O caminhar das mulheres pela cidade é diferente dos homens
O caminhar das mulheres pela cidade é diferente dos homensFoto: Rafael Furtado

No segundo dia da série "Cidade para todos", a Folha de Pernambuco traz reportagem mostrando a iniciativa pioneira quando se fala sobre Plano Diretor de uma metrópole: o recorte de gênero. O olhar feminino para a cidade, dentro de demandas específicas, traz benefícios não só para as mulheres, mas para toda a sociedade. A Secretaria Municipal da Mulher tem feito discussões voltadas para esse nicho que levantam problemáticas como iluminação pública, saneamento básico, equipamentos de serviço e lazer, além da segurança. 

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Em uma cidade majoritariamente feminina, nada mais justo do que realizar um recorte de gênero dentro das diretrizes que norteiam a política urbana do Plano Diretor do Recife. A capital pernambucana possui 1.633.697 pessoas, segundo o IBGE, sendo 54% desse quantitativo do sexo feminino. Baseado nesse percentual e na necessidade cada vez mais urgente de trabalhar pela igualdade de gênero, a Secretaria Municipal da Mulher colheu diversas propostas para serem debatidas dentro da revisão do Plano Diretor do Recife. Entre os pleitos ouvidos pela pasta por meio de escutas populares e debates com movimentos sociais e feministas está o mapeamento das áreas subutilizadas para ocupá-las com praças, postos de saúde e creches - esta última é um dos itens mais pleiteados.

"Não conheço uma mulher que se sinta segura ao passar por uma rua onde casas e espaços estejam desocupados. Essa é uma questão de segurança e prevenção à violência contra a mulher, seja física ou sexual. Nós vimos na revisão do Plano Diretor do Recife uma grande oportunidade para incluirmos a perspectiva de gênero e igualdade. Apesar de termos uma cidade com mais mulheres, quando você vai para a discussão das políticas públicas e de desenvolvimento urbano elas nunca participam ou, no máximo, são ouvidas pontualmente", declara a secretária da Mulher, Cida Pedrosa.

A importância de inserir o olhar sob a perspectiva feminina é exemplificada por Cida por meio do Plano de Mobilidade do Recife, que está em fase de finalização. “No plano, há uma pesquisa que mostra que a locomoção feminina não é pendular, ou seja, as mulheres não se locomovem simplesmente de casa para o trabalho e do trabalho para casa”, explicou. Isso quer dizer que o roteiro percorrido pelas mulheres em seu cotidiano é diferente do dos homens. Elas fazem até quatro viagens, seja de casa para o trabalho, ou para escola dos filhos, para supermercados ou hospitais e, em sua maioria, por meio da utilização do transporte público. Muitos movimentos sociais e feministas, inclusive, defendem que pensar na melhoria desse transporte não é incentivar a segregação de gênero, como no caso da tentativa de implementar os vagões rosa nos metrôs, mas fazer com que o sistema seja útil também para as mulheres.

A iluminação pública é outro ponto a ser repensado quando se trata de urbanização, e que pode ser discutido na revisão do Plano Diretor do Recife. Se pararmos para observar, na condição de pedestres, o direcionamento da luz está sempre para a via - leia-se automóveis - e não para a calçada. Uma das sugestões elencadas pela secretaria é justamente a melhora dessa iluminação pública na altura do pedestre e nas paradas de ônibus, principalmente, já que muitas mulheres afirmam desviar o trajeto por conta dos riscos que as ruas escuras representam.

Uma das ferramentas que podem ajudar a implantar essa readequação do espaço urbano seria a Operação Urbana Consorciada (OUC), que é quando o Poder Público, em consórcio com a iniciativa privada, faz intervenções pontuais em uma determinada área. No Recife, chegou a ser aprovada a Lei Nº 17.645/2010 para Ilha de Joana Bezerra, mas ela nunca foi efetivada. Cabe a esse instrumento urbanístico fazer uma nova distribuição de uso nas localidades permitidas. No entanto, seria necessário considerar as demandas de cada comunidade antes de decidir sobre o que empreender nesses espaços.

“Quando essa temática normalmente vai ser discutida, a conta que se faz é: edificação, saneamento das vias e, no máximo, iluminação e uma área verde para o local. O que queremos é incluir nisso tudo a perspectiva das mulheres”, disse Cida Pedrosa. O que ela enfatiza é que, por se tratar de OUC, essa intervenção poderia levar em consideração, por exemplo, a ampliação de creches e escolas e combater o uso indevido de alguns espaços públicos. "Uma parcela feminina tem dificuldades de ser inserida no mercado de trabalho porque não tem onde deixar seus filhos. Há um déficit de creches muito grande no Recife e esse cenário se destaca muito entre mulheres negras e de baixa renda", afirma Mônica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras.

Hoje, a Secretaria de Educação do Recife atende 17.881 crianças entre zero e cinco anos na rede de ensino e, deste total, 5.898 são crianças de zero a três anos, atendidas em horário integral. Entretanto, há uma fila de espera de cerca de 1.500 crianças que precisam ser atendidas, a maioria na faixa de zero a três anos e, mesmo com a construção de mais quatro creches na rede própria, esse déficit ainda não seria sanado. Para Ana Rúbia Ferraz, mestranda em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é fundamental ter o olhar das mulheres sobre o futuro da cidade. “É a primeira vez que esse recorte é feito dentro de um Plano Diretor. Nosso deslocamento é diferente do homem, a questão da segurança também é diferente. Uma cidade melhor para as mulheres é uma cidade melhor para todos. ”, destaca.

O caminhar das mulheres pela cidade é diferente dos homens
O caminhar das mulheres pela cidade é diferente dos homensFoto: Rafael Furtado
A insegurança nas vias públicas é um dos pontos que podem ser tratados dentro do Plano Diretor do Recife
A insegurança nas vias públicas é um dos pontos que podem ser tratados dentro do Plano Diretor do RecifeFoto: Rafael Furtado
Cida Pedrosa, secretária da Mulher, reforça a necessidade de discutir as políticas urbanas sobre as especificidades da mulher
Cida Pedrosa, secretária da Mulher, reforça a necessidade de discutir as políticas urbanas sobre as especificidades da mulherFoto: Paullo Allmeida

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