Cícero desenvolveu aplicativo inédito
Cícero desenvolveu aplicativo inéditoFoto: UFRPE/divulgação

Há um oásis de ciência no Sertão de Estado. Em Serra Talhada, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o Laboratório de Elaboração e Utilização de Tecnologia no Ensino de Química (Leuteq) destoa da realidade do Interior do Estado, onde o tema ainda é um bicho de sete cabeças para os alunos do Ensino Médio. Por meio desse grupo e de um projeto de iniciação científica, um aluno do curso de Licenciatura em Química criou um aplicativo inédito, que auxilia os adolescentes no aprendizado da radioatividade. Ele, que na sua cidade de origem, Lagoa do Ouro, no Agreste, nunca teve um professor de química com formação na área.

Para Cícero Ernandes de Melo, 21, o desenvolvedor do aplicativo, seria impossível se manter em Serra Talhada sem a bolsa de apoio acadêmico que recebe. Os pais vivem do trabalho rural em Lagoa do Ouro. Os universitários apareceram na geração seguinte: as duas irmãs mais velhas de Cícero, já se graduaram.

Ele conta que se inspirou nelas para na percepção de que tem que aprender tudo o que pode, sempre. Já chegou à graduação com um curso profissionalizante de programação de software, realizado em Garanhuns. “Eu tinha uma base no assunto, mas não o suficiente para criar o aplicativo. Estudei de forma autodidata, assistindo a vídeos no youtube e pesquisando na internet para conseguir o conhecimento de programação que faltava”, explicou. O aplicativo é uma espécie de jogo digital com perguntas e respostas, que testa o conhecimento do aluno em radioatividade. “Pesquisei os apps disponíveis para o estudo de química e percebi que não havia nenhum sobre radioatividade, tema importante do Ensino Médio. Com o jogo, o aluno revisa o que estudou enquanto descansa daquele método tradicional de só sentar na cadeira e ler.”

A teoria toda é discutida no grupo de estudos. “Dentro do Leuteq, consegui uma iniciação científica voluntária por meio do meu orientador, para que conseguisse desenvolver o aplicativo. Ela é importante para aperfeiçoar o conhecimento e para enriquecer o currículo. Investindo nele, tenho certeza que conseguirei um bom emprego quando terminar a graduação.” Cícero já conseguiu um estágio em Serra Talhada depois de se sobressair com outro projeto de iniciação científica, em que experimentou uma espécie de cacto no tratamento de águas turvas.


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Incentivos em xeque
Habitualmente, as iniciações científicas, portas de entrada para a carreira acadêmica de universitários inexperientes, são também incentivos financeiros. As bolsas garantem menos que um salário mínimo, normalmente em torno de R$ 400, para que os alunos tenham suas primeiras experiências com as pesquisas. Mas esse valor também está em xeque após as últimas movimentações do Ministério da Educação, que anunciou bloqueio de 30% das verbas não-obrigatórias ligadas à questões como limpeza e segurança, assim como a suspensão de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Os cortes estão impactando a iniciação científica, e, consequentemente, a pesquisa de modo geral. Quem faz a limpeza e manutenção dos laboratórios, por exemplo, são os terceirizados. Há risco de cortes nas bolsas custeadas pela universidade, também, apesar de estarmos fazendo o possível para que não aconteça”, explicou a reitora da UFRPE, Maria José de Sena.

O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), João Luiz Filgueiras, informou que não conseguirá fechar o orçamento para além de outubro. Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), 507 universitários estudam com bolsas do CNPq. A própria universidade paga outras 130 bolsas, mas também prevê cortes, caso o bloqueio de verbas do Ministério da Educação se mantenha.

Ao todo, há 1007 projetos ativos em que universitários têm suas primeiras experiências com a pesquisa, segundo a Pró-Reitoria de Pesquisa da instituição. Às já mencionadas, se juntam algumas iniciações científicas voluntárias e outras com bolsas pagas por instituições parceiras da universidade, como a Facepe.

“A bolsa é barata, mas cria um estímulo incrível nos universitários. E há muitas pessoas de baixa renda com talento para fazer pesquisa, que não conseguiriam se manter sem esse valor. E ela com certeza sofrerá cortes se as autoridades não revirem os bloqueios”, ressalta o pró-reitor de Pesquisa da UFPE, Ernani Carvalho. A iniciação, explica, engaja o aluno na linha de montagem da pesquisa. “É nossa forma de seduzir os melhores à carreira acadêmica. Eles começam a manusear experimentações e estudam muito mais, porque precisam se aprofundar no tema da Iniciação, comumente diferente da dinâmica acadêmica.”.

Cerca de 70% dos estudantes que participam da Iniciação Científica adentram em programas de pós-graduação - dentro e fora da universidade. “A universidade prepara para o mercado de trabalho, mas há essa parte importantíssima que visa à academia", defende o pró-reitor Ernani Carvalho.


Estudante do curso de biomedicina, Francielle pesquisa soluções para identificar tumores agressivos

Estudante do curso de biomedicina, Francielle pesquisa soluções para identificar tumores agressivos - Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

 
Resultados

A estudante do 6º período de Biomedicina na UFPE, Francielle Barbosa, 21, é apoiada pela Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) para pesquisar o câncer de mama do tipo triplo negativo, o mais agressivo, no Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika) da UFPE. “Geralmente, pacientes com esse tipo de tumor têm prognósticos ruins, porque não há um tratamento específico na clínica. Estou na segunda fase de uma pesquisa que identifica qual tratamento vai surtir efeito nesses casos”, relatou.

Francielle estuda micro RNAs e testa no tecido tumoral colhido de pacientes dos hospitais Barão de Lucena e Agamenon Magalhães. O resultado permite saber qual o tratamento mais adequado para cada pessoa, individualmente. “A partir de biomarcadores, que são quaisquer parâmetros biológicos mensuráveis que se alteram diante da presença do tumor, podemos descobrir isso.”

A carreira acadêmica é o objetivo final de Francielle. No começo do curso já realizou uma pesquisa que testava concentrações de hipocloritos de sódio em bactérias relacionadas a infecções hospitalares.

A professora com quem realiza o atual trabalho, e em quem se inspira, é a bióloga Danyelly Bruneska, que também ingressou no ambiente das pesquisas por meio da Iniciação Científica. Hoje é pós-doutora pela USP.

O diretor do Lika, onde Danyelly e Francielle trabalham, é o professor José Luiz Lima Filho. Pós-doutor três vezes em universidades da Alemanha, Japão e Estados Unidos, começou a carreira de pesquisa com uma iniciação científica no segundo ano do curso de Medicina, em 1979.

Fernando Cardoso, o professor da UFPE com mais pós-doutorados, 19 no total, foi convidado nos anos 1950 a participar das atividades acadêmicas do Instituto de Física e Matemática do Recife, com bolsa de Iniciação Científica do CNPq.

 

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