Editora-Chefe da Folha de Pernambuco, Patrícia Raposo
Editora-Chefe da Folha de Pernambuco, Patrícia RaposoFoto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

O saldo de ataques de tubarão em Pernambuco não tem sido suficiente para intimidar os surfistas e banhistas que insistem em entrar no mar em praias de alto risco. Nestes 25 anos de convivência com os incidentes, das 65 vítimas, 25 morreram. A última, José Ernesto, de 18 anos, era um banhista que ignorou os alertas. Após as recentes ocorrências, nossa reportagem (leia aqui) foi verificar as razões para a prática do surf seguir “livre” em praias como Barra de Jangada, Paiva e Itapuama, no litoral Sul.

Lembro que, quando o surf foi proibido por aqui, anos atrás, muitos ainda insistiam em pegar onda num ponto famoso da praia de Boa Viagem, no Recife, o edifício Acaiaca. Só quando as pranchas passaram a ser apreendidas e até incineradas, os surfistas migraram para Maracaípe, a melhor praia atualmente para a prática, não só pelas boas ondas, mas porque nunca registrou qualquer incidente.

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Maracaípe está ao Sul do Porto de Suape, o que lhe garante a categoria de praia segura. Lá atrás, em 2013, depois de muitas entrevistas feitas com vítimas, estudiosos, pescadores e após diversas consultas a pesquisas nacionais e internacionais, mostramos, numa edição especial que produzimos sobre as razões para os constantes ataques de tubarões, a forte influência daquele porto nos trágicos episódios.

Muito embora haja uma série de outros fatores geográficos, ambientais e antrópicos que se unem formando um cenário propício à presença constante de tubarões, Suape parece de fato implicar na presença destes temíveis animais num trecho de praia de aproximadamente 50km, que vai da praia de Bairro Novo, em Olinda, à praia de Itapuama, no Cabo de Santo Agostinho.

Mas o que pretendo chamar atenção aqui é para o risco a que se expõem tantas pessoas, muitas delas completamente cientes da presença de tubarões nas águas. O que leva essa gente a se arriscar? Lembro bem que um dos bombeiros que entrevistamos em 2013 nos disse que domingos e feriados são os dias em que ele se depara com os banhistas mais afoitos. E por quê? Porque a bebida corre solta e deixa muita gente cheia de coragem.

Entre os surfistas, o álcool não é um fator predominante. Essa turma simplesmente diz que “não tem medo”. Uns alegam que o respeito à natureza e “sintonia” com ela lhes garante proteção. Outros acham que as citadas praias estão fora de risco porque oferecem oferta de alimentos aos tubarões.

Mas eu quero lembrar que, segundo o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (Cemit), já houve quatro ocorrências com vítimas na praia do Paiva, duas em Enseada dos Corais, duas em Candeias, todas áreas de surf, assim como duas em Barra de Jangada, onde também se vê a prática de kitesurf.

E o mais grave: placas de alerta estão sendo arrancadas nestes pontos. Mas há outra coisa que é evidente: se há surf, não há fiscalização. E se há proibição, ela deve ser cumprida.

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