Maria Cordeiro  (no alto) perdeu sua casa dois dias antes da queda do prédio.  Maria Eugênia da Conceição (acima) mora em uma  casa com grandes  rachaduras
Maria Cordeiro (no alto) perdeu sua casa dois dias antes da queda do prédio. Maria Eugênia da Conceição (acima) mora em uma casa com grandes rachadurasFoto: Anderson stevens

Antes de um prédio cair em Garanhuns na última segunda-feira (10), a casa de Maria Cordeiro, 40, num bairro pobre da cidade, também foi ao chão. Oito pessoas moravam sob o teto, que ficou suspenso sob um armário no último sábado (8). A mãe dela foi puxada pelo filho no momento em que caía na voçoroca, uma espécie de abismo em expansão, localizada atrás do que era a casa. Está se recuperando de um machucado no rosto.

O barro do chão, único item ileso naquele sítio, fica encharcado todos os invernos. Há alguns metros dali, a aposentada Maria Eugênia da Conceição espera pelo pior. Não sabe sua própria idade ao certo, nem o ano em que nasceu, mas compreende que as grossas rachaduras nas paredes que a abrigam guardam perigo. “Surgiram no último mês. Eu fico com medo, toda vez que chove”, contou. Os vizinhos confirmam. Outras rachaduras já tinham aparecido, menores, e foram preenchidas com cimento.

A parede da casa de Gileuza Souza, 42, envergou como um bambu. Parece criação de Gaudí. É o conhecimento de um pedreiro da família que lhe tranquiliza. “Basta pôr uns ferros.” É o mesmo saber que reproduz: “drenamos a água de cima e ela cai na voçoroca”.

Poucas ruas de distância do prédio que desabou, há uma casa em ruínas. Vacila sobre uma encosta que foi escavada demais. Um empresário comprou o terreno que está abaixo dela com o intuito de erguer um edifício, mas, na hora de construir, cometeu um erro. O muro da casa ao lado também está condenado.

As outras residências da rua Cláudio Manoel da Costa, no bairro de Aluísio Pinto, também foram sendo erguidas assim, apenas com o conhecimento dos pedreiros. A questão é que o solo de algumas áreas de Garanhuns é peculiar. “Aqui no bairro as casas precisam ter uma fundação muito profunda e um dreno que desça a água que se acumula na parte superior. Todas têm”, avaliou Alcir da Silva, 42, pedreiro há duas décadas. Construiu, inclusive, a casa que está com o muro condenado. “Furamos um poço ali com três metros de profundidade.”

A falta de um responsável técnico, somada ao solo peculiar de algumas áreas de Garanhuns, é um risco. É consenso entre os vizinhos - embebidos apenas de conhecimento popular -, inclusive, que o prédio que caiu na segunda foi consequência desse risco. “Ali havia um poço que, com a chuva, ficou próximo da superfície. Ele fez um lençol que tirou a base do prédio que havia naquele local e o fez cair. Isso ocorreu em 2008. Acreditamos que isso tenha acontecido novamente desta vez”, comentou um dos vários defensores da tese. A confirmação - ou o contrário - dela acontece após investigação da Polícia Civil, ainda sem previsão de conclusão.

Maria Cordeiro  (no alto) perdeu sua casa dois dias antes da queda do prédio.  Maria Eugênia da Conceição (acima) mora em uma  casa com grandes  rachaduras
Maria Cordeiro (no alto) perdeu sua casa dois dias antes da queda do prédio. Maria Eugênia da Conceição (acima) mora em uma casa com grandes rachadurasFoto: Anderson stevens
Ausência de responsáveis é refletida na destruição de imóveis após intempéries
Ausência de responsáveis é refletida na destruição de imóveis após intempériesFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
Ausência de responsáveis é refletida na destruição de imóveis após intempéries
Ausência de responsáveis é refletida na destruição de imóveis após intempériesFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

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