Adautivo Elias Martins, não vai comparecer ao julgamento - ele tem problemas mentais e apresentou um atestado médico.

"Arrolamos o delegado Alexandre Alves, as testemunhas presentes aqui no Recife e vamos ouvir também testemunhas que foram ouvidas na instrução, na Polícia Federal. Mysheva é vítima, vai falar na condição de ofendida. O tio está à disposição da Justiça para depor", explicou Luiz Vicente.

Um dos quatro réus teve o julgamento adiado no início do júri desta segunda e liberado da sessão do plenário, José Maria Domingos Cavalcante. Os outros três irão prestar depoimento e estão representados por seus advogados - e todos se queixam do tempo. Anderson Flexa cuida da defesa de José Marivaldo Vitor da Silva. João Olímpio é advogado de José Maria Pedro Rosendo Barbosa (acusado de ser o mandante). Carlos Henrique é advogado de Adeildo Ferreira dos Santos. E Emerson Leônidas defende José Maria Domingos Cavalcante.

Família da vítima

Para André Luiz Barretto Canuto, advogado da família de Thiago, o inquérito federal é contundente e ninguém tem prova de inocência. "Acima de tudo esperamos que os trabalhos prossigam dentro da lealdade processual. Temos provas, depoimento do delegado, perícia federal que foi juntada no dia 13 de outubro. Ela consegue muito bem colocar em fatos e mostrar a dinâmica do evento", afirma.  

Réu inocentado 

Cunhado de um dos réus, José Maria Rosendo, Edmacy Ubirajara chegou a ser preso dois dias depois do crime, mas foi liberado porque as câmeras do comércio mostraram que na hora do crime ele estava circulando pelo centro da cidade. A expectativa de Edmacy Ubirajara é de que hoje se conheça a verdade. "Isso tudo que está acontecendo aqui é uma armação de Mysheva. Ela sabia que eu morava numa fazenda e achava que eu estaria lá e não teria como provar que sou inocente. Por azar dela e sorte minha eu estava na cidade e as câmeras do comércio me filmaram lá. Vou conseguir provar minha inocência", disse.

"Eu fui tido como autor do crime. Zé Maria foi apontado como mandante. O mandante pode estar em qualquer lugar. Mas ela me colocou como autor do crime porque achava que eu estava na fazenda. As câmeras mostram quando eu botei gasolina no posto, quando eu comprei remédio na farmácia, botei recarga no meu telefone. Foi meio mundo de testemunha a favor de mim", detalha Edmacy.

Segundo ele, Zé Maria tem um desentendimento antigo com o pai de Mysheva. "Mudou tudo, não posso mais morar na fazenda, tive que morar na cidade, perdi a formatura dos meus filhos, não posso nem andar na rua que o povo vai perguntando, passei muito tempo sem sair de casa com vergonha", afirma.

"Deslizes"

Para Anderson Flexa, advogado de José Marivaldo Vitor da Silva, a defesa tem um trabalho muito difícil hoje: demonstrar as dúvidas existentes no processo. "Foram seis depoimentos. Foi mais um interrogatório. Tudo para comprovar uma tese apenas. Então, hoje, a defesa tem o árduo trabalho de mostrar que esses deslizes, essas informações que foram alteradas em outro momento estão conduzindo o processo para um erro. O nosso trabalho é mostrar que esse erro é direcional e intencionado", afirma. 

Flexa alega que há mais um cenário. "Temos aqui o Edmacy que foi acusado, que foi reconhecido por duas vezes. Foi provado que ele não tem relação com o processo. Ele não estava naquele momento e foi reconhecido como atirador. Foi feito exame residuográfico, ele passou 60 dias preso. Houve um outro momento, o da Mysheva dizer que não havia o reconhecido em momento algum, que é uma outra mentira", garante. 

Réus

O quinto acusado pelo crime - Antônio Cavalcante Filho, irmão de José Maria Cavalcante - está foragido da Justiça Federal. Os quatro réus estão em regime de reclusão: José Maria Pedro Rosendo, José Maria Domingos e Adeildo Ferreira estão detidos no Centro de Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, Região Metropolitana do Recife, enquanto José Marisvaldo, conhecido como Passarinho, se encontra no Complexo Prisional do Curado.

Os acusados respondem pelo crime de homicídio doloso contra a vítima e por tentativa de assassinato da advogada Mysheva Freire Ferrão Martins, noiva de Thiago Farias, e do tio dela, Adauto Martins. Ambos estavam no carro do promotor, na rodovia PE-300, a caminho de Itaíba, no Agreste de Pernambuco.

Apesar de o juízo estar vinculado à 36º Vara Federal Judiciária de Pernambuco, a juíza federal responsável será Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo, titular da 4ª Vara. Os procuradores federais responsáveis pela acusação são Alfredo Falcão Jr., Luís Vicente Queiroz, Bruno Costa Magalhães e Ubiratan Cazetta. O sorteio dos jurados que atuarão na sessão aconteceu no último dia 12 de setembro, na sala de audiências da 36ª Vara Federal, em que foram sorteados 25 jurados e mais 25 suplentes. 

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Julgamento dos acusados de matar promotor de Itaíba deve durar quatro dias 

Entenda o caso

O crime ocorreu no dia 14 de outubro de 2013 no interior de Pernambuco. Thiago Farias Soares estava acompanhado da noiva, a advogada Mysheva Martins, e do tio dela Adautivoo Martins. Eles seguiam pela rodovia PE-300 a caminho de Itaíba, quando foram abordados por homens armados. Os tiros atingiram Thiago, que morreu na hora. O veículo deles parou. O carro dos assassinos contornou a via e, segundo as investigações, retornou para tentar assassinar tio e sobrinha, que escaparam com vida após se jogarem para fora do veículo, na estrada. A arma do crime nunca foi encontrada.

De acordo com o advogado de Mysheva, José Augusto, a motivação do crime foi a compra de 25 hectares de uma fazenda em Águas Belas. O imóvel, que possuía uma extensão total de 1.800 hectares, foi adquirido por Mysheva em um leilão - com isso, José Pedro teria sido obrigado a deixar o local. “Não resta dúvida de que o mandante é José Maria Pedro Rosendo”, afirmou Augusto.

Segundo o advogado, que assiste à acusação, “Passarinho” seguiu o veículo do casal e passou as informações sobre o trajeto dele para os executores. Na audiência de instrução do processo, que ocorreu de 24 a 27 de março de 2015, Mysheva e Adautivo depuseram. Na ocasião, foram ouvidas 34 testemunhas, sendo 16 arroladas pela acusação e 18 pela defesa.

“Estamos confiantes na condenação dos réus. Isso vai acabar com a impunidade em Pernambuco, pois Zé Maria já responde por sequestro, respondeu por um homicídio e diversos crimes”, complementou. Entre as provas registradas nos autos do processo estão a perícia no carro da vítima, reconstrução do crime em 3D pela Polícia Federal e o depoimento de Mysheva, que, segundo José Augusto, não apresenta falhas.

Já para a defesa dos réus, o depoimento da advogada Mysheva Martins é contraditório. “Foram seis depoimentos da Mysheva, que só provam que o que mais existe no processo são dúvidas e inconclusões”, alegou o advogado Anderson Flexa, que faz parte da equipe de quatro advogados que defende os acusados. “A primeira grande mentira no processo indicava Edymacy Ubirajara como estando no veículo e que ele teria atirando no promotor. Provou-se, através de perícias e das testemunhas, que a imputação feita por Mysheva não era verdadeira, assim como várias outras imputações não são”, complementa. Na época das investigações, Edymacy chegou a ser preso, porém foi liberado.

Segundo Flexa, o único fato comprovado é o assassinato do promotor. “Fora isso, nada é conclusivo”, afirmou. Ele declara que foram realizadas três perícias que trouxeram, por sua vez, três resultados diferentes. “Inclusive, há divergência em relação à quantidade de tiros, à ordem dos tiros e ao posicionamento da arma utilizada”, declara.  

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