Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Protesto feminista
Protesto feministaFoto: Ras Adauto/Cortesia

Violência sem limites. Este é um problema a que estão expostas todas as mulheres. Que pode atingi-las em algum momento de suas vidas, pelo fato de serem mulheres. Que costuma vir acentuado pelas vulnerabilidades que a raça, etnia, geração e classe social impõem. E não é só para as habitantes do sul global, mas para as do norte também. O patriarcado ultrapassa fronteiras e culturas. E é para isto que chama a atenção a contribuição a Mulheres em Movimento desta semana.

A autora, Hannah Farhan-Dorn, é mestra em estudos culturais em Hamburgo, Dalian (República Popular da China) e na cidade de Monastério. Ela está atualmente matriculada no programa de mestrado “Gestão sem fins lucrativos e Governança” na Universidade de Monastério. Também trabalha como orientadora dentro do tópico de combate à violência contra homens e mulheres no Ministério de Igualdade de Gênero no Estado Federado da Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha.

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Carla G. Batista


Violência contra a mulher na Alemanha aparece em todas as classes sociais

Foto: Ras Adauto/Cortesia

 

   A violência contra mulheres na Alemanha


 

Por Hannah Farhan-Dorn

Todos os dias um homem tenta matar uma mulher, a cada terceiro dia ele é bem-sucedido. De acordo com a estatística recentemente, publicada pela Polícia Criminal Federal da Alemanha, em 2017 um total de 138.893 pessoas em relacionamentos amorosos foram alvos de assassinatos, lesão corporal, assédio sexual, ameaças e perseguição. 82 porcento dessas pessoas, quase 114.000, eram mulheres. Em casos de estupro e assédio sexual, quase todas as vítimas eram mulheres. Mais de noventa porcento das vítimas de perseguição e ameaças eram também do sexo feminino. 455 pessoas foram mortas de forma intencional ou não intencional pelos seus parceiros. Desse número, 364 eram mulheres – estatisticamente, uma por dia do ano. Das 455 pessoas, 141 mulheres e 32 homens foram assassinados pelos seus (ex-)parceiros. Em outras palavras: Todos os dias um homem com o qual se relaciona/relacionou tenta matar uma mulher, no terceiro dia ele é bem-sucedido em sua tentativa.

Em todas as classes sociais, em qualquer idade
Tais dados refletem apenas a superfície. Estudos mais profundos apontam que quase todas as mulheres alemãs com idades entre 16 e 85 anos já sofreram algum tipo de violência física e/ou sexual dentro e um relacionamento, ao menos uma vez na vida. Isso mostra que: a violência contra a mulher na Alemanha aparece em todas as classes sociais, em qualquer idade.

Protesto feminista

Foto: Ras Adauto/Cortesia

O movimento feminista alemão
Desde meados da década de setenta, o movimento feminista alemão tem atraído atenção do público devido à extensão da violência contra mulheres e crianças. Por isso, em 1976 foi criado o primeiro abrigo autônomo de mulheres em Berlim, sendo esse o primeiro de vários outros abrigos com a mesma finalidade que foram construídos posteriormente. Em 1980 os abrigos autônomos feministas se uniram formando uma rede e uma organização coordenativa intitulada “Zentrale Informationsstelle Autonomer Frauenhäuser (ZIF)” (Centro de Informações de Abrigos para Mulheres). Todos seguem o princípio “Frauen helfen Frauen”, que significa “mulheres ajudam mulheres”, o que, atualmente, se tornou o nome de vários desses abrigos e centros de aconselhamento dentro da Alemanha (podemos citar como exemplo o abrigo para mulheres da cidade de Colônia, cujo nome é “Frauen helfen Frauen e.V.”.

Apesar desses abrigos estarem lotados de mulheres em busca de ajuda, tanto os políticos quanto a sociedade ainda afirmam que famílias são “espaços seguros”, ignorando a violência masculina dentro de casamentos e relacionamentos. Na verdade, estupros e assédios sexuais cometidos dentro de um casamento não eram considerados crimes até julho de 1997. É devido ao movimento feminista que o Ato de Proteção contra Violência foi publicado em 2002. Tal ato segue o lema “aquele que comente a violência deve ir embora”. Desde então, a violência doméstica e a violência dentro de relacionamentos deixam de ser crimes privados, obrigando o Estado a intervir. Se torna então permitido que a polícia expulse e proíba a volta do autor do crime. Sendo assim, as vítimas não são mais colocadas em uma situação que cause a perda de seu entorno familiar quando sofrem violência doméstica.

Mulher

Foto: Ras Adauto/Cortesia

Desde então, o movimento de mulheres na Alemanha tem feito um trabalho de conscientização pública sobre formas cotidianas de violência contra mulheres. Tudo começou com pequenos e improvisados abrigos sem nenhum financiamento, hoje a Alemanha possui cerca de 350 abrigos para mulheres afetadas pela violência e também para seus filhos, com mais de 6.000 vagas. Somado a isso existem ainda 750 centros de aconselhamento dedicados à violência contra mulheres. Existe também um serviço de atendimento telefônico chamado "Gewalt gegen Frauen" (Violência contra mulheres) que oferece aconselhamento gratuito para as vítimas, 24 horas por dia, em 15 línguas diferentes.

Todos os poderes para as mulheres

Foto: Ras Adauto/Cortesia

Desafios futuros
Em fevereiro de 2018 a Alemanha ratificou a Convenção do Conselho Europeu no tocante ao combate da violência contra mulheres e violência doméstica. Essa convenção provê acesso a proteção para todas as mulheres que se encontram vítimas de todas as formas de violência. A Alemanha já possui uma vasta gama de sistemas de apoio para mulheres afetadas pela violência. Mesmo com todas essas medidas, o país ainda tem um longo caminho a percorrer para que consiga prover ajuda para todas as mulheres. Fortalecer a situação financeira de abrigos para mulheres e de centros de aconselhamentos, assim como reduzir o número de mulheres que não conseguem vagas em abrigos superlotados são os maiores desafios. Para que a Alemanha possa desenvolver medidas de prevenção e luta contra a violência doméstica se faz necessário uma forte cooperação entre especialistas civis e do governo.

Agradecemos a Laura Guido pela versão do texto para o português e a Ras Adauto pela cortesia em ceder as fotos de manifestações na Alemanha que ilustram esta coluna.

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

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