Flor de maracujá
Flor de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

O engenheiro agrônomo Bruno Leal Viana, de 34 anos, caminhava às 5h30 pelo sítio do pai, no município de Serra Branca, inserido no Cariri da Paraíba, quando avistou algumas flores de cor lilás em meio ao solo árido do lugar. Pelas características da planta, Viana percebeu que se tratava da flor de um maracujá. Restava saber de qual espécie seria. Ele, que trabalha como analista de desenvolvimento ambiental no Jardim Botânico do Recife (JBR), não pensou duas vezes em trazer a espécie para a Capital a fim de estudá-la e, enfim, desvendar o mistério.

Trata-se do maracujá-de-estalo (Passiflora foetida), o menor já estudado na literatura científica, também conhecido como maracujá fedido, de cheiro, de mato, da Caatinga ou maracujazinho. As sementes do fruto foram plantadas no viveiro florestal do Jardim Botânico e já se adaptou bem ao lugar: está dando flores e frutos à fauna que dele se alimenta. E o tom lilás das flores é mesmo de encher os olhos. Porém, esse espetáculo só pode ser contemplado nas primeiras horas da manhã, sempre das 5h às 8h30.

"Quando a gente fala do maracujá, geralmente vem à mente aquele fruto amarelo que compramos em quitandas e feiras para fazermos suco. Mas, há uma infinidade de maracujás de diversos tamanhos, cores e espécies. O foetida, no caso, é a primeira espécie de fora que eu trouxe ao (Jardim) Botânico", conta o engenheiro agrônomo.

Esse maracujazindo trazido do semiárido da Paraíba, conta Viana, vai compor a coleção científica do espaço, que, em breve, será montada bem na portaria do lugar. Para isso, o analista pretende fazer uma coleta de outras espécies em um remanescente de Mata Atlântica na usina de São José, em Igarassu, no Grande Recife, para ampliar o acervo. "Vamos expor essa coleção quando tivermos umas dez espécies diferentes. A intenção é, justamente, mostrar aos visitantes que há uma vasta variedade de maracujás, cujas flores são peculiares de cada espécie", almeja Viana.

A ideia de ter uma coleção de passifloráceas, conta o analista ambiental, também vem com a intenção de alimentar o borboletário que será instalado no Jardim Temático de Plantas Tropicais do lugar. O equipamento terá estrutura semelhante a uma estufa e funcionará como um "zoológico" feito especialmente para a criação e exibição de borboletas. A ideia é trabalhar com espécies nativas que habitam o Botânico. Entre elas, a capitão-do-mato, conhecida pela sua cor azul e bordas pretas, e a olho-de-coruja, chamada assim por ter desenho semelhante aos olhos da ave nas asas.

"Os maracujás serão a biomassa para alimentar as lagartas antes de elas virarem borboletas. A gente produzirá as plantas para as borboletas ovopositarem sobre elas. Ao nascerem as lagartas, as levaremos para o nosso laboratório e, ao se transformarem em borboletas, as soltaremos no borboletário. É um ciclo", explica, adiantando que, a depender do sucesso da experiência, pretende introduzir algumas espécies de maracujá na farmácia viva do lugar. "O (Passiflora) edulis, que é o maracujá comum, já faz parte da farmácia. Mas, queremos ampliar o leque", projeta.

Curiosidades

O nome maracujá "de estalo" vem de um pequeno fato curioso. Segundo Leal Viana, chama-se assim porque quando o fruto já maduro é pressionado, ele "explode". "Sai um som tipo um 'tof'", reproduz. E o foetida vem de "fedido", já que as plantas têm cheiro forte e bastante adocicado, chegando a ser um pouco enjoativo. A diferença desse maracujá para o comum, o especialista explica, está no tamanho e o tipo da flor. "O fruto do maracujá-de-estalo é pequeno, chegando a até 6cm, ou seja, tem uma biomassa três vezes menor em relação ao maracujá que nos dá o suco.

Até suas plantas têm um esverdeado mais claro. E a flor tem uma coloração peculiar, além de só brotar muito cedo", compara. "Mas, uma coisa todas as passifloráceas têm em comum: o mamangava, uma espécie de abelha tida como a principal polinizadora dos maracujás", complementa Viana.

Outras descobertas

Após a descoberta do maracujá-de-estalo, outras duas espécies foram descobertas no próprio Jardim Botânico: as Passifloras misera e alata. A descoberta foi da forma mais inusitada possível. O pesquisador foi guiado pelas borboletas, bem nas proximidades da trilha munguba. "Fiquei curioso com a população de borboletas que povoavam o lugar e, ao guiá-las, descobri alguns frutos espalhados em meio à trilha. Foi aí que descobrimos mais duas espécies", relembra.

Algumas sementes foram colhidas e, hoje, se encontram na Casa de Vegetação do Botânico, próximo ao viveiro florestal. É nessa estufa que elas vão permanecer até atingir tamanho ideal para ir a campo. "E quando se tornarem indivíduos adultos vão compor a coleção científica junto ao maracujá da Caatinga", prospecta Viana.

Flor de maracujá
Flor de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Flor de maracujá
Flor de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Pé de maracujá
Pé de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Flor de maracujá
Flor de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Pés de maracujá
Pés de maracujáFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Engenheiro agrônomo Bruno Leal Viana
Engenheiro agrônomo Bruno Leal VianaFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

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