O aposentado Amaro Lima utiliza adaptadores do tipo T e até uma extensão para solucionar a ausência de tomadas
O aposentado Amaro Lima utiliza adaptadores do tipo T e até uma extensão para solucionar a ausência de tomadasFoto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

O Nordeste foi a região que apresentou o maior número de mortes provocadas por choque elétrico em 2018: foram 261, representando 42% de todos os incidentes dessa natureza registrados no Brasil. É o terceiro ano consecutivo em que a região registra o maior número de mortes por choque em relação ao restante do País.

Em Pernambuco, no ano passado, houve 76 acidentes de origem elétrica, com 46 mortes, sendo 51 ocorrências de choque elétrico, com 43 mortes, além de 25 casos de incêndio por sobrecarga, com três mortes. Em 2017 foram 51 mortes por choque elétrico no Estado e 18 incêndios e 4 mortes. Os dados fazem parte da edição 2019 do Anuário Estatístico da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel).

O Nordeste também aparece em destaque quando o assunto são incêndios decorrentes de sobrecarga. Em 2018, a região registrou 124 casos e 18 mortes, ficando atrás apenas do Sudeste, com 155, gerando 26 mortes, e o Sul, com 142 casos e 9 mortes. De acordo com a Abracopel, os principais motivos para esse registro no Nordeste são desconhecimento dos riscos gerados pela eletricidade e descaso com os procedimentos necessários para evitá-los.

Um dos últimos casos que ganhou destaque na mídia em Pernambuco foi o de uma mulher de 30 anos que teria sofrido um choque elétrico em um ventilador no bairro do Alto José Bonifácio, na Zona Norte do Recife. De acordo com a polícia, a vítima estaria consertando o equipamento ligado na tomada quando o aparelho caiu por cima dela, causando a descarga elétrica.

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De acordo com o professor de Eletrotécnica do Senai, Jomansil Azevedo, não existe, principalmente no Nordeste, a ideia de fazer instalações elétricas dentro das normas. Ele diz acreditar que as pessoas julgam caro o investimento para trabalhar dentro das condições de segurança exigidas. "Trata-se de algo cultural. Quando se vê, por exemplo, extensões em uma casa ou concentração de benjamins no mesmo local é porque o imóvel não foi projetado dentro das normas para receber o quantitativo de tomadas que deveriam ser instaladas naquele ambiente", comenta. O aposentado Amaro Lima, 65 anos, morador do alto Vasco da Gama, utilizou adaptadores do tipo T e até uma extensão para solucionar a ausência de tomadas suficientes para seus eletrodomésticos.

Amaro conta que costuma contratar um eletricista do bairro para realizar a manutenção da rede elétrica. "A minha preocupação é manter a rede em dias para não ficar velha, porque ela pode pegar fogo. O dono da casa sempre reconhece", relata o aposentado. No local também funciona uma pequena venda, onde são comercializados guloseimas e produtos que requerem refrigeração, como água mineral e refrigerantes. Com o espaço reduzido, a freezer toma a sala de estar, onde também estão instalados o televisor e um ventilador. O modelo casa-comércio é recorrente em outras periferias da Região Metropolitana do Recife e até em áreas centrais, onde a fiscalização não é presente e, sobretudo, falta orientação adequada.

Uso de adaptadores é cultural no Nordeste, onde não existe ideia de fazer instalações elétricas dentro das normas

Uso de adaptadores é cultural no Nordeste, onde não existe ideia de fazer instalações elétricas dentro das normas - Crédito: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

O professor de eletrotécnica lembra que, desde 2004, existe a norma NR10, bastante conhecida entre os profissionais da área da elétrica. Ela tem como caráter regulamentar todos os serviços que envolvam eletricidade e seus riscos, além de garantir a saúde e segurança dos que estejam envolvidos direta e indiretamente nestas atividades e serviços. "Esta norma é importante e necessária, mas o governo esqueceu que tudo depende de investimento. Um disjuntor termomagnético custa entre R$ 10 e R$ 15. Esse equipamento protege os circuitos. Mas existe outro aparelho tão importante quanto o outro. Trata-se do dispositivo residual (DR), que custa cerca de R$ 90, e protege as pessoas contra choques. Ou seja, por que o governo federal não tira ou diminui os impostos destes equipamentos para que a população de baixa renda tenha acesso com mais facilidade?", questiona.

Jomansil alerta que, para evitar choques e incêndios, deve-se chamar um profissional qualificado para refazer ou inspecionar toda a instalação elétrica do imóvel. "Quando você compra um carro usado, uma das primeiras ações é fazer uma revisão no automóvel. Trocar óleo e velas, ver como estão os freios. Com residências não se tem este costume. Deve-se abrir todas as caixas onde ficam os interruptores e verificar como estão. Verificar se as emendas que existem nas caixas têm condições de atender a demanda", orienta. Além disso, ele ressalta que, além de uma questão de segurança, uma revisão desse tipo produz eficiência energética e até redução de consumo de energia do imóvel.

Brasil
De acordo com a Abracopel, ocorreram 1.424 acidentes elétricos em 2018 no Brasil, sendo que 836 foram ocasionados por choque, o equivalente a 59% do total. Desses, 622 resultara em morte. Já os incêndios derivados de curto-circuito ficaram em 537, o que corresponde a 38%, e ocasionaram 61 mortes.

Os dados revelam um aumento de 18,84% no número de acidentes ocasionados por incêndios de origem elétrica e de mais de 100% no número de mortes ocasionadas por esses acidentes em comparação com o ano anterior. Em 2017, houve 1.387 acidentes elétricos, sendo 481 deles incêndios decorrentes de curto-circuito, gerando 30 mortes. Já o número de choques elétricos diminuiu um pouco em relação a 2017, mas ainda se manteve alto: foram 851, sendo que 627 deles resultaram em mortes.

 

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