Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Jornada de Debates Feminista
Jornada de Debates FeministaFoto: Divulgação

MONTEVIDÉU, URUGUAI - 1.200 pessoas se inscreveram para participar das Jornadas de Debate Feministas, que estão em sua sexta edição em Montevidéu. Foram três dias de intercâmbio, reflexão, arte e crítica, instigados pelas conferências centrais de Rita Segato, Marcela Pini e Nancy Cardoso.

Direitos sexuais e reprodutivos, ecofeminismo, tráfico de pessoas, participação política, educação, urbanismo feminista, mulheres na universidade, transfeminismo, discursos conservadores e antifeministas, cultura, migração, economia feminista, mulheres indígenas, terrorismo de Estado, história feminista, movimentos sociais e a violência sexual foram alguns dos muitos tópicos discutidos nesta edição. Houve também exposições de fotografias, um show sobre a memória feminista e duas performances artísticas. O programa completo está disponível aqui.

Rita Segato: “ A violência de gênero é a incubadora de todas as outras formas de violências” 

A antropóloga argentina e referencia feminista, Rita Segato, fez a primeira conferência das Jornadas, em uma sala lotada. Ela refletiu sobre a violência de gênero, a cultura do estupro e sua funcionalidade para o capitalismo, e questionou a relação das feministas com o Estado e as leis. Nesse contexto, ela foi declarada ilustre visitante de Montevidéu.

Segato enfatizou a compreensão do patriarcado não como uma "cultura", mas como uma "ordem política". Ela começou falando sobre sua primeira investigação relacionada à violência de gênero, em 1993, numa prisão em

Brasília, onde descobriu que por trás das agressões contra as mulheres existe uma “irmandade masculina”. “O estuprador é uma figura respaldada, que recebe um mandato de outros homens para se mostrar homem diante de seus pares, que estão ausentes, mas que estão presentes em sua paisagem mental. Há uma demanda desses outros homens para que o estuprador mostre que ele merece ser reconhecido como um membro daquela irmandade masculina”.

Como desenvolve em múltiplos trabalhos, Segato explicou que a estrutura da violência de gênero não é apenas conformada pela relação entre o agressor e a vítima, mas também pela relação entre os homens. “Os homens são vistos como pertencentes a um grupo de prestígio, o que requer um reconhecimento. Essa qualificação depende da expropriação da posição feminina, que deve circular da posição feminina para a posição masculina, constituindo-a como uma posição poderosa capaz de controlar um território, que neste caso é o território-corpo da vítima. Aparece assim a ideia da afinidade entre o corpo da mulher e o território”, expressou.

A antropóloga descreveu essa irmandade entre os homens como um "corporativismo masculino", aprendido cedo na vida através da socialização com outros homens e dentro do mandato da masculinidade. Enfatizou essa definição, porque tem duas características corporativas essenciais: lealdade masculina como valor supremo e hierarquia marcada entre masculinidades. Segundo Segato, esses dois aspectos fazem com "que a violência seja inevitável para o mandato da masculinidade, a menos que os homens se conscientizem e enfrentem um espelho não narcisista".

"É necessário fundar a FLMM: Frente de Libertação do Mandado da Masculinidade", disse ela, entre risos e aplausos do público. Este mandato, essa missão "sacrifica os homens, destrói-os, mata-os antes das mulheres e, em algumas regiões do nosso continente, mata os filhos", acrescentou. A esse respeito, Rita explicou que a violência de gênero é a "incubadora" de todas as outras formas de violência, “a primeira pedagogia, a primeira escola". Quando falou sobre o desmantelamento do mandato de masculinidade, ela esclareceu,

“não é só para a violência contra as mulheres parar, mas para parar a guerra em geral. O mundo será transformado e a história será reorientada se os homens se tornarem capazes de desmantelar esse mandato e rever o que os faz agir na busca de poder, o que faz com que eles tenham que "espetacularizar" sua capacidade de domínio o tempo todo(...). Ao inabilitar o patriarcado, todas as estruturas de dominação, todas as hierarquias da sociedade são desequilibradas".

A acadêmica disse que a ordem patriarcal é hoje, mais do que nunca, funcional para o capital. "Mais do que em um mundo de desigualdade, estamos em um mundo de 'proprietário'. Existem senhores da vida e da morte, com grande concentração de riqueza".

Ela também perguntou por que a história do Estado é, de fato, a história dos homens e respondeu dizendo que, no trânsito da modernidade colonial, tudo que é político foi "sequestrado" pela história dos homens. Assim, a "politicidade” das mulheres permaneceu na ordem doméstica, e hoje "o público vê os crimes contra nós como crimes menores, porque nossa existência foi completamente despolitizada".

Nesta sociedade, "as mulheres não são cidadãs plenas, nem sequer somos pessoas", disse Segato. “E é assim que o juiz nos vê quando julga casos de feminicídio ou outros crimes contra nós. Até os grandes juristas veem os crimes contra as mulheres como crimes de libido, de desejo", criticou e refutou: "Crimes contra nós não são crimes de libido, são crimes políticos, da ordem patriarcal".

Contudo, a antropóloga defendeu o antipunitivismo e insistiu que a prisão "não deteria o avanço da violência contra as mulheres". Para ela, a justiça desempenha um papel pedagógico, punindo estupradores e feminicidas para dizer ao mundo o que não pode ser aceito. Mas o que é necessário é uma transformação social: “não acredito na política do inimigo, porque acho que tem uma estrutura fascista. A característica do fascismo é a construção de um inimigo para produzir a

comunidade. O feminismo não pode ser aliado à construção de um inimigo que seria o homem. Nosso principal inimigo é a ordem patriarcal”.

Marcela Pini: “Sem feminismo não há mudança social” 



Em uma sala cheia de lenços amarelos, um símbolo da campanha pela Lei Integral das Pessoas Trans, aprovada ano passado no Uruguai, a psicóloga e ativista trans Marcela Pini foi a segunda conferencista. Ela falou sobre o contexto atual, o transfeminismo, a psicanálise e a subcultura e história do coletivo trans.

"Como se constrói a memória a partir da exclusão, apesar da dor, do sofrimento, dos obstáculos sistemáticos dos piores tempos?", disparou Pini. “Como me sinto estando aqui hoje? Acho difícil encontrar lugares comuns, se apelo para a ordem do simbólico e do imaginário. Eu não tenho nenhuma representação às quais recorrer para me sentir incluída neste espaço, porque esses espaços, até feministas, também são novos para as identidades trans ”, disse ela.

Pini disse que uma mudança cultural está ocorrendo e, nesse processo, é essencial que as identidades trans construam cultura. Ela relembrou a violência sofrida, junto com suas companheiras, quando era trabalhadora sexual, especialmente o abuso policial: "as noites jogadas no chão do quartel-general, sexo com milícias em troca de não nos levar em cana". Entrar nessas histórias, disse ela, é necessário para construir uma memória, "para saber quem somos, de onde viemos e quais foram nossas lutas pessoais e coletivas". Também para que as próximas gerações possam ter suas próprias identificações.

“O sofrimento da exclusão nos une. A marginalidade a que a sociedade heteronormativa, neoliberal e machista nos conduziu”, disse. Nesse sentido, a psicóloga disse que "a cultura trans é subcultura, porque é subversiva". "Bem, se mostramos a você com nossa própria vida que, se você não nos inclui, quem perde é você", acrescentou, porque "uma cultura que não possibilita a diversidade não só deixa a diversidade de lado, mas deixa à margem sua própria diversidade".

"Precisamos de uma mudança cultural profunda, que nos afaste do paradigma do sujeito único, que define diretrizes para definir o que é um sujeito normal", afirmou. O "sujeito normal" dessa sociedade "é o macho", disse ela; "O resto - todas, todos e todes - ficamos de fora".

“As pessoas trans não eram um assunto político”, disse Pini, e destacou o papel da campanha pela Lei Trans na instalação da voz trans em primeira pessoa. "Você vem ouvir algo que temos a dizer", disse ela ao público. “Antes isso não existia. Hoje temos símbolos como o lenço amarelo, que representa nossa voz, nossa luta e nossas demandas”, acrescentou. Sobre a relação entre as mulheres trans e o feminismo, afirmou: “Hoje temos pontos de contato, nos sentamos para pensar em nossos corpos e reconhecemos naquele outro a violência que nos atravessa, e é também isso que o transfeminismo fez nas identidades femininas e na luta feminista”. Ela esclareceu que este “juntas” inclui mulheres e corpos feminizados, porque para ela “feminismo e transfeminismo são escritos com 'a'”.

“Sem feminismo não há transformação social. A mudança é feminista ou não, e no caso da diversidade sexual a mudança é transfeminista ou não”, disse.

Nancy Cardoso: “O rosto mais fascista do patriarcado é aquele que sai das igrejas”



A última conferência ficou a cargo da pastora, teóloga, filósofa e ecofeminista brasileira Nancy Cardoso, que conquistou o público com anedotas, reflexões e canções. Ela aprofundou sobre o papel das religiões na sociedade de hoje, o avanço dos fundamentalismos e sua relação com o capitalismo.

"A América Latina feminista que queremos não será possível sem as mulheres pobres que hoje encontram refúgio na religião", disse, perguntando: "Por que a religião atinge à maioria das mulheres pobres? O que querem? O que elas estão procurando quando vão à igreja?

Os fundamentalismos religiosos são "bem-sucedidos" por meio do "pânico moral", que funciona lado a lado com o "pânico econômico e político", disse Cardoso. “As pessoas sentem medo, estão inseguras, não têm o suficiente para comer, não sabem como vão pagar o aluguel, e na rua há violência, marginalidade e drogas”, explicou, e “pastores [pentecostais] atuam nesses grupos. Eles não vão falar sobre desemprego, nem sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres, nem sobre o escândalo do que é pago às trabalhadoras domésticas e mulheres que trabalham em serviços e que são exploradas diariamente. O que eles vão levar é pânico moral”. Segundo a teóloga, esse mecanismo foi o que funcionou nas eleições brasileiras, e alertou sobre o uso dessas estratégias no Uruguai por aqueles que promovem a campanha “Viva sem medo”, que busca militarizar a polícia e instalar prisão perpétua, entre outras reformas. “Atenção! é assim que começa; eles pegam pessoas que já estão frágeis e geram pânico, e depois se oferecem como aqueles que podem garantir segurança a elas ”, alertou.

Ela também mencionou o que chamou de "familismo", outra forma pela qual os fundamentalismos encontraram sucesso. Refere-se à proteção do modelo tradicional, patriarcal e heteronormativo de família. Durante a campanha eleitoral no Brasil "eles disseram que as feministas, as pessoas LGBTI+ e o governo de centro-esquerda estavam aqui para destruir a família". Mas "quando os fundamentalistas religiosos dizem que querem proteger a família, o que eles realmente querem proteger é o seu lugar de poder".

Ela fez então uma análise do "extrativismo erótico" que essas igrejas realizam. Ela nomeou-as como "igrejas do êxtase, carismáticas, que promovem um ritual que alimenta as pessoas para se libertarem" através do canto e da dança, por exemplo. "É um processo coletivo de êxtase que libera nas pessoas sua força mais vital, abala seus corpos e libera-as para depois disciplinarem com a família, com o moralismo e com a obediência", explicou.

Cardoso enfatizou que o avanço conservador na região não pode ser entendido apenas em termos de religião. O processo econômico, capitalista e fundamentalista não pode ser ignorado. "O fundamentalismo é a interrupção ou a negação do direito de decidir, de cultura, da necessidade de decidir", disse. Da mesma forma funciona o capitalismo, que "nos faz acreditar que temos liberdade de escolha", mas "ser livre torna-se apenas ser livre para consumir".

"Estamos vivendo um processo de capitalismo avançado que controla a produção, a reprodução, a distribuição e o consumo", afirmou, e a religião tem seu papel no processo "ao ser apropriada pelo capitalismo como um mecanismo para a resolução de conflitos, das promessas que o mercado não pode cumprir (...) se apropria da linguagem religiosa para se legitimar, porque não tem espaço para as pessoas pobres".

*Silvina Font é jornalista uruguaia, integrante do coletivo Cotidiano Mujer. Tradução para o português feita por Carla G. Batista

**A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo da coluna.

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