Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado

Vítima de violência doméstica, dona Sofia Severo da Silva se viu obrigada a abandonar os filhos após ser ameaçada pelo marido. De São Paulo, veio para o Recife da década de 1960, mas, por toda sua dor, preferiu não construir família. No coração, a esperança de rever seus filhos permanece até hoje. A Folha de Pernambuco registrou reencontro entre mãe e filho, renascidos a partir do abraço que esperou 55 anos.

"Na vida, temos que saber conviver com todos. Cada pessoa tem um coração diferente.” O conselho sobre como viver em harmonia partiu de dona Sofia Matias Severo da Silva, 86 anos, residente há 10 anos no Abrigo Cristo Redentor, localizado em Jaboatão dos Guararapes. Apesar do ensinamento, ela declarou que, em toda sua vida, não construiu laços sólidos de amizade e nem quis. Tímida e, segundo os enfermeiros da unidade assistencial, um pouco reservada e, por vezes, mais agressiva, estava com sorriso especial no rosto e muito receptiva nessa sexta-feira (5). O motivo? O reencontro com seu filho mais velho, após 55 anos de uma separação inevitável.

A idade mais avançada nunca foi impedimento para que ela relatasse sua trajetória de vida com detalhes, mas o problema é que muitos não acreditavam, achavam que ela poderia estar confusa com suas lembranças. Até que no dia 20 de outubro, durante a ação solidária de uma empresa de telefonia móvel, o gerente Thiago Cavalcante Sampaio sentiu-se tocado com a história e decidiu ir em busca dos filhos perdidos. Ele conseguiu encontrar Severino Matias Severo da Silva, 57, no Facebook.

Ela foi a primeira senhora que conversei e aquela história me impactou. Fui procurar a assistente social para saber até que ponto aquelas lembranças eram reais, e depois fui procurar esses filhos nas redes sociais”, explica Thiago, que realizou uma campanha com os amigos para financiar a passagem do Rio de Janeiro para Recife, do filho mais velho de dona Sofia.

Na véspera de Natal, Severino, que mora no Rio de Janeiro e é pastor da igreja Assembleia de Deus, mesmo com a desconfiança ao ser questionado se conhecia a mãe, decidiu responder ao gerente de telefonia. “Resolvi reativar o Facebook para desejar feliz Natal para meus amigos, foi quando vi as mensagens dele.

Conversamos e vi que os dados batiam”, relembra. Dona Sofia estava sentada no banco em frente à capela do abrigo, enquanto aguardava ansiosa pela chegada do filho, rezava um terço com suas companheiras de cotidiano. Ao avistar um senhor ao lado do voluntário Thiago, ela perguntou: “Esse moço é que é meu filho?”. De imediato o pastor a abraçou e perguntou se poderia chamá-la de mãe, logo em seguida pediu sua benção. “Não a culpo de nada. Eu achava que ela já tinha falecido. Meu aniversário é na próxima terça-feira e fico muito feliz de ter ganhado esse presente. Hoje nós renascemos”, afirma Matias Severo.

Passado

Dona Sofia morava em São Paulo, era casada e tinha três filhos pequenos. O quarto ainda estava na barriga quando foi ameaçada de morte pelo marido alcoólatra e decidiu deixar tudo para trás. Fugiu, em 1963. “Quando eu tinha 8 anos, meu pai me mostrou uma mulher que tinha sido morta pelo marido. Eu sempre fiquei com aquilo na cabeça. Meu marido era muito violento. Até que um dia ele disse que iria me matar quando tivesse dormindo. Aquela cena de criança veio na minha mente, e eu acreditei na ameaça”, recorda, emocionada.

O medo ainda hoje é um sentimento que assombra dona Sofia. “Nunca mais quis saber de marido, nem de amigos. Vivi toda minha vida sozinha.” Após deixar seus três filhos, Severino na época com 3 anos, Rosa com apenas 2 e Elizabete ainda com meses, ela foi para a cidade de Ribeirão, também em São Paulo, onde deixou sob os cuidados da irmã, a caçula Susana, que já faleceu.

Com notícias de que o Recife era uma cidade próspera e com muitas oportunidades de emprego nas fábricas crescentes, Sofia trabalhou até se aposentar na antiga Textifício Santa Maria, na Caxangá, Zona Oeste da Capital. “Por onde você andar, vai pensar nos seus filhos, sempre pensei nos meus e no meu coração sempre houve esperança de que iria vê-los novamente”, repete sempre. A idosa chegou ao abrigo após ter sua casa, na UR-10, no bairro do Ibura, invadida por ladrões. Com medo, foi até o Abrigo Cristo Redentor, onde garante viver muito bem e gostar de sua rotina.

Por mais encontros

Se por um lado, a vida de dona Sofia Severo da Silva foi marcada pelo medo da violência e pela culpa de ter deixado seus filhos em São Paulo, a do filho mais velho, Severino Matias Severo, 57 anos, também traz grandes dores, pois ele passou a vida sem saber se a mãe estaria viva. Após dois anos da saída de dona Sofia de casa, ele foi morar com os avós paternos. “Não tenho lembranças das minhas irmãs mais novas. O que eu sei, através das tias da minha família paterna, é que elas foram doadas para duas famílias. Eu fui o único que fiquei com ele”, relatou o pastor da Assembleia de Deus. Sobre suas duas irmãs mais novas, o que ele sabe é que Rosa, que hoje teria 53 anos, foi adotada por uma família que mora no Recife, e Elizabete, que teria 54 anos, foi acolhida por um casal de médicos em São Paulo. Esse fato, inclusive, é totalmente desconhecido por dona Sofia.

“Não sei se elas mudaram de nome. O que ocorreu é que fui morar no Rio de Janeiro com uma irmã do meu pai, ainda criança, e tive uma vida muito díficil. Sofria maus tratos, vivia na rua, às vezes não tinha nem onde dormir e passei a fazer pequeno serviços. Quando meu pai casou de novo, fui morar com ele e minha madrasta”, explicou. Desse novo casamento, nasceram mais dois filhos, mas a união não deu certo e Severino preferiu ficar com a madrasta no Rio de Janeiro, ao invés de retornar a São Paulo com seu pai, que faleceu em 2011.

Aos 17 anos, ele resolver seguir seu próprio caminho, trabalhando em diversas áreas, como comércio e construção cívil. Questionado pela reportagem sobre o que lhe era dito a respeito de sua mãe, Severino Matias afirmou que seu pai preferia se manter em silêncio. “Ele dizia que iria procurá-la, mas que nunca conseguiu o contato. Quando eu tinha 15 anos, ele chegou a dizer que enviou uma carta para ela e não obteve resposta”, disse. A esperança de encontrar dona Sofia, aos poucos, foi ficando fragilizada. Até que em 1985 ele começou a se conformar com a ideia de que ela poderia ter falecido. “Eu não tinha mais notícias e meu pai não tocava mais no assunto.”

Entre os abraços e os sorrisos carregados de emoção e saudade, o pastor Severino Matias revelou à mãe que ela tem dois netos, um de 30 anos e outro com 21 anos. “Todos receberam a notícia com um pouco de receio, perguntaram se seria verdade, mas depois de checarmos que as informações batiam, eles ficaram muito felizes”, disse. Ele retornará para o Rio de Janeiro na madrugada da segunda-feira, mas apesar do desejo de levar sua mãe para morar no Rio de Janeiro com sua família, o pastor disse que primeiro pretende conversar com dona Sofia, para depois analisar com calma os próximos passos. “Nós temos muita coisa para conversar, afinal ela está no Abrigo há 10 anos, não são 10 dias. Preciso saber se ela vai querer ir, a atenção com sua saúde e como seria essa mudança”, declarou.

Presente
Foram dois meses procurando pelo paradeiro dos filhos de dona Sofia. Período entre conhecer a história e finalmente ter uma resposta positiva do seu filho mais velho. Durante o reencontro, a idosa fez questão de dizer que agora ganhou dois filhos: Severino Matias e Thiago Cavalcante, responsável por esse momento. “Fiquei muito emocionado com tudo que dona Sofia disse, é uma dor muito forte e ela tem uma memória muito boa dos fatos. Nós vamos continuar pesquisando o paradeiro das outras duas filhas, estamos com esperanças de encontrá-las”, afirmou Thiago.

Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado
Reencontro entre mãe e filho
Reencontro entre mãe e filhoFoto: Rafael Furtado

veja também

comentários

comece o dia bem informado: