Dia foi de desolação para muitas famílias como a de Severina Maria (E), que pretende ficar
Dia foi de desolação para muitas famílias como a de Severina Maria (E), que pretende ficarFoto: Léo Malafaia

É grande a preocupação e tristeza dos moradores do edifício Holiday, localizado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, um dia após o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) determinar a interdição e desocupação do edifício. A administração do local disse que vai recorrer da decisão. Apesar disso, ontem, em meio aos resistentes, alguns moradores começaram a deixar o local.

A aposentada Anita Maria Barbosa, 78, vive no Holiday há 35 anos com o marido de 76 anos. Ela contou que está sendo muito difícil conviver com a incerteza de não saber para onde ir. “Suei muito para comprar esse apartamento e é muito triste para mim sair daqui dessa forma”. Ela disse ainda que vive da aposentadoria e que não tem perspectivas de viver em um lugar melhor. “Eu ainda não comecei, mas vou começar a procurar um lugar para morar ainda essa semana. Está sendo muito difícil lidar com essa mudança”, relatou.

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Assim como ela, o zelador Vicente Soares, 62, que mora há 13 anos no edifício com o filho Vinícius Soares, de 11 anos, também não tem onde morar. Ele disse que desde que alugou um apartamento do edifício, trabalha como zelador do local e agora não tem condições de pagar aluguel em outro lugar. “Todo dinheiro que eu ganho vem da prestação de serviços no prédio. Agora, não sei mais o que fazer e nem onde meu filho vai estudar, já que a escola que ele frequenta é bem perto de casa”, afirmou. Caminhões disponibilizados pela Prefeitura estão na frente no edifício para auxiliar na mudança dos moradores.

Além disso, diversas secretarias, como a de Direitos Humanos, Saúde, Mobilidade, além do Samu, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal, também estão prestando atendimento para pessoas que possuem limitações e querem deixar o prédio Holiday de maneira segura. Segundo o secretário executivo de Defesa Civil do Recife, Cássio Sinomar, moradores que não têm para onde ir, podem se cadastrar e serão relocados para um abrigo.

“Algumas pessoas já nos procuraram para utilizarem também os caminhões de mudança, mas a quantidade ainda é pequena. Acreditamos que cerca de 80 pessoas já deixaram o local desde a ordem judicial”, contou. Mas há quem resista. A dona de casa Severina Maria, de 60 anos, mora no apartamento de número 1227 há 34 anos, ao lado do marido. "Desde que eu soube só faço chorar. Estou tomando remédio controlado." O marido deixou de receber o auxílio-doença no final do ano passado. "Ele era cortador de cana. Aos 18 anos veio para cá e começou a trabalhar em uma padaria. Foi do dono que ele comprou esse apartamento, em um acordo. Por causa dos anos de trabalho, perdeu as cartilagens das costas e das pernas", explica.

"Desde então não pode mais trabalhar. E agora, sem auxílio, querem que a gente faça o quê? Estamos lutando até o fim. Se não der jeito, vamos para a casa da minha cunhada. Mas só no final", diz, com esperança. Há 10 anos morando no apartamento 1505, Edmar Souza, aos 60 anos, também se mostra resistente. "Eu acredito que ainda vão reverter essa decisão." Ele comprou o apartamento por R$ 8 mil e gastou a mesma quantia numa reforma.

Tudo custeado com o trabalho de hoteleiro que exerceu por 20 anos. Na parede, um quadro estampa a pintura do Seminário de Olinda. "É meu único apego. Se eu tiver que sair, deixo tudo e vou para um abrigo temporário. Mas o quadro eu vou dar para alguém. Estou pensando em quem." A decisão de desocupação e interdição do edifício foi proferida na última quarta-feira pelo juiz Luiz Gomes da Rocha Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública da Capital, em caráter liminar, atendendo ao pedido da Prefeitura do Recife.

A justificativa para a interdição foi o risco que o prédio oferece aos moradores. O edifício Holiday tem 17 andares e abriga cerca de duas mil pessoas em 476 apartamentos com taxa de inadimplência de 53%. O prazo de desocupação, que começou ontem, é de cinco dias.

Caso o prédio não seja desocupado no período estimado, a justiça poderá iniciar a remoção dos moradores à força. O síndico do edifício, Rufino Neto, anunciou que irá recorrer da decisão judicial nesta sexta-feira (15). Rufino alega que o condomínio tem plano de revitalização.

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