Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia

Sim, foi com uma garota que tudo começou. Foi com uma manifestação, a princípio solitária, que ecoou nos sentimentos e preocupações de milhares de pessoas jovens, mas não só, que um grito pelo futuro da humanidade se fez. Uma iniciativa que cresceu a partir de uma juventude atenta e preocupada com a vida do planeta e de todos os seres que nele habitam.

A colaboração a Mulheres em Movimento vem de Mª Betânia Silva, que estava no Reino Unido quando aconteceu. Ela foi professora de direito constitucional, atualmente está aposentada. Não do seu olhar engajado e perspicaz.

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Jovens do mundo marcham para proteger a mãe Terra
Maria Betânia Silva

15 de Fevereiro de 2019, dia em que jovens entre 10 e 18 anos, no Reino Unido, se ausentaram das salas de aula a fim de realizarem uma manifestação sobre mudança climática, atraindo a atenção de autoridades e sociedade em geral acerca das suas causas. Essa manifestação se insere num movimento global de jovens nessa faixa etária, denominado Schools 4 Climate Action (essa é a grafia, com o numeral, embora a tradução seja Escolas para Ação Climática).

Segundo noticiado pela BBC News on line, essa ação foi impulsionada por Greta Thunberg, uma jovem sueca de 15 anos, que, em setembro do ano passado, acusando o seu país de não seguir o Acordo do Clima de Paris, deixou a sala de aula para sentar-se em frente ao prédio do governo como uma forma de protesto.

Esse evento, num primeiro momento, constituiu uma “saia justa” para a direção das escolas públicas do Reino Unido. Em especial para aquelas que encorajam seus alunos ao exercício da crítica porque, sendo o protesto uma atividade fora da grade curricular, não lhes cabia cancelar as aulas para todos os estudantes, tomando partido em favor deles sem dispor dos meios necessários para assisti-los fora do espaço escolar. De outro lado, deve-se ponderar que nem todos os pais e mães aceitariam uma decisão dessa natureza. Aliás, a respeito de uma eventual oposição dos pais e mães é fácil deduzir que o protesto traz em si a nota da subversão da autoridade, conferindo a crianças e a adolescentes o “poder” de decidirem quando ir ou não escola e, ainda, se perceberem como agentes de intimidação das autoridades. Em última análise, algo que também é capaz de intimidar pais e mães, para fazerem valer a sua própria agenda.

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A alternativa encontrada por algumas escolas, então, foi manter as aulas, comunicar responsáveis sobre a ocorrência do protesto, esclarecer-lhes sobre os propósitos e lhes exigir que enviassem à escola uma autorização formal de ausência do filho(a), recomendando, ainda, que, se possível, exercessem a vigilância devida. Foi uma alternativa sem dúvida alguma sensata e inteligente, até porque alguns responsáveis poderiam se sensibilizar elevando, indiretamente, o número de participantes no protesto.

Nessa data tive a oportunidade de acompanhar a manifestação de estudantes no Centro da Cidade de Oxford e dar o testemunho de quão comovente foi ouvir o refrão entoado com entusiasmo por algumas centenas deles/as: “Hey, Ho Climate Change has got to go (numa tradução livre: a mudança climática tem que ter fim!) carregando, em grupo ou isoladamente, faixas e cartazes com dizeres como: “Mude o sistema, não mude o clima; “Pare de queimar o nosso futuro”; “ Nosso Futuro, Nosso Planeta, Suas Mãos”; “Não há um Planeta B” e sobretudo inúmeros outros cartazes nos quais se fazia alusão à Terra – Planeta Mãe, com uma clara afirmação ao cuidado afetuoso para com a Terra porque ela nos pariu, porque dela nos nutrimos, porque ela nos acolhe e por tudo isso devemos respeitá-la, preservando-a em sua integridade.

Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática

Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática - Foto: Maria Betânia Silva/Cortesia

A referência à palavra mãe foi algo muito recorrente nos cartazes empunhados, inclusive, com jogos de linguagem e rebeldia, a exemplo de um que estampava: It’s Not Cool to Fuck with Mother Nature (Não é legal f* com a Mãe Natureza) e isso revelou algo que não pode passar despercebido: o de conferir destaque ao gênero feminino, o qual foi também reforçado pelo elevado quantitativo de garotas durante a passeata e no uso da palavra para fazer discursos aguerridos. Diante desse protagonismo não se pode ignorar que o ato de cuidar não foi explorado como um papel a ser exercido exclusivamente pelo gênero feminino, mas por todos os seres humanos.

O certo é que do School 4 Climate Action ficam algumas importantes mensagens: a autoridade dos adultos, em especial dos que ocupam os espaços de decisão nos governos, começa a ser posta em causa por uma geração bem mais jovem do que aquela que no passado de muitos países compunha os movimentos estudantis; um movimento com essa característica amedronta, tanto que um dos membros do Parlamento Inglês teria comentado que a paralisação escolar pelas crianças significava “perda de tempo para a lição”; o modelo-padrão de escola em vigor no Ocidente também sofre um questionamento, porquanto é um espaço que restringe e resiste às mudanças atitudinais, não obstante possa ser como qualquer outro espaço físico do Planeta devastado pela maior de todas as mudanças: a climática; o gênero feminino desponta como protagonista no sentido das mudanças atitudinais mas, ainda, subsiste no imaginário coletivo como aquele que carece de cuidado; a motivação do movimento assumido pela juventude, porém, revela o despertar de consciência sobre a ameaça à vida e permanência da espécie humana, perturbando-lhes os sonhos.

De sorte que, é preciso perguntar àqueles que não acreditam nos perigos engendrados pelo desenvolvimento irresponsável e desrespeitoso para com o meio ambiente o que eles pretendem fazer com os/as jovens: jogá-los/las nas fogueiras acesas ao longo desse processo de desenvolvimento? Ou convencê-los/las a não sonhar?

Para quem presenciou a manifestação desse dia 15 de fevereiro ficou claro, em alto e bom tom, que jovens esperam uma ação agora e ninguém pode dizer que esse não seja o tempo deles e delas.

As foto(s) que ilustram a coluna foram gentilmente cedidas por Maria Betânia Silva.
Finalizo oferecendo uma homenagem que vem também do Reino Unido. Paul Maccartney para Chico Mendes, de quem muito se falou na semana que passou:




Carla Batista

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

 

Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climática
Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia
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Protesto de estudantes britânicos chamando atenção sobre a mudança climáticaFoto: Maria Betânia Silva/Cortesia

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