Não existe legislação no Brasil que regulamente os índices de metais pesados nas peças, nem um órgão fiscalizador
Não existe legislação no Brasil que regulamente os índices de metais pesados nas peças, nem um órgão fiscalizadorFoto: Brenda Alcântara

Queridinhas das mulheres, as bijuterias chamam a atenção por suas cores, formatos, brilhos e, mais ainda, pelo preço acessível. No Centro do Recife, por exemplo, as lojas são um convite atrativo para quem adora uma “biju”. Mas, nem sempre as peças baratinhas são uma boa escolha. O problema todo está nas substâncias presentes em algumas delas, chamadas cádmio e chumbo, metais altamente tóxicos e que, ao longo dos anos, podem se acumular no organismo e provocar até câncer.

O alerta levou o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) a instaurar inquérito civil a fim de investigar distribuidoras e fornecedoras que estariam repassando lotes de bijuterias com alta concentração desses metais pesados às lojas do Recife. O pior é que não há uma legislação no Brasil que regulamente os índices desses metais e, nesse contexto, não existe um órgão específico para fiscalizar e controlar a entrada desses produtos, em sua maioria, importada da China.

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Para se ter uma ideia do quão perigosas são essas substâncias, nos Estados Unidos e na Europa, a concentração máxima de cádmio e chumbo permitido, em peso, deve ser de 0,01% e 0,03%, respectivamente. Nisso, o uso de brincos se torna um perigo, alertam especialistas, já que a dobrinha da orelha é sensível e tende a absorver boa parte da substância contida na bijuteria. O problema todo é que a quantidade que o organismo consegue expelir é 100 vezes menor que a absorvida.

“Às vezes, na vontade de ter muita variedade, a gente acaba comprando, porque os brincos e as pulseiras ficam logo pretas, descascam. Sempre usei e nunca tive alergia, e além de tudo é baratinho”, conta a dona de casa Maria Conceição Nunes, 52 anos.

Sempre que sobra um dinheiro, Maria Isabel, 19 anos, compra um anel, pulseira ou um brinco. “Qualquer R$ 3 já dá para levar alguma coisa. Nem todo mundo tem dinheiro para comprar brinco de ouro”, defende.

A clínica geral e homeopata com formação em medicina ortomolecular pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Diana Campos, explicou que o cuidado deve ser redobrado com as crianças que usam bijuterias, já que elas têm mania de colocar a mão nos brincos, e depois na boca, ou levá-las diretamente à boca para mastigar.

“As pessoas são atraídas pelo preço, mas não se dão conta do mal que estão fazendo à saúde delas. Quando usamos uma bijuteria com essas substâncias, o organismo absorve e acumula o metal em órgãos, como os rins. Isso porque não há uma película que evite esse contato direto do metal com a pele”, afirmou.

De acordo com a especialista, é a própria matéria-prima usada durante o processo de fabricação que possui esses metais tóxicos. “Em geral, esses brincos têm como matéria-prima o latão, um material barato e resistente. A pintura também contém chumbo. (Essas bijuterias) não estão apenas nas lojas, mas são vendidas na praia, camelôs, feiras livres de artesanato, locais que vendem brincos que não possuem selo do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia)”, explicou, aconselhando o uso dos brincos amadeirados, de plástico e banhados a metais nobres, como ouro, por exemplo, os mais indicados.

Estudo
Procurado pela Folha de Pernambuco, o promotor à frente do caso, Solon Ivo da Silva Filho, da 19ª Promotoria de Defesa da Cidadania da Capital, informou que enviou ofício à Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro requisitando estudo sobre a concentração de cádmio e chumbo em bijuterias.

“O referido estudo foi mencionado em expediente encaminhado ao MPPE pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, estado onde o MPF abriu procedimento sobre esse assunto no ano de 2013. No momento, o MPPE aguarda resposta da Fiocruz-RJ sobre a existência ou não do dito estudo”, detalhou por meio da assessoria de Imprensa.

A partir do recebimento do ofício, a instituição têm até 20 dias para encaminhar a pesquisa ao promotor. A reportagem procurou a Fiocruz-RJ na tentativa de obter detalhes, mas não conseguiu retorno.

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