Voluntários retiram manchas de petróleo em barreira de corais na praia dos Carneiros
Voluntários retiram manchas de petróleo em barreira de corais na praia dos CarneirosFoto: Arthur Souza/Folha de Pernambuco

Depois de quase 50 dias de vazamento de petróleo cru no litoral nordestino, não se sabe ainda, com precisão, a extensão total dos danos causados ao meio ambiente. Enquanto o foco das ações emergenciais é a limpeza superficial das praias e a contenção da entrada de óleo nos estuários dos rios, onde ficam os mangues, especialistas alertam que a recuperação dos manguezais pode levar décadas, dependendo do grau de contaminação. No caso dos recifes de coral, mesmo se for retirado todo o óleo, a regeneração deve durar centenas de milhares de anos.

Na última semana, período mais crítico do vazamento em Pernambuco desde o fim de agosto, 489 toneladas de óleo foram recolhidas em 24 pontos, incluindo praias e estuários, do Litoral Sul do Estado. Quase toda essa quantidade foi retirada das partes mais visíveis da faixa de areia e da área mais rasa do mar. Ao todo, foram registrados 74 animais afetados, entre eles tartarugas e peixes. Desses, 55 mortos. Em Pernambuco, duas tartarugas foram atingidas pelo óleo, segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

De acordo com a professora de Gestão e Impacto Ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Soraya El-Deir, apesar da limpeza que tem sido feita, o grau de contaminação vai muito além do que já foi retirado. Levando em conta que o óleo tenha vazado a uma distância de 600 a 700 quilômetros da costa, em águas internacionais, segundo estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é provável que o óleo tenha chegado às praias pelas correntes frias mais ao fundo do oceano, o que torna o poluente mais difícil de ser detectado em alto-mar.

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“Quando chega perto da costa, onde as correntes são quentes, esse petróleo vai para a superfície. Uma parte vai chegar aqui à costa. Além disso, partículas dessa massa de óleo vão se dispersando nas águas. Trata-se de um material altamente inflamável, volátil, com potencial cancerígeno”, afirma a pesquisadora. “O que foi limpado é o mais visível e palpável. O solo, a água, os animais estão contaminados. Temos que contar com o grau de resiliência dos ecossistemas”.

Essa capacidade de se recuperar varia em cada ecossistema e dificilmente será total, dependendo do quanto de petróleo for possível retirar. Segundo El-Deir, o ecossistema mais vulnerável e que levará mais tempo para se regenerar são as barreiras de corais. “Os recifes têm inúmeras espécies extremamente sensíveis e um crescimento muito lento. Se houver impacto, eles morrem e vão se recompondo. Essa constituição leva centenas de milhares de anos”, revela.

Já os manguezais, mais resistentes a alterações biológicas, podem ser restaurados em um período entre 20 e 30 anos. “Se o petróleo impregnar nas raízes e caules das plantas, o protocolo mais radical diz que a gente deve retirar essa vegetação completamente comprometida para poder aumentar a capacidade regenerativa [do ecossistema]”, explica a especialista.

Para retirar o poluente e, assim, acelerar essa recomposição, é necessário que as ações de limpeza e proteção sejam coordenadas a partir de estudos científicos nas áreas afetadas. “Acredita-se que esse material tenha sedimentado para o fundo e ele vai permanecer nesses locais liberando substâncias tóxicas. É preciso alinhar as ações dos gestores públicos com as pesquisas nas universidades para tentar minimizar e ver os caminhos que temos para recompor esses ambientes”, comenta o botânico Luiz Costa, coordenador do curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

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