Evangelma Aprígio (mãe) e Helen Aprígio (filha) mostram os estragos em sua casa
Evangelma Aprígio (mãe) e Helen Aprígio (filha) mostram os estragos em sua casaFoto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Sempre que começa a chover mais forte, Kátia de Freitas Ferreira, 38, fica apreensiva. No último temporal que atingiu o Grande Recife, no fim do mês passado, o muro erguido para proteger a casa onde ela mora com o filho Caio, de oito anos, no Loteamento Nossa Senhora da Conceição, em Igarassu, desabou por cima da residência. “Eu não sei como não derrubou a parede”, afirma. Do lado de fora, a rua sem calçamento até hoje tem lama e restos de móveis e objetos pessoais que se estragaram com a chuva.

Como a Folha de Pernambuco verificou ao longo da semana, em diversos pontos da Região Metropolitana do Recife (RMR), a população afetada pela cheia ainda sente os reflexos do desastre, convivendo com problemas de infraestrutura presentes no dia a dia. Na casa de Kátia, a água subiu mais de um metro. Mesas, sofá, cama, geladeira, fogão, tudo ficou submerso. No quintal e na cozinha, entraram os destroços do muro que caiu. Foram três dias sem luz elétrica. “Uma equipe da prefeitura veio aqui, ficou de tirar [o entulho], mas não apareceu mais. Eu tive que pagar uma pessoa para limpar”, conta.

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Nos dias seguintes à enchente, enquanto a água baixava e a energia era restabelecida, ela e o filho formaram uma das cerca de 30 famílias da comunidade que ficaram abrigadas na Escola Municipal Nossa Senhora da Conceição. “Muito do que eu uso agora foi doado”, diz a dona de casa.

Descendo um pouco mais a localidade, perto de um canal entre as ruas Rouxinol e Aparaçu, a garçonete Helen Aprígio de Albuquerque, 24, viveu uma situação parecida. Ela mora nos fundos da casa da mãe, Evangelma Aprígio, 46, com o filho Marlon, 5. “Eu estava no trabalho, minha mãe ligou e eu vim correndo. Quando cheguei, estava cheio de água. Não deu para salvar nada”, lamenta. O quintal, cheio de mato e lama, fica ao lado do canal que transbordou. Ela diz que falta capinação. “Entra bicho. Ontem passou uma cobra, eu evito passar perto do mato”, conta.

A família também foi para o abrigo montado na escola. “Passei dois dias lá. Perdi sofá, cama, mesa”, enumera a mãe, Evangelma. Na rua de trás, Aparaçu, os moradores ainda convivem com a lama na porta das casas. “A rua virou uma piscina, com a água nos peitos”, lembra o autônomo André da Silva, 38, que mora com os dois filhos de 7 e 9 anos e a mãe de 73. “Passamos quatro dias no abrigo. Voltei, mas a gente precisa de ajuda ainda. Está tudo revirado, as paredes molhadas”, descreve.

Em Olinda, os moradores da rua Vivência, no bairro de Jardim Atlântico, também sofreram com a chuva. Durante a inundação do dia 24, a água tomou toda a via e invadiu o beco onde mora Severina Maria Bezerra, 57. Na casa dela, chegou a quase meio metro. “Perdi toda a feira. Os móveis, meu sofá, colchão, ficou tudo molhado”, diz. Fugindo da enchente, ela procurou refúgio na casa da irmã, Shirlene Maria Bezerra, 46, que fica em outro beco da mesma rua, mas tem primeiro andar. “Pegamos uma lona com o vizinho e ficamos em cima de uma laje esperando a água baixar”, relata.

Na esquina com a rua Olegário Mariano, um bueiro aberto revela o esgoto que também invade a calçada. “A gente achava que, com essa obra [do canal do Fragoso], ia melhorar. Mas agora a cheia foi pior”, afirma Shirlene. “As canaletas vivem entupidas. O carro da coleta passa dia sim, dia não, mas só leva uma parte do lixo e o esgoto fica a céu aberto”, denuncia.

Respostas
Por meio de nota, a Prefeitura de Igarassu informou que ainda esta semana será enviada uma equipe técnica às ruas Rouxinol e Aparaçu para verificar a necessidade de obras na localidade.

Já a Secretaria Executiva de Serviços Públicos de Olinda disse que uma equipe já esteve no local e que as demandas dos moradores estão cadastradas para serem resolvidas. Além disso, o órgão informou que está priorizando as áreas que ainda não secaram mesmo com a diminuição das chuvas. O prazo estimado para a realização dos serviços é de 60 dias.

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