O professor foi ícone da medicina social, defensor e promotor de direitos humanos
O professor foi ícone da medicina social, defensor e promotor de direitos humanosFoto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

Cruzada ao “matador de bebês”

“Depois da 2ª Guerra Mundial houve um grande excedente de leite em pó e a indústria de leite começou a distribuir esse excesso na América Latina e na África. Colocavam na propaganda uma mãe bem nutrida e rica alimentando seu filho. As mães pobres que não tinham condições viam aquilo e achavam que a classe alta estava usando leite em pó porque era melhor para o filho”, contou João Guilherme Alves, atual diretor de Ensino do Imip, e antigo aluno do professor Fernando Figueira. O resultado foi catastrófico. “Um bebê consome uma lata de leite a cada três dias, então era um custo importante que naquela época. O custo correspondia a quase 30% de um salário mínimo vigente. Isso levou a muita desnutrição e, associada à desnutrição, muitas doenças infecciosas, especialmente a diarreia e a pneumonia”, relembrou.

"Uma criança doente é um desafio. Para devolver-lhe a saúde ou suprir as deficiências de uma vida gerada na fome e no desespero dos que perderam a consciência do amanhã, é preciso saber utilizar a ciência pelos caminhos mais lúcidos que só o amor pode inspirar", Fernando Figueira.

A mortalidade infantil atingia níveis altos diante daquele cenário e o professor foi a primeira voz a gritar no Brasil contra o leite entalado. “Quando me formei em 1977, a indústria de leite em pó distribuía nas maternidades o produto. Quando a mulher tinha o bebê e ia ter alta, recebia quatro latas. Isso era um incentivo maior ainda ao desmame precoce. Nessa época, Figueira era secretário de Saúde e fez a primeira lei no Brasil a favor do aleitamento materno. Esse exemplo depois foi seguido em maternidades de todo Brasil”, prosseguiu João Guilherme.

Para alertar em larga escala sobre os riscos da alimentação artificial, o professor foi além: traduziu e publicou do próprio bolso exemplares do livro “Matador de Bebês”, de autoria do pesquisador americano Mike Müller. A publicação traz um relatório sobre a desnutrição infantil e a promoção de alimentação artificial na Nova Guiné. O livro foi entregue em escolas médicas e serviços materno-infantis de todo País.

"Para sentir o que se deve fazer por uma criança, basta acreditar no futuro. Nela estão todos os roteiros", Fernando Figueira.

Coragem cívica

É comum ligar a figura de Fernando Figueira ao esforço pelo bem-estar de pacientes, mas um outro papel desempenhado por ele foi de suma importância na resistência pela democracia no ano de 1969. Há 50 anos, ele saiu em defesa de um grupo de 37 estudantes de medicina de Pernambuco que poderiam ser expulsos da faculdade e perder o direito de estudar em qualquer universidade do País por três anos.

Um dos alunos desse grupo era o político e médico Luciano Siqueira. “Em dezembro de 1968, quase que concomitantemente ao AI5, houve a edição do Decreto 477, em que professores, estudantes e funcionários de universidades e escolas considerados subversivos poderiam ser cassados, ou seja, sumariamente excluídos. No Recife, esse processo de cassação começou no primeiro semestre de 1969”, contou Siqueira.

"Em minha vida, a medicina tem sido sempre inquietação na luta contra as desigualdades sociais. Ao lado do saber, infelizmente limitado, procuramos cultivar a esperança e com ela, o sonho, a esperança, a grande impulsionadora na busca de melhores caminhos para a nossa estrutura social tão injusta e o sonho, numa linguagem lírica, arquitetura dos nossos ideais", Fernando Figueira.


Não demorou muito para que as perseguições, que já havia atravessado os cursos e filosofia e letras, atingissem o curso médico. A lista com os 37 nomes chegou até o diretor da faculdade de medicina acompanhando um histórico de atividades “ilegais” de cada um. Em um primeiro ato de resistência a direção não acatou a ordem e criou uma comissão de inquérito para apurar as acusações. O inquérito foi presidido pelo professor Figueira. No fim, seu parecer apresentado ao órgão deliberativo da faculdade foi em favor dos jovens.

“Ele começou dizendo que se examinassem com atenção na lista havia muitos dos melhores alunos. Depois fez uma defesa corajosa da liberdade de expressão e da autonomia da universidade propondo que nenhum fosse cassado. Foi uma das mais belas páginas da resistência democrática da época”, asseverou o político. O episódio trouxe apreensão para a família de Figueira. “Quando chegou a correspondência, ele disse que ia defender os estudantes. Achava até que poderia ser preso e disse: ‘Nancy, se eu for preso não vá me visitar”, relembrou a viúva do professor, Nancy Figueira. Durante um recesso acadêmico e sem a apreciação do colegiado, a ditadura conseguiu a expulsão de três daquele grupo, entre eles Luciano Siqueira.

SUS

Além do Imip, instituição filantrópica que hoje atende 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Figueira foi responsável pela organização de vários serviços que ainda hoje compõem a rede estadual de saúde. À frente da Secretaria de Saúde, no governo Eraldo Gueiros, ele foi o pioneiro a elaborar um Plano de Saúde para Pernambuco. Criou a 1ª Regional de Saúde, o 1º Código Sanitário de Pernambuco e a Fundação de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM). Foi responsável ainda pela reestruturação do Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (LAFEPE) e a criação do Centro de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (HEMOPE). Presidiu a Sociedade de Medicina de Pernambuco e, em 1970, fundou com outros colegas a Academia Pernambucana de Medicina.

O professor foi ícone da medicina social, defensor e promotor de direitos humanos
O professor foi ícone da medicina social, defensor e promotor de direitos humanosFoto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco
Professor Fernando Figueira
Professor Fernando FigueiraFoto: Reprodução/Paullo Almeida/Folha de Pernambuco
A primeira preocupação do seu projeto de vida e carreira era com a saúde infantil
A primeira preocupação do seu projeto de vida e carreira era com a saúde infantilFoto: Reprodução/Paullo Almeida/Folha de Pernambuco
O professor traduziu e publicou livro de alerta contra o leite artificial
O professor traduziu e publicou livro de alerta contra o leite artificialFoto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco
O aleitamento materno virou regra de ouro no País graças a Fernando Figueira
O aleitamento materno virou regra de ouro no País graças a Fernando FigueiraFoto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

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