Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Quadro 'O último olhar', da sheikha Lateefa Bint Maktoum
Quadro 'O último olhar', da sheikha Lateefa Bint MaktoumFoto: reprodução

Dubai passou a ser, em 2017, a quarta cidade mais visitada do mundo. É grande o número de brasileiros/as que visita os Emirados Árabes Unidos - EAU, surgidos em 1971. Por oportunidade de voo, visitei Dubai e Abu Dhabi, curiosa por saber mais sobre a região desértica que foi transformada em lugar habitável com edifícios fabulosos e luxuosos, um deles o prédio mais alto do mundo - o Burj Khalifa. População com a mais alta taxa de migrantes do mundo. As temperaturas também são altas. O ambiente externo no verão, mesmo para uma pessoa acostumada com o calor do Sertão do Brasil, é algo que exaure completamente. Raro ver gente caminhando pelas ruas, já que é mais agradável estar dentro de carros e prédios com ar condicionado. Mas tem até quem ouse ir às praias!

La Mer

La Mer - Foto: Carla Batista/Cortesia

Quanto ao Museu, motivo desta coluna, soube da sua existência ao acaso. Em um city tour, que mais pareceu um shopping tour. Só parava em lugares onde algo poderia ser comprado. A placa indicativa chamou a minha atenção, o que levou a procurá-lo no dia seguinte. É um museu pequeno que pode ser visitado em uma, duas horas, e se for o seu caso, ainda lhe dá tempo para ir às compras de jóias e/ou frutas secas e temperos, cujas lojas estão aí centralizadas. A região histórica da cidade. Mas, sem sombra de dúvidas, uma visita ao Museu vale a pena! Ele é uma pérola!

Sinalização para o Museu da Mulher, em Dubai

Sinalização para o Museu da Mulher, em Dubai - Foto: Carla Batista/Cortesia

Fundado em 2012 por Rafia Ghubash, professora de psiquiatria que, entre 2001 e 2009 presidiu a Universidade do Golfo Pérsico no Bahrein, é também um Centro de Estudos sobre a Mulher. Nele existem informações consolidadas sobre as árabes em diversos campos: educação, literatura, política, economia... Esse último um tema importante numa sociedade onde o comércio é uma das ocupações de grande valor. Não pude deixar de notar no aeroporto a capa da revista abaixo, ressaltando empresárias de sucesso.

No aeroporto, capa de revista ressalta empresárias de sucesso

No aeroporto, capa de revista ressalta empresárias de sucesso - Foto: Carla Batista/Cortesia

A região possui, em parceria com a ONU Mulheres, um Plano Estratégico Nacional para o Empoderamento e Avanço da Mulher Emirates (2015-2021). Se a primeira universidade dos EAU foi criada em 1976, hoje, das mulheres que chegam ao fim do ensino secundário, 77% prosseguem fazendo os seus estudos superiores. É maior o número de mulheres do que o de homens que chegam ao ensino superior. O museu tem uma clara mensagem de estímulo e valorização dos estudos e das ciências.

As informações estão organizadas em painéis históricos com datas e fotos de algumas daquelas que se destacaram ou destacam. O objetivo é registrar a história do pensamento e da participação das mulheres, ressaltando suas conquistas em todas as áreas de atuação, entre elas, a organização e participação política. Um importante projeto da fundadora é o de consolidar uma enciclopédia das mulheres dos Emirados. Rafia Ghubash está muito empenhada em tirar os véus que ocultam a contribuição das mulheres na formação da cultura árabe.

 

Sala de conferências com biblioteca que coleciona livros escritos pelas emirates

Sala de conferências com biblioteca que coleciona livros escritos pelas emirates - Foto: Carla Batista/Cortesia

No Museu, existe uma sala de conferências com biblioteca que coleciona livros escritos pelas emirates. Exposição de pinturas, além de amostras de outros materiais produzidos por e para elas: artesanatos, vestimentas, jóias e outros objetos de uso cotidiano, afora uma curiosa exposição de burcas. E, como não poderia deixar de ser, há também as mensagens sobre a importância da maternidade e das mulheres para as suas famílias.

Convido a uma visita à página: www.womenmuseumuae.com. Não tendo propriedade do idioma, vale por algumas imagens, já que não foi autorizado fotografá-lo.

Se for a Dubai, esta é uma sugestão de visita. E, antes que seja comentado, não foi intenção relatar aqui, em profundidade, como é a vida das mulheres daquela região, onde 76,8% da população é muçulmana. Tem muita coisa na internet e em publicações que podem ser consultadas. Sobre a minha limitada experiência de visitante, e feminista que sou, posso contar que nos restaurantes aonde estive, sozinha, sempre me colocaram numa mesa ao fundo, quando não em compartimentos fechados, como estes que existem nos restaurantes japoneses. O lugar menos visível possível. Mesmo no Burj Al Arab, nada das janelas ainda que algumas estivessem disponíveis, a não ser quando me levantei e fui até elas para tirar fotos.

No metrô, acredito que por medida de segurança e conforto, existem alguns vagões com uma faixa separando espaços destinados a mulheres e crianças. Eu sei que este é um tema polêmico. Mas, pude passar pelas duas experiências. A de me sentar neste espaço reservado e fazer uma viagem tranquila e a de entrar desavisada, final de expediente, em um vagão só com homens, lotado, e ficar imprensada no meio deles, tentando me desvencilhar com os cotovelos de um ventre insistente. Algo conhecido?

No metrô, alguns vagões têm faixa separando espaços destinados a mulheres e crianças

No metrô, alguns vagões têm faixa separando espaços destinados a mulheres e crianças - Foto: Carla Batista/Cortesia

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas 

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