Estabelecimento possui 80 quartos e seis apartamentos de luxo, além de um terraço panorâmico
Estabelecimento possui 80 quartos e seis apartamentos de luxo, além de um terraço panorâmicoFoto: Rafael Furtado /Folha de Pernambuco

O Hotel Central, com seus oito andares, foi tombado por decreto assinado pelo governador Paulo Câmara e publicado no último sábado (8). O prédio localizado na Boa Vista, Centro do Recife, é o primeiro marco da verticalização da Cidade. Há 90 anos, quando foi construído, era considerado um arranha-céu. Hoje o edifício mais alto, o Jardins da Aurora, também na Boa Vista, é quase quatro vezes maior que ele.

A proteção oferecida pelo tombamento é justificada pelo valor histórico do edifício. “Ser o primeiro dessa tipologia de arranha-céu já é muito importante”, explica Rodrigo Cantarelli, relator do processo. “O pioneirismo do prédio enfrentou a legislação e a restrição tecnológica da época.” Antes dele, somente edifícios de até cinco pavimentos eram construídos. E nenhum tinha elevador. O do Hotel Central foi o primeiro.“Além disso, ele ainda é um projeto muito preservado e continua sendo um exemplo do ecletismo do final do século 19, desenhado pelo arquiteto Giácomo Palumbo e inaugurado em 1928. Mesmo depois de um período de decadência nos anos 1950, ele não foi descaracterizado”, explicou Cantarelli, conselheiro de Preservação do Patrimônio Cultural da Fundarpe. São 80 quartos e seis apartamentos de luxo, além de um terraço panorâmico, barbearia, bar e restaurante, perfumaria e um salão.

A tecnologia que permitiu que o Central fosse erguido é, especificamente, a de estruturas metálicas articuladas, o conceito de fundação com grandes blocos de pedra e, sobretudo, o elevador. “Foi uma tecnologia que teve origem nos Estados Unidos. A verticalização começou em Chicago, mais de cinquenta anos antes, quando a cidade se reconstruía após um incêndio. Como na época a indústria e o comércio se expandiam, pensou-se em dobrar a quantidade de pessoas no mesmo espaço”, explica Tomás Lapa, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU).

Lapa conta que o elevador já era pesquisado desde os anos 1840 pela empresa Otis. “A verticalização não vem isolada. Vem com uma ideia, um conceito de arquitetura. Se vemos Paris, que também foi reconstruída na mesma época de Chicago, não vemos esses grandes prédios, mesmo tendo grande adensamento. É uma escolha.”
Verticalização
O conceito de verticalização é válido, segundo Lapa, mas, ao exagero, pode tornar-se um erro. “Mesmo na Roma Imperial podiam-se encontrar edificações com até sete pavimentos. Mas, a partir dos 15 andares, se entra mais em contato com aviões que com o solo, como diz o arquiteto dinamarquês Jan Gehl. Perde-se a relação importantíssima do que acontece embaixo do prédio”, explica.

O impacto que um arranha-céu causa nos locais próximos a eles preocupa o arquiteto e urbanista Eduardo Pires. “Um problema óbvio da verticalização é o trânsito. Onde antes moravam quatro famílias, estamos multiplicando por 10 ou 20. Aquela rua, aquele bairro, está sendo elevado em potencial de carga. Isso requer mais serviços, mais espaços públicos e mais fluidez de transporte público.”

Esgoto, lixo, abastecimento de água, energia e redes de dados de telefonia são demandas imediatas de uma construção, lembra Eduardo. E quanto mais alto um prédio, mais desses serviços serão necessários. “A lei de ocupação do solo não leva o impacto curto em consideração. Então, um prédio pode acabar com uma rua. Sempre houve lobby muito forte das imobiliárias para que isso não mudasse.”

Tomás Lapa percebe o problema no que chama de “ânsia em rentabilizar” um terreno. “Prédios do Banco do Brasil e o que hoje pertence ao Porto Digital, no bairro do Recife, são erros históricos. Uma incongruência num local predominantemente de gabaritos de até 5 pavimentos”, opina. “O problema é querer tanto lucrar na venda e no IPTU e colocar o resto da cidade em segundo plano."

Números do Hotel Central

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