Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Fórum Mundial Social
Fórum Mundial SocialFoto: Gustavo Cortabarria / divulgação

Para relembrar: o Fórum Social Mundial (FSM) surgiu em 2001 como uma iniciativa de organizações e movimentos sociais em contraposição ao neoliberalismo simbolizado pelo Fórum Econômico Mundial (Davos). As primeiras edições aconteceram em Porto Alegre (RS). Daí o Fórum seguiu para outros países e continentes. Voltou ao Brasil neste março de 2018. Veio para Salvador, a cidade com maior população negra do País.

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Estadual da Bahia (Uneb), o Instituto Federal da Bahia (IFBA) e o bairro de Itapoã formaram um amplo, descentralizado, colorido, criativo e amigável território, que contou também com acampamentos de quilombolas, indígenas e jovens. As discussões abrangeram as mais diversas lutas pela transformação. A academia acolheu e se aproximou ainda mais dos movimentos sociais. Como afirmou o professor da Universidade de Brasília (UNB) Luís Felipe Miguel, a universidade que sempre esteve a serviço das empresas, formando mão de obra, pode estar também a serviço dos movimentos sociais, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, menos violenta. Isso não é fugir ao seu
papel.

No balanço realizado pelo Conselho Internacional do FSM, foi levantado o número de 80 mil pessoas inscritas. As atividades, 2.200, corresponderam ao maior número de todos os Fóruns realizados até hoje. A passeata de abertura, que se iniciou no Campo Grande e seguiu para a Praça Castro Alves, foi bastante longa, eu vi.

Na manhã do dia 15, quando, ainda atônita com as notícias da noite anterior sobre o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, percorri de ponta a ponta o campus da UFBA - Ondina, em todos os pequenos grupos de pessoas pelos quais passei, em todas as tendas de debates ouvia ”Marielle! Marielle! Marielle!”. Palavras de espanto e de revolta que estiveram na origem de mobilizações que começaram a pipocar em todos os lugares, não só no Brasil. Ações que buscavam transformar o consolo da dor coletiva, o luto, em reação e luta.

Assembleia de mulheres

Assembleia de mulheres - Crédito: Gustavo Cortabarria / divulgação

A Assembleia das Mulheres, que recebeu o nome de Marielle Franco, contou com 5 a 10 mil participantes. Foi realizada na manhã do dia 16 de março em praça aberta: o Terreiro de Jesus no Pelourinho. Nenhuma outra atividade foi inscrita nesse horário, contribuindo para que o maior número das participantes estivesse presente. Veja abaixo o documento síntese da Assembleia. Foram aprovadas 3 moções: por Marielle, pelas curdas e pela Venezuela.





“Eu sou porque nós somos”
Muito tem se falado sobre Marielle nestes dias. Negra, lésbica, feminista, socialista, socióloga militante dos Direitos Humanos. Ela concentrava na sua pessoa o símbolo de muitas gerações de lutas, não apenas das mulheres, mas também de homens negros.

Foi aluna de um pré-vestibular comunitário da Maré. Essa foi uma tática que os movimentos negros criaram para superar os limites de acesso à educação que as políticas de cotas por si só não alcançavam responder: contribuir para que alunos/as das escolas públicas tivessem um reforço de formação na sua tentativa de chegar ao ensino superior.

No mestrado, a reflexão sobre o racismo institucional, especulação imobiliária e remoção da população da favela, a necessidade da desmilitarização da polícia, consolidaram-se na dissertação “UPP - A redução da favela a 3 letras: Uma análise da Política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro”. O trabalho está disponível na internet e a leitura vale a pena.

Marielle representou um futuro que queríamos ver realizado. Ela era teoria e prática. Leitura crítica do mundo traduzida em luta pela transformação. Ela foi/é superação que se converteu em potência expressa na luta. Uma luta que é do povo negro, das mulheres negras, que, sob duras acusações têm feito também com que outros movimentos sociais, entre eles os feministas, reavaliem suas perspectivas e ações antirracismo.

O crime, covarde, foi sem dúvida político. Não vou falar aqui sobre o outro crime que é querer transformar a vítima em culpada. Assim sempre foram tratadas as mulheres vitimadas por violências. Quanto às diversas tentativas de difamação e calúnias que estão sendo veiculadas, não podem intimidar. Há um grupo de advogadas/os que delas estão tratando. Até a manhã dessa segunda feira (19), somavam 14.235 denúncias.

Quando essa coluna foi enviada à Folha de Pernambuco, estarão começando a acontecer diversos atos em todo o País. O 20M #MariellaVive, até o nosso fechamento, contava com a adesão de 23 cidades de norte a sul do País.

Termino oferecendo a vocês a música 'Canção do Novo Mundo', de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, interpretada por Milton Nascimento. Ela veio muitas vezes à cabeça nesses dias, quando pensava no que são capazes os simples canalhas.



* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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