Ossadas encontradas no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, situado na Vila Velha, em Itamaracá
Ossadas encontradas no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, situado na Vila Velha, em ItamaracáFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Ossos de pelo menos seis esqueletos estão ressurgindo no entorno da igreja secular de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Velha, na Ilha de Itamaracá. Dentes, crânios, toda a estrutura óssea de adultos, além do que aparenta ser uma criança, estão sendo desenterrados graças à ação do tempo e da erosão provocada pelas chuvas, ventos e passagem de carros e transeuntes.

A dois dias da comemoração da santa reverenciada no local, as ossadas expõem parte da história de Pernambuco, mas também o abandono do poder público. Além da falta de cuidado com esse importante sítio arqueológico, a igreja, que ostenta a imagem portuguesa de Nossa Senhora da Conceição doada por Dona Maria, a Louca, apresenta rachaduras, infestação de cupim, assim como placas de informações turísticas deterioradas e sem funcionalidade.

Estima-se que os restos mortais sejam de pessoas enterradas antes do século 19, quando era comum o sepultamento no entorno das igrejas. O assunto tem agitado a pacata vila. “A gente comenta, pela história local, que são escravos que morreram e foram enterrados em cova rasa”, comenta o guia turístico itamaracaense Geraldo dos Santos, de 22 anos, morador de Vila Velha. Ele conta que, desde 2013, outros objetos foram encontrados e levados por moradores. Algumas peças chegaram a ser entregues ao museu localizado ao lado da igreja, mas que não tem horário regular de funcionamento e, portanto, não possui exposição garantida. São cachimbos, restos de porcelana, chaves, balas de chumbo, cravos de ferro, moedas. Tudo da época da colonização, alguns com selos da coroa. “Quando chove, essas coisas vão surgindo. A gente recolhe para preservar. Faz parte do que somos”, continua Geraldo.

A igreja foi construída sobre os restos de um forte erguido pelos franceses durante sua ocupação, no século 16. De arquitetura barroca e renascentista, a construção presta homenagem a Nossa Senhora da Conceição, comemorada no dia 8 de dezembro. “Vem aí a festa. Isso aqui enche de gente, que vai passar por cima desses ossos. Vai se acabar”, insiste Geraldo.

Roberto Carneiro, técnico em preservação, restauração e arqueologia histórica da Fundação Do Patrimônio Histórico e Artístico Pernambuco (Fundarpe), revelou que, nesta quinta-feira (6), estará no local para acompanhar a construção de uma barreira física e reversível para evitar o tráfego por cima das ossadas. “Vamos cercar e colocar uma areia, do próprio local, por cima. Para garantir a preservação durante a festa. Na semana seguinte, nós realizaremos uma reunião com todos os órgãos competentes, Iphan, Prefeitura de Itamaracá, e lideranças da vila para tratar o assunto da forma que precisa ser”, afirmou.

Carneiro conta que a igreja é de 1529 e passou a contar com um vigário em 1550. “Em 1985, foi concluído o restauro de toda a igreja. No início deste ano, foi feita a recuperação da coberta e pintada. Existe um desprendimento em relação a uma estrutura do altar-mor, mas que é um problema de manutenção que precisa ter, inclusive, a participação da própria igreja.” Carneiro diz ainda que a presença de cupins é perfeitamente compreensível e que a praga não chega a comprometer a estrutura. “Reconhecemos que precisamos estar mais próximos da vila, de forma sistemática e contínua. Existe um plano de preservação para o local que está em fase de implantação. Primeiro, tivemos que frear a especulação imobiliária que chegou forte no local e conseguimos bons resultados.”

Em janeiro de 1990, foi aberto o processo de tombamento da Vila Velha. “Só de ter dado entrada nesse processo, já garante as prerrogativas de como se fosse tombado. O Iphan deu um parecer conclusivo e favorável e agora só falta ser homologado pelo governo do estado”, contou. “Nós recebemos um ofício da Fundarpe, em fevereiro deste ano, falando sobre a situação. Duas arqueólogas nossas foram enviadas ao local e, a partir disso, nós mandamos um ofício para a Fundarpe e Prefeitura de Itamaracá com todas as orientações, entre elas, cobrir as ossadas com areia”, explica Renata Duarte Borba, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Em agosto nós voltamos e vimos que nada tinha sido feito. Mandamos um novo ofício. Nesta quinta, nossas arqueólogas vão acompanhar o processo de proteção no local.  Combinamos essa reunião para atuar de forma mais efetiva”, relata, ressaltando que há um esforço conjunto para a preservação da história de Vila Velha.

Ossadas encontradas no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, situado na Vila Velha, em Itamaracá
Ossadas encontradas no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, situado na Vila Velha, em ItamaracáFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Ossadas e artefatos de uso pessoal como cachimbos, moedas e até munição são encontrados no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Vila Velha
Ossadas e artefatos de uso pessoal como cachimbos, moedas e até munição são encontrados no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Vila VelhaFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

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