Nomes, histórias e mãos por trás das escolas de samba

Conheça a madrinha Watuzy, a bailarina Dani e a baiana Odília, personagens que têm dentro das agremiações seus espaços de expressão, que humanizam o Carnaval do Recife

Watuzy Brazil, madrinha da Estudantes de São JoséWatuzy Brazil, madrinha da Estudantes de São José - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Quando uma escola de samba desfila – seja no Recife, seja nos grupos especiais do sudeste, nas comunidades mais periféricas mais precárias –, qualquer dificuldade enfrentada até ali fica trancada no barracão. Haverá os percalços durante o desfile, mas dentre as alas, a música, o samba enredo, dificilmente a plateia perceberá.

O público também não conhecerá nomes, as histórias e as mãos que estiveram por trás de cada alegoria, de cada carro pronto. Mas as escolas são as pessoas, e o
Portal FolhaPE foi atrás de personagens que têm dentro das agremiações seus espaços de expressão, que humanizam o Carnaval. 

Watuzy Brazil, madrinha da Estudantes de São José

Watuzy Brazil, madrinha da Estudantes de São José - Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco


Watuzy-madrinha
Neste 2018, a Estudantes de São José, do IPSEP, Zona Sul do Recife, vai homenagear Dalva de Oliveira, cantora, intérprete, uma das mais lindas vozes da música brasileira. “Dalva existe” é o nome da fantasia da madrinha da escola, Watuzy Brazil, um travesti esguio e tímido que se vangloria de sambar como ninguém. “Se colocar a Globeleza e eu, perco porque sou homem”, diz, rindo, mas sem brincadeira e sem modéstias.

Watuzy é ela e é Jérsus, um homem de 53 anos, decorador profissional, que mora com a mãe no município de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Enquanto travesti, é uma exceção: os pais sempre o aceitaram, nunca apanhou por sua condição. Poderia até estar escondendo uma violência, mas Watuzy tem a conversa leve de quem vive de bem consigo mesma. “Sabe que eu ando de metrô há 12 anos e nunca sofri nada? A única coisa que minha mãe me pediu foi que não colocasse peitos, mas eu nunca tive vontade de mudar meu corpo”, diz, com seu metro de perna cruzada e postura de bailarina.

O currículo carnavalesco tem uma vasta lista de desfiles em escolas de samba – “já fui da Gigante (do Samba), da Sambistas do Cordeiro, da Galeria (do Samba)” –, mas o sonho de passista era desfilar no grupo especial do Rio de Janeiro. “Sou mesmo tímida, então essa é minha forma de me expressar dentro dessa timidez. É muita responsabilidade, até porque é um posto ocupado por mulheres. Mas eu tenho esse dom que Deus me deu e a confiança dos donos da escola”, diz. Quando o dono da escola, Sapateiro, diz que a Estudantes vai levar 600 integrantes para a avenida este ano, Watuzy sorri nervosa e repete: “é muita responsabilidade”.

Há quatro ou cinco anos, Watuzy não desfilava. Significa que, nesse tempo todo, não havia Carnaval para ela. Tem medo dos carnavais pelas ruas, nunca foi pra festa em Olinda, nunca pisou no Galo. É escola ou nada! “Quando coloco a fantasia, a timidez acaba, eu já sou a madrinha de bateria. Eu já chamo o público para dançar comigo. Pra mim, não desfilar é o fim do Carnaval, falta um pedaço. E quando não desfilo, não vou nem olhar. Se eu podia estar ali, por quê? Não vou, e sinto saudades do personagem”.

Jérsus virou Watuzy quando decidiu, por acaso, participar do concurso que elegeria a Miss Gay Camaragibe. “Ali eu era ‘apenas’ Jérsus, mas, no dia seguinte, eu ia precisar chegar lá com um home de mulher. Não ia colocar Maria, né? Cheguei em casa pensando. Vendo televisão, vi uma reportagem com uma das mulatas de Sargentelli: Watusi, uma negra linda. Acrescentei o ‘Brazil’ e deu certo, ganhei”.


Dani Azevedo, da Gigante do Samba

Dani Azevedo, da Gigante do Samba - Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco


Dani-bailaria
Bailarina, artesã, decoradora, maquiadora. Daniele Azevedo, 25 anos, é a multiartista que atua na escola Gigante do Samba, uma das maiores do Carnaval do Recife, que chega a colocar 2 mil pessoas na avenida. Este ano, tantas ocupações, tanta correria, Dani não desfila. “Eu ia vir na frente da comissão de frente, abrindo o desfile, mas é muito cansativo. Ainda vamos trabalhar no dia do desfile, então para ir pra casa, se organizar, trazer fantasia, não vai dar tempo. É a primeira vez que eu não desfilo pela Gigante. Fico na harmonia”, diz Dani, uma mulher transexual de 25 anos e cabelos vermelhos.

Nesta reta final, há dias que são 15, 16 horas de trabalho no barracão da escola. Trabalha-se como artesão, como decorador de fantasias e de carros alegóricos. “Eu acho cansativo, mas é preciso para dar conta do Carnaval, bom, dentro do padrão que possa atingir nossa meta de número de fantasias”.

Dani já desfilou na Estação Primeira de Mangueira (em 2008, quando a escola homenageou o frevo) no Rio, e dançou na abertura das Olimpíadas de 2016. De profissão, é bailarina profissional. Tentou se encaixar como clássica, mas o 1,50 metro de altura, as pernas grossas e o hormônio pelo corpo a fazem longe do arquétipo. “Queria ser conhecida como bailarina, então fui buscar meios que pudesse me favorecem. Fiz nove anos de escola de frevo e já fui parte de vários grupos, mas não consegui me adaptar ao balé clássico. Eu me via como bailarina clássica, não usava colant masculino, mas feminino. Eu sempre quis o lado feminino. No fim, não me frustrei, eu sei o que são as regas. O balé clássico tem as regras dele, eu que tentei me encaixar”.

Dani é mulher trans e, como boa parte dessas pessoas, ao assumir a nova postura, corpo, comportamento, assume também nova identidade. A avó paterna já percebia que o neto era diferente, o tirou de perto do pai que batia, e deu-lhe um quarto cor-de-rosa, cheio de ursos de pelúcia, mas o tratava no masculino. “Ela me chamava pelo meu nome de batismo, que era podre. Ela nunca me tratava no feminino, mas ela me tratava como mulher. Eu tinha obrigação de lavar os pratos, de fazer comida. Eu tinha obrigação de ser mulher, mas, no ponto de vista dela, eu não era mulher”, diz Dani, reproduzindo o discurso machista que diz que lugar de mulher é na cozinha.

Travestis e transexuais são personagens corriqueiros nas escolas de samba. Para Dani, são as ideais para incorporar passistas. “A gente preza muito pelo luxo, então quer mostrar o corpo em torno de luxo. Aqui na Gigante do Samba, eles dão muita oportunidade pra gente, como passista. Importante, porque é muito difícil a transexualidade ser aceita. Na avenida, a gente se transforma, se libera”. E quando se trata de emoção, ela diz, há pouca diferença entre a Dani artesã e a que desfila.

Na adolescência, o pai tentou impedir Dani de ser quem é. Nessa tentativa, escondeu o vale transporte para que ela desistisse das aulas na Escola de Frevo do Recife. “Claro que não adiantou. Eu saía de Dois Unidos a pé até o Torreão, às 6h para chegar às 7h. Às 8h começava a aula, que seguia até 11h. Depois que terminava, eu fazia a segunda e a terceira aula, só chegava em casa à noite, tudo pra ele não me bater”, rememora. Hoje, esse pai é “neutro”, diz Dani. “Isso não o ofende mais. Ele não fala porque eu não dou trabalho, eu não peço nada, me viro desde os 12 anos. Sempre vou lá, mas eu não sou chegada a ele não. Vou pela minha mãe, que é maravilhosa, que sempre me aceitou e apoiou. Mais ninguém, só ela e minha avó. Fui proibida de visitar minha avó no hospital e de ir ao velório dela, isso porque a família toda do meu pai é evangélica, eu sou candomblecista, filha de Iansã e transexual”.

Aparentemente à vontade em si mesma, Dani ainda lida com preconceitos. É difícil, por exemplo, que a família do atual marido aceite que o rapaz vive com uma trans. “Acho que nem entendem o que sou, me chamam de travesti. Minha sogra não me vê com bons olhos, acho que pensa: quem vai me dar netos?”.


 

Dona Odília, da Gigante do Samba

Dona Odília, da Gigante do Samba - Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

 

 

Odília-incansável

Quando chegar setembro, Odília fará 90 anos. Às 5h da manhã, adentra o barracão da Gigante do Samba, no Recife, onde faz de tudo, inclusive desfila. São 40 anos de escola de samba; 22 como integrante da Gigante. Este ano, sai, novamente, na ala das baianas. Fantasia pronta, ocupa-se do que aparecer. “Se eu for contar minha história, você não sai daqui hoje não”.

Na Gigante, chegou ainda criança. Pequena, ia com a mãe, que já fazia parte, mas Odília já fez de tudo: trabalhou em casa da família, virou negociante, viveu na rua. “Nunca encontrei quem me desse um beliscão. Hoje, minhas filhas estão bem casadas e eu trabalhei e sofri muito, mas consegui. Três filhas, 14 netos, 22 bisnetos. Voltei. Em São Paulo, não tinha divertimento, voltei pro meu Recife. Deus recompensou tudo o que eu sofri”, conta.

O marido de Odília tem 75 anos e, ela diz, não consegue acompanhar o ritmo da “baiana”. “É novo, mas é mole. Eu fico no pé, bato nele, belisco, boto pra trabalhar”, diz, rindo. Aos domingos, sem essa de receber visita para o almoço. “É um dia que não quero ninguém na minha casa, que é o meu dia de dançar no brega. E é assim que eu conservo. Meu corpo vive em atividade. Com 65 anos, o médico disse que quando eu fizesse 80, ia pra cadeira de rodas. E eu estou de pé”.

 

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