Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Ana Monzon
Ana MonzonFoto: divulgação

A colaboração para Mulheres em Movimento semana vem da Ana Silvia Monzón. Ela é feminista, socióloga e comunicadora. Coordena o programa de rádio Voces de Mujeres e é também professora e pesquisadora.

É raro ou nunca falamos da Guatemala por aqui. Aliás, pouco falamos dos outros países da América Latina. Isso faz parecer que o Brasil está de costas para ela. O que não é assim para os movimentos de mulheres. Contextos e desafios postos criam afinidades que os aproximam. Leia o texto abaixo e verá o quanto temos em comum.

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Carla Batista

As mulheres seguem em movimento**

Ana Silvia Monzón

O panorama atual para as lutas das mulheres na Guatemala é sombrio. Os discursos conservadores contrários aos direitos das mulheres, especialmente aos direitos sexuais e reprodutivos, permeiam a opinião pública. Dos púlpitos, nos partidos políticos, nos organismos estatais, nas conversas cotidianas, é evidente uma posição contrária aos avanços das mulheres.

Como se chegou a isto? Para entender essa dinâmica histórica, é necessário lembrar que a sociedade guatemalteca ainda sofre as conseqüências de um conflito armado interno que durou dos anos 60 aos 90, e isso significou pelo menos 200.000 pessoas mortas e 45.000 desaparecidas. Durante essas décadas, milhares de mulheres, da cidade e do campo, a maioria delas indígenas, sofreram deslocamentos forçados, sequestros, tortura, abusos e violações sexuais. A política de Estado implantou um regime de terror documentado nos relatórios “Nunca Más" (1997) e “Memória del Silencio" (1999), que narram esses anos de repressão.

As mulheres enfrentaram essas situações com grande coragem e valentia. Se organizaram desde os acampamentos de refugiados, localizados na fronteira com o México, para onde se mudaram quando tiveram que fugir com suas famílias e deixar suas casas e comunidades. Ao mesmo tempo, surgiram organizações feministas que inseriram ao debate político questões como a autonomia e a emancipação das mulheres, demandas que haviam sido relegadas ante a brutalidade do regime político. Foi com a promulgação de uma nova Constituição, em 1985, que o processo de construção da cidadania das mulheres, historicamente excluidas do espaço público, foi reiniciado.

Na onda do movimento internacional de mulheres, que ganhou força nos anos setenta e oitenta, as mulheres da Guatemala aderiram, já nos anos noventa, à corrente crítica do sistema patriarcal. Criaram diversas organizações, consensuaram agendas que priorizavam uma série de direitos há muito negados: reconhecimento como humanas, como seres independentes com sonhos e aspirações, como cidadãs que merecem espaço e participação na tomada de decisões. Como intelectuais e artistas. Como trabalhadoras que contribuem para a economia familiar e nacional, como parte de povos indígenas e afrodescendentes que resistiram ao colonialismo, ao racismo e à exclusão.

Marcha de Guatemaltecas

Marcha de Guatemaltecas

Com grande energia, em processos não isentos de tensões porque as mulheres se juntam com origens, experiências, interesses e demandas diversas, conseguiram construir uma agenda que foi incluída nos textos dos Acordos de Paz. Uma conquista sem precedentes, que foi posteriormente adotada pelas Nações Unidas e incorporada na resolução 1325 que contempla a participação das mulheres nos processos de paz em qualquer país. A paz não pode ser alcançada se metade da população, as mulheres, não
for levada em conta.

Esta agenda incorporou as aspirações das mulheres para serem consideradas cidadãs plenas. Incluiu, com ênfase, o direito das mulheres a viver sem violência, de mulheres indígenas a denunciar o racismo estrutural e cotidiano que limita suas vidas e a garantia de seus direitos. Das trabalhadoras a exigir melhores condições de trabalho.




Entrevista de Ana Silvia sobre comunicação e gênero para o programa de rádio Voces de Mujeres (em espanhol)


O processo de negociação, debate e construção coletiva as uniu e exigiram que os Acordos estabelecessem a criação de um Fórum Nacional da Mulher, cuja estrutura permitiu atingir milhares de mulheres em espaços locais e nacionais. Pela primeira vez, muitas escutaram que tinham direitos, que suas vidas não deveriam ser marcadas apenas por tarefas de cuidados e domésticas, pela maternidade muitas vezes imposta. Que elas tinham opções, o direito de decidir sobre suas vidas e seus corpos.

Os anos após a assinatura dos Acordos de Paz foram intensos, as organizações de mulheres de todos os tipos se multiplicaram: indígenas, mestiças, rurais e urbanas. Algumas se concentram em promover mudanças nas leis, outras na formulação de políticas públicas, na criação de instituições que garantam seus direitos. Algumas deram forma a meios de comunicação próprios, ou trabalharam lado a lado com entidades e organizações regionais e internacionais para instituir debates em torno de várias questões: sexualidade, educação, saúde, participação política e com grande força, visibilizar a violência contra as mulheres, tanto a que ocorreu durante a guerra, quanto a violência cotidiana nos lares, nos relacionamentos de casais, no trabalho, nas ruas.

Numerosos estudos, o progresso no desenvolvimento de instrumentos internacionais de direitos humanos, e a força política dos amplos movimentos de mulheres, ajudaram a identificar que a violência não é normal ou natural. Ajudou a desvendar os mecanismos que sustentam e reproduzem as diferentes formas de violência contra as mulheres. A partir daí, e depois de longos e dolorosos processos, começaram a revelar o horror do conflito armado e as cicatrizes que a repressão imprimia em seus corpos. Elas foram capazes de superar essa dor acumulada e se atreveram a denunciar crimes contra a humanidade. Esta determinação forçou o sistema de justiça a dar uma resposta, e assim se chegou à histórica sentença por genocídio contra o povo Ixil em 2013. E à condenação, em 2016, pelo estupro e escravidão sexual, cometidos e tolerados por militares na comunidade q’eqchi' de Sepur Zarco. Quinze mulheres, já idosas, deram seu testemunho, uma a uma, das humilhações sofridas trinta e cinco anos antes. O tribunal as ouviu e fez justiça. Esta foi uma conquista sem precedentes no país da eterna impunidade.




Entrevista de Ana Silvia para Flacso sobre caso Super Zarco (em espanhol)


Esses avanços, no entanto, sofreram limites nos últimos sete anos, quando um ex-militar chegou à presidência. Desde então observa-se a deterioração institucional, o enfraquecimento dos processos de garantia dos direitos humanos, o fechamento de espaços para a cidadania, a cooptação das demandas das mulheres.

Ao identificar e denunciar quão arraigados os esquemas de corrupção estão no Estado e na sociedade, reações conservadoras e cada vez mais agressivas foram ativadas por elites econômicas e políticas que não querem perder seus privilégios. Nessa pretensão de manter seu poder, aliaram-se às correntes regionais e internacionais mais fundamentalistas, e as mais afetadas são as mulheres, os povos indígenas, todas as pessoas e grupos que lutam por seus direitos, pelos direitos coletivos.



Apesar destes ataques e retrocessos as mulheres continuam resistentes na defesa da água e territórios, desejados por empresas transnacionais. Na defesa dos direitos sociais, da educação, da saúde e emprego, que são violados ou vulnerabilizados diariamente. Defesa de direitos políticos, de direitos sexuais e reprodutivos. Na defesa do direito de não serem vítimas de violências. De migrar em condições dignas. De Recuperar e reivindicar a memória de seus antepassados, de seus milhares de familiares vítimas da guerra.

Não obstante os enormes desafios, a luta desigual, as barreiras que há que enfrentar, as dificuldades para sustentar suas organizações, para manter os sonhos vivos, as mulheres na Guatemala, seguem em movimento e reivindicam o direito de viver com alegria.

** A tradução é de Carla Batista e as fotos: a de Ana foi tirada por Mercedes Cabrera e as outras foram tiradas por Ana Monzón.

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

 

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