A ONG Habitat para a Humanidade fez um levantamento mostrando que o bairro de Santo Antônio lidera o ranking de imóveis desocupados
A ONG Habitat para a Humanidade fez um levantamento mostrando que o bairro de Santo Antônio lidera o ranking de imóveis desocupadosFoto: Rafael Furtado

A cidade como organismo vivo. Uma percepção complexa que não se refere apenas ao que é construído nos espaços públicos, mas inclui a realidade social e econômica do cotidiano de sua população. No terceiro dia da série “Cidade para todos”, a Folha de Pernambuco mostra como o sistema viário do município está conectado com o uso e ocupação do solo, por exemplo.

De acordo com o Plano Diretor do Recife (PDR), de 2008, considera-se mobilidade urbana “a função pública destinada a garantir a circulação das pessoas e bens no espaço urbano, utilizando para isto veículos, vias e toda a infraestrutura de maneira efetiva, socialmente inclusiva e ecologicamente sustentável”.

Entretanto a realidade tem sido bem diferente. Há uma supervalorização do transporte individual e o sistema coletivo de transporte de passageiros ainda é visto só como o meio de locomoção das pessoas mais pobres. As calçadas também integram a problemática, mas não é suficiente investir na requalificação sem pensar nos espaços em que elas ocupam. “Não adianta calçadas bem feitas, se existem muros altos e condomínios fechados, onde as pessoas se sentem inibidas de caminhar por causa da insegurança”, destaca o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-PE), Roberto Ghione.

O cenário atual difere muito do conceito de uma cidade integrada, cuja as opções de transportes são melhores e, a partir disso, existe um estímulo às centralidades e à geração de emprego mais perto da moradia. “Há de se convir que o sistema viário do Recife é limitado por ser uma cidade antiga e estreita. E já está comprovado que construir viadutos não resolve o problema”, afirma o engenheiro civil Maurício Pina, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área de transportes. A linha defendida pelo especialista prevê a mobilidade sendo usada para transformar a Capital em uma cidade mais humana.

“Para isso, é necessário ter formas de transporte ativo, com circulação de pedestres garantida e a prioridade no transporte coletivo”, destaca. A Prefeitura do Recife está desenvolvendo desde 2015 o Plano de Mobilidade Urbana da Capital, que ainda se encontra em fase de conclusão. O documento servirá de instrumento para os investimentos públicos em infraestrutura de transportes pelos próximos anos. “Uma das razões para que o ônibus demore a chegar é porque ele está preso no trânsito com os carros. Se colocar mais dez ônibus para circular a situação piora. Estamos cansados de provar com dados que é preciso criar uma rede integrada de faixas exclusivas para permitir que os ônibus circulem sem obstrução”, enfatiza diretor executivo do ICPS, Sideney Schreiner.

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Outro ponto muito debatido dentro do que precisa ser revisto no PDR é a ocupação do centro da Cidade. Pesquisas mostram que 50% dos trabalhadores que ganham menos de dois salários mínimos estão no centro da capital, mas moram longe do local de trabalho e até em outros municípios da Região Metropolitana. Isso quer dizer que em uma cidade com muita ampliação periférica e sem estrutura adequada para essas áreas às pessoas continuarão morando longe do local de trabalho e dos serviços públicos. Nesse caso, a Cidade precisaria ser mais compacta e densa para que as pessoas consigam suprir suas necessidades sem percorrer grandes distâncias.

A ONG Habitat para a Humanidade fez um levantamento mostrando que o bairro de Santo Antônio lidera o ranking de imóveis desocupados. O grupo triou 112 prédios, destes 42 estão desocupados ou com menos da metade da área ocupada. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE) tem promovido debates sobre temas importantes para a revisão do Plano Diretor.

“Existem vários prédios e carcaças urbanas no Recife e precisamos encontrar uma forma de utilizá-los e isso não como um problema, mas como oportunidade para reorganização desse centro urbano”, avalia o presidente do CAU-PE, Rafael Tenório. Os debates promovidos pelo CAU-PE acontecerão nos dias 13, 20 e 27 de agosto.


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