Maria Souza (alto) e Luzinete Ferreira (acima) são vítimas da distribuição  irregular do  líquido
Maria Souza (alto) e Luzinete Ferreira (acima) são vítimas da distribuição irregular do líquidoFoto: Alfeu Tavares

 

Uma rua com água e to­do o restante do bairro sem uma gota sequer nas torneiras. A rotina de total desigualdade se tornou comum na vida de milhares de famílias em Pernambuco. Faz parte da falta de regularidade no sistema de abastecimento e reflete um planejamento ineficaz. O problema, também encontrado na Região Metropolitana do Recife, se mostra ainda mais grave no Interior, onde 80% dos reservatórios atingiram um quadro de colapso. Nos municípios de São Bento do Una, com 60 mil habitantes, e Pesqueira, com 70 mil, a situação não é diferente. De acordo com a Compesa, obras estruturadoras só devem ser concluídas em 2018.
Em meio ao sexto ano consecutivo de seca severa, moradores tentam se virar como podem. Em alguns pontos, o fornecimento chega a ocorrer todos os dias da semana, a despeito de outros que se veem obrigados a comprar água de outras fontes. É o caso da professora Luzinete Ferreira, 66, moradora do bairro Centenário, em Pesqueira, a 220 km do Recife. “Já chegamos a ficar três meses sem água, sendo obrigados a pagar caro comprando mineral. Porém, na rua de baixo, tão perto, ela chega bem mais rápido”, criticou. Luzinete diz que gasta, em média, R$ 200 por mês com fornecedores extras, mesmo com as contas continuando a chegar. “Não existe organização. Todos precisam de água”, apontou.
O pedagogo Jair Cavalcante, 45, mora, desde criança, em São Bento do Una, também no Agreste. “O abastecimento se tornou cada vez mais precário, mas não existe uniformidade”, revelou. Ele acaba recorrendo aos caminhões-pipa, dotados de seis mil litros. Pelo serviço, paga R$ 150. A aposentada Nalise Valença, 82, também vive o mesmo dilema: “Deveria melhorar para todos”, lamentou. Em Surubim, onde a aparência escura do líquido gera dúvidas sobre a qualidade, a aposentada Maria Souza, 66, também passa por dificuldades. “Tem ruas da cidade onde pessoas gastam água até lavando as calçadas. No final, falta para quem mais precisa”, disparou.
Para o especialista em semiárido e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), João Suassuna, existe uma desorganização na sistemática adotada. “Os reservatórios estão com níveis baixíssimos e há uma tentativa desesperada de chegar com a última gota até a próxima quadra chuvosa, apenas em março do próximo ano. Fecham os registros em um ponto e esquecem-se de outros, impulsionando o desperdício”, explicou. Conforme o especialista, também conta a questão da localização geográfica.

“Os lugares mais altos ou mais afastados acabam mais prejudicados. Caberiam investimentos para uma distribuição mais uniforme”, disse.
A implantação de uma adutora para duplicar a vazão da barragem de Pau Ferro, localizada em Quipapá, na Mata Sul, surgiu como uma esperança para a população, incluindo também as cidades de Lajedo e Calçado. Contudo, a obra, orçada em R$ 2 milhões, não conseguiu reduzir o castigante calendário de racionamento, na média de 28 dias sem água. “Sempre haverá diferenças na rede e fica difícil de a população entender”, ponderou o gerente regional da Compesa, Gilvandro Barbosa. “Temos um sistema hidráulico antigo, dotado de várias ramificações. Como o volume de água é muito reduzido, somos obrigados a fazer uma setorização”, defendeu.

 

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