Parto
PartoFoto: SIDNEY OLIVEIRA / AG. PARÁDATA

“Infelizmente, se você quiser um parto natural respeitoso, precisa pagar uma equipe particular.” Esse é o desabafo da publicitária Gabriela Leão, 35 anos, mas que ecoa entre outras tantas mulheres que querem ter autonomia na escolha pela forma de parir em Pernambuco. Com cada dia menos obstetras de planos de saúde dispostos a acompanhar e realizar nascimentos vaginais, também chamados de normais, cada dia mais mulheres optam por planejamento financeiro para conseguir pagar entre R$ 10 a R$ 14 mil pelo parto particular.

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Algumas gestantes ressaltam que nessa negociação são apresentadas a “taxas de disposição” de equipes médicas para terem certeza de um acompanhamento humanizado. Nessa nova demanda financeira dos nascimentos, a ocorrência de taxas abusivas foi objeto recente de investigação do Ministério Público do Estado (MPPE), que realizará uma audiência no próximo mês. Em xeque, também estão os altos preços e a venda casada que envolve o segmento.

Gabriela teve duas experiências com o pagamento de partos. Mesmo tendo plano de saúde, não encontrou um obstetra que se dispusesse a realizar seu sonho gestacional. No nascimento do primeiro filho, Arthur, hoje com 2 anos, desembolsou R$ 11,5 mil. Contudo, na hora de parir, a equipe particular conduziu um parto cesariano porque avaliou riscos para mãe e bebê. No segundo procedimento, Isabela, de 1 ano, finalmente nasceu por via vaginal em um parto na banheira nas dependências de um hospital particular do Recife. Dessa vez, pagou R$ 9 mil.

“No primeiro filho, consegui me planejar, mas da segunda vez fui pega de surpresa. Tive que pedir dinheiro emprestado com familiares e ainda raspei todas as minhas reservas. Tive que adequar toda minha realidade financeira tendo em vista que meu parto estava em primeiro plano. Aí, você abre mão de várias coisas”, contou. A publicitária destacou que o medo é o que move tantas gestantes. “Sempre soube que deveria procurar uma equipe de segurança porque nos planos eles não têm paciência. No particular, eles estão à sua disposição”, disse.

Apesar do sufoco com o custo a mais da gravidez, Gabriela conseguiu um reembolso 100% dos gastos extras nos dois partos. Situação diferente da professora de Educação Física, Roberta Guerra, 35. Há dois anos, ela pagou algo em torno de R$ 8 mil para ser acompanhada no parto vaginal de Vinícius. “Acho isso tão absurdo. A pessoa já paga tão caro e deveria no mínimo um atendimento respeitador. Então, o plano de saúde serve para qualquer outro fim, menos para esse”, criticou. A decisão de parir com equipe particular veio depois de uma experiência traumática com obstetra credenciado.

“Disse que queria um parto normal. Acreditei nele, mas, quando chegou no fim da gestação, foi marcada uma cesariana porque Valentina estava laçada”, lamentou. Na vez de Vinícius vir ao mundo, ela queria ter a certeza que sua vontade fosse respeitada.

“O meu parto dele durou quatro dias, sendo dois no hospital. Se não tivesse pago, haveriam feito uma cirurgia o mais rápido possível.” Além de desembolsar dinheiro para equipe médica, ela também pagou uma taxa de cerca de R$ 200 reais para ter o bebê dentro do quatro do hospital, mas hoje essa tarifa chega a R$ 1 mil.

Para a doula e advogada Mariana Bahia, muito desse cenário de insegurança das grávidas e desrespeito no planejamento do parto é culpa dos planos de saúde. Segundo ela, as operadoras pagam entre R$ 300 a R$ 500 para um procedimento vaginal, o que não atrai o interesse de profissionais no credenciamento. “Nenhum médico vai querer ficar 24 horas esperando por um parto com esses valores. Atualmente, a realidade para quem quer um parto vaginal é pagar muito dinheiro ou recorrer ao Hospital da Mulher do Recife”, afirmou Mariana.

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