Médicos cubanos começaram a trazer saúde para os municípios mais negligenciados do estado de Pernambuco
Médicos cubanos começaram a trazer saúde para os municípios mais negligenciados do estado de PernambucoFoto: Pan American Health Organization (PAHO)/Flickr

A curto e médio prazo, não há alternativa para substituir completamente os médicos cubanos que deixarão o Brasil após desentendimentos entre o governo de Cuba e o presidente eleito do Brasil. Pernambuco volta a ser como há oito anos, com mais de 1,4 milhão de pessoas sem assistência médica básica.

Os primeiros profissionais brasileiros inscritos no Mais Médicos, em 2013, precisavam escolher seis locais nos quais estariam dispostos a trabalhar. De acordo com o criador do Programa, Mozart Sales, 400 cidades não foram escolhidas por ninguém. Assim, editais voltados para o projeto, medida proposta na última sexta-feira pelo Ministério da Saúde, por mais urgente que sejam realizados, não serão eficientes.

Os cubanos são parte do primeiro eixo do Programa, o de provimento emergencial. Colocar médicos onde não há, e rapidamente. O segundo eixo, o da educação, visa à substituição dos estrangeiros, ao modificar a formação dos brasileiros. A ideia é interiorizar os campi e estimular a medicina da família, com 11,5 mil novas vagas do curso de Medicina. Foram criadas 9 mil.

“Os primeiros alunos dessas turmas, criadas sob novo currículo e olhar, vão terminar a graduação no fim do ano que vem. Eles passam os oito primeiros semestres visitando as unidades de atenção básica, acompanham famílias. Criam uma percepção diferente da medicina da família. Em cursos tradicionais, só ouvem falar sobre o assunto, de algum professor que nunca pisou num posto de saúde”, explicou o professor de medicina da UFPB, Felipe Proenço, que pesquisou as mudanças na formação médica em seu doutorado. “O novo currículo está mais afim com a formação cubana. É triste que a coloquem em dúvida”, opina.

Segundo Proenço, deixou-se de prestar atenção no eixo em 2016, o que prejudica a ocupação das vagas a longo prazo. O professor vai investigar se alunos do interior (cada novo curso é criado a 70km de qualquer outro já existente) migrarão para grandes centros.

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A importância da mudança de foco na formação está ligada ao tipo de sistema de saúde no Brasil. “Países que investem em projetos como o SUS precisam ter uma média de 40% a 52% de médicos da família. O Brasil tem 5%. Os médicos que vão para a atenção básica, quando aturam a distância dos grandes centros, não se identificam com o tipo de trabalho e o largam”, analisou Mozart Sales.

Para o médico, a volta do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab) é o caminho mais viável para a situação atual. Com ele, os recém-formados vão até locais desassistidos por um ano trabalhar na atenção básica, recebendo uma bolsa de R$ 11 mil, isentos de taxação e com um aumento em 10% na nota de exames de Residência Médica. “O Provab levou 4 mil médicos para o interior.” O projeto acabou em 2016.

Mozart explica que a dificuldade de levar médicos para áreas inóspitas ou de difícil acesso não é exclusivo do Brasil. “O Canadá precisa de políticas de provimento para regiões gélidas. Um programa como o Mais Médicos levou mais de 80% dos médicos para enorme região desértica da Austrália. Exemplos são vários. Ao nosso problema se agrava o tipo de formação incongruente com o sistema e a falta de um médico de carreira de base estadual, que possa mudar de cidades. Isso precisaria ser criado pelos estados, em articulação com a união dos municípios e com financiamento federal”, sugere o especialista.

As uniões dos municípios estão atônitas com a vacância criada pela saída dos caribenhos. O vice-presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de Pernambuco, José Edson Sousa prevê um colapso na atenção básica em Pernambuco, especialmente no Agreste e no Sertão. Segundo ele, que também é secretário de Brejo da Madre de Deus, das 13 unidades no município, 11 são ocupadas por cubanos. “Há lugares difíceis de conseguir médico. Lugares a 18 km por estrada de barro para se chegar.”

Presidente da Associação Municipalista de Pernambuco e prefeito de Afogados da Ingazeira, no Sertão, José Patriota, contou que toda a atenção básica do Sertão do Araripe é feita por médicos cubanos. “Ideologizar uma questão dessa maneira é desconhecer a realidade da nossa região.” O segundo secretário da Confederação Nacional dos Municípios, Eduardo Tabosa, indica o problema para além dos estados nordestinos. “Rio Grande do Sul e São Paulo sofrerão enormemente com a saída.” Ponta Grossa, no Paraná, tem 75% da população assistida por cubanos. Em 25% dos municípios brasileiros, eles são os únicos médicos da família. Na sexta-feira, a Defensoria Pública da União pediu à Justiça Federal que não mudem as regras do Programa.

A porta de saída
Os médicos devem sair do Brasil até o Natal. Chegaram em 2013, sob desaprovação de 48% da população brasileira e saem com 94% de aprovação dos usuários.

Julio Chacón, 36, saiu de Havana em fevereiro de 2014. Desembarcou em Brasília para estágio de ambientação, aprendizado e teste de português e de prática médica. Foi aleatoriamente encaixado no distrito de Salubro, em Pesqueira, no Agreste pernambucano. Teve nos moradores locais a primeira família no País. “Estavam desconfiados de início, mas com o trabalho fui quebrando isso. Ajudaram no meu jeito de falar, a entendê-los melhor”, contou o cubano.

A população de Salubro ficou curiosa quando soube que uma pessoa de outro país iria chegar no “fim de mundo” deles, como os brasileiros costumavam reclamar. Luciara Gonçalves, 37, lembra. “Ele surpreendeu. Extremamente humano, sempre. Saía do trabalho e ligava para saber como alguém tinha reagido a um remédio.”

Chacón conheceu uma professora de Arcoverde, no Sertão. Os dois se apaixonaram e casaram. Hoje, com cidadania brasileira e tendo passado no Revalida, exame que permite estrangeiros o exercício da medicina no Brasil (o STF decidiu que, exclusivamente para atuar no Mais Médicos, ele não é preciso), mora na cidade da esposa e trabalha num PSF dali. “Trabalhei os três anos do contrato em Salubro. Hoje, tenho os moradores em grupos de whatsapp e nos encontramos para confraternizações.”

A escolha de Júlio em ficar no Brasil não é fácil. O coração se tornou um pêndulo entre a esposa e Cuba. Decidiu ficar. “Sinto falta, principalmente, da sensação de andar em segurança que eu tinha lá. Nossa medicina também é muito diferente. Lá, prevenimos as doenças em vez de esperar para tratá-las. Por outro lado, o jeito de ser das pessoas é muito parecido nos dois países, o que é muito positivo.”  

Como Júlio ficou, diplomatas brasileiros estimam que 2 mil dos mais de 8 mil cubanos permaneçam no Brasil em vez de retornar, como ordenou o governo daquele país.

Chegada dos médicos no Brasil

Chegada dos médicos no Brasil - Crédito: Artes/Folha de Pernambuco


 

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