Arquitetura de Olinda
Arquitetura de OlindaFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

Olinda, 482 anos; Recife, 480. Comumente chamadas cidades-irmãs, ambas ganharam tal epíteto, além de estarem ligadas geograficamente, devido à semelhança de paisagem e evolução arquitetônica e urbanística. Contudo, é importante se observar que, como duas manas que prezam, cada uma guarda características próprias mesmo nos aspectos compartilhados ao longo de quase meio milênio, desde os princípios da colonização até os dias atuais. A peculiaridade mais notada é uma influência heterogênea de traços e escolas arquitetônicas recebidas de todo o mundo que, ainda assim, provocaram resultados com particularidades próprias mesmo em construções que teoricamente guardam atributos análogos.

Para entender melhor essa trajetória arquitetural é preciso voltar no tempo. “Toda a arquitetura de Olinda e do Recife tem seu início no século 16 e início do século 17”, explica o arquiteto e urbanista José Luiz da Mota Menezes, autor dos livros “Recife e sua Arquitetura” e “Evolução Urbana de Olinda”. O escritor - que curiosamente foi eleito membro da Academia Pernambucana de Letras em um 12 de março, há exatos quatro anos - destaca logo de início as diferenças geográficas - a Olinda das colinas e o Recife peninsular - como fatores preponderantes que influenciaram o desenvolvimento arquitetônico e urbanístico dos municípios.

Outro ponto importante para entender a formação da cidades tem a ver com a condição político-econômica: local mais rico do Brasil colônia, Olinda perdeu o status de capital pernambucana pela primeira vez no século 17, com a invasão dos holandeses, que incendiaram a Marim dos Caetés. Com a expulsão dos holandeses, Olinda voltou a ser capital até meados do século 19, quando deixou definitivamente essa condição. O Recife, ainda limitado praticamente apenas a um porto (de Olinda) e uma aldeia, deu início a seu processo de expansão vindo a superar a irmã nos anos seguintes.

Desde seus primórdios, a Olinda de morros e declives possuía residências com quintais, o que resultava em uma cidade arborizada, diferentemente do Recife, constituída por casas sem áreas livres, coladas umas às outras e com janelas de madeira e coberturas com telhas coloniais. “Ficavam parecidas com Lisboa”, aponta Menezes.

A arquitetura recifense começou a mudar a partir do fim do século 18 e início do século 19, com maior ocupação da ilha de Santo Antônio (bairros homônimo e de São José) e princípio da ocupação da Boa Vista. “Recife começa a crescer na vertical gerando os chamados ‘sobrados magros’ de três andares”, explica o escritor. “Haviam raros prédios que tinham um quarto andar. Recife cresce e para cima. Olinda permanece em sua escala.”

Cidade da vaidade dos senhores de engenho, Olinda viu mais o crescimento das casas religiosas, a exemplo do Convento de São Francisco, da Igreja do Carmo e do Seminário. O mesmo ocorre no Recife, porém, mais em função da prosperidade econômica.

Outro ponto em comum diz respeito à expansão, após a desapropriação dos engenhos localizados nas cercanias das duas cidades, em meados do século 19. Ainda assim, apenas a partir da década de 1940 é que Olinda passou a ampliar sua ocupação em direção ao Bairro Novo e a Beberibe.

Essa impressão de que repentinamente a Marim dos Caetés parou no tempo teve seu lado positivo, pois favoreceu a preservação de seu casario e até mesmo a titularidade de Cidade Patrimônio da Humanidade, nos anos 1960. “As ruas de Olinda ainda mantêm suas escalas do século 16. Na Europa, cidades como ela foram muito modificadas”, ressalta Menezes. Já o Recife não teve a mesma sorte. Trechos inteiros de bairros como São José e Santo Antônio foram riscados do mapa em prol da modernidade dando origem a largas avenidas como Dantas Barreto e Guararapes.

Escolas
No decorrer do tempo, Olinda e Recife receberam juntas influências arquitetônicas e urbanísticas das mais diversas escolas de vários países tendo em comum uma arquitetura mesclada que não obedece a nenhum padrão específico. Afora as origens predominantes, é possível identificar, por exemplo, intervenções moura (caso do sobrado mourisco no Carmo, em Olinda) e até inglesa (The British Country Club, nos Aflitos, Recife). Através dos séculos, o escletismo ditou a formação das duas cidades.

Acrópole portuguesa do Brasil colônia, construída nos mesmo moldes de cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Nossa Senhora das Neves (João Pessoa), “Olinda perdeu um pouco o poder econômico e não sofreu o processo de verticalização”, como lembra o também arquiteto Marcelo Freitas, conselheiro suplente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE). Assim, durante muito tempo, dominou na Cidade Patrimônio o caráter colonial e classicizante. No Recife, o casario ao estilo lusitano ainda é notado em bairros como São José, Santo Antônio e Monteiro.

Mesmo as igrejas, observa Freitas, construídas em sua maioria no século 18, em estilo barroco tendendo para o rococó, foram sendo modificadas ao longo do tempo adquirindo características ecléticas, na Marim dos Caetés e na Capital. “Você anda pelo Recife e encontra o Recife do século 17, 18, etc. Isso também em Olinda. Mas por não ter a pujança (econômica) do Recife, Olinda foi mais preservada.”

Do casario típico holandês, nada restou. Isso porque, de acordo com Menezes, o modelo batávico era predominantemente de madeira e tijolos e foi inteiramente reformado. A principal herança holandesa está relacionada às intervenções promovidas no Recife pelo príncipe Maurício de Nassau.

Também segundo o escritor, os sobrados que foram construídos com a expansão das cidades, adotaram o estilo neoclássico de influência francesa. É o caso, no Recife, das edificações ainda hoje existentes na rua Benfica, na Madalena; do prédio que ocupa o Museu da Abolição, no mesmo bairro; e da sede da APL, nas Graças.

No século 19, o Recife sofreu uma forte influência da revolução na mesma arquitetura francesa. Francisco do Rego Barros (que se tornou o famoso conde da Boa Vista), então presidente da província de Pernambuco, trouxe à Capital durante sua gestão (1837-1844) o engenheiro francês Louis Léger Vauthier, responsável pela construção do Teatro de Santa Isabel e por projetos de obras públicas como o Cemitério do Senhor Bom Jesus da Redenção (Santo Amaro).

Aceleração
O pontapé definitivo para a modernização aconteceu, principalmente no Recife, com a aceleração dos planos urbanos e da verticalização no século 20. Edificações em art déco, como o Cine Olinda, no Carmo, e o Cassino Americano, no Pina, além da avenida Guararapes; e modernistas, como a Caixa d’Água (que hoje abriga o elevador panorâmico), na Sé, e o antigo Pavilhão de Verificação de Óbitos (atual sede do Instituto de Arquitetos do Brasil no Estado) deram início à mudança da paisagem nas tradicionais irmãs, sempre com ecleticidade e absorvendo diversas tendências, até culminar na linha atual, marcada especialmente pelos edifícios (hoje ceramizados) da orla Bairro Novo-Casa Caiada e Pina-Boa Viagem. “Tinha que ser”, decreta Menezes. “Era o exemplo de Copabacana, Santos, Salvador, Marselha.” E assim Olinda e Recife atravessam o tempo seguindo tendências.

Arquitetura de Olinda
Arquitetura de OlindaFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura de Olinda
Arquitetura de OlindaFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura de Olinda
Arquitetura de OlindaFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura de Olinda
Arquitetura de OlindaFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
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Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura do Recife
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Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco
Arquitetura do Recife
Arquitetura do RecifeFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

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