Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de Humanização
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de HumanizaçãoFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Há 15 anos o Brasil instituía a Política Nacional de Humanização (PNH). Criada como eixo norteador das práticas de atenção aos pacientes e gestão em todas as instâncias do SUS, ela ainda é assunto árido, misturando evoluções e estagnações. Pensada para ser gatilho para discussões fundamentais na construção das políticas em saúde, a PNH ainda não alcançou uma linearidade em todo território nacional, seja em instituições federais, estaduais ou municipais.

Humanizar é, então, ofertar atendimento de qualidade articulando os avanços tecnológicos com acolhimento, melhoria dos ambientes de cuidado e das condições de trabalho dos profissionais”, dizia o texto básico da normativa há mais de uma década. Com relatos frequentes e atuais de “desumanização” dos espaços decorrente de superlotação de unidades, falta de insumos, número insuficiente de profissionais, além das ameaças de cortes de verbas, a humanização se vê em cheque em muitos serviços públicos. Programas de práticas integrativas e terapias alternativas, como a arteterapia, musicoterapia e a palhaçoterapia, têm sido a aposta para adubar este terreno de consolidação da PNH.

“A política ainda é um desafio diário”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e professora da Universidade de Pernambuco (UPE), Paulette Cavalcanti. A especialista, que trabalha temas da saúde coletiva e educação popular em saúde, destacou que a PNH promoveu avanços importantes principalmente nos hospitais. São exemplos dessa revolução, a organização de salas de espera para os pacientes, a implantação da classificação de risco e a inclusão de temáticas de humanização nas diretrizes curriculares dos cursos de saúde. Isso tirou de cena o ultrapassado pensamento de que a saúde era uma caridade, enfatizando-a como direito de qualquer cidadão.

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Por outro lado, Paulette Cavalcanti ressalta algumas lacunas que ainda persistem, criando gargalos na PNH. “Há necessidade de ampliação da própria rede. Hoje 70% da população da população de Pernambuco e 55% da do Brasil têm acesso à atenção primária, mas deveria ser 100%. Dentro dos hospitais também temos um número pequeno de profissionais. Tudo isso gera sobrecarga de trabalho que impacta na qualidade do atendimento”, exemplificou, comentando ainda que o protagonismo do usuário nos serviços de saúde ainda está aquém.

Paulette explica que não é a política sozinha que vai garantir as condições de qualidade do SUS, mas as relações humanas, profissionais e institucionais construídas em sua base e que abarcam também a incorporação de novas tecnologias em saúde. E não estamos falando de pirotecnia médica, mas de fórmulas simples e eficazes para ver e cuidar dos pacientes.

Sem contraindicação

“Não é a toa que o deus da medicina é o mesmo deus das artes”, atesta a médica e coordenadora do Programa MAIS do Hospital das Clínicas (HC) da UFPE, Leniée Campos Maia, numa referência a Apolo. A profissional, que está à frente do programa de humanização do HC desde 2007, reforça que as experiências da estética, do belo, do lúdico na saúde são tão fortes que a faz perceber que “a arte e a saúde são siamesas”.

“Quando iniciamos o programa, a intenção era romper aquela visão tradicional do ambiente hospitalar que termina resultando em um espaço extremamente estressante. De um lado, angústia, ansiedade e medo por parte de quem procura o atendimento. Do outro, a sobrecarga de trabalho, a responsabilidade dos profissionais de lidar com vidas. A política do Humaniza SUS foi muito importante para rever e pensar as políticas adotadas nesses espaços”, comentou.

No entendimento dela, a arte é a catalisadora desse processo de mudança que minimiza os efeitos do estresse sobre os pacientes e é capaz de produzir efeitos curativos. “É como se a arte estimulasse áreas do cérebro responsáveis pelo prazer. Isso, em nível de neurotransmissores, permite a liberação de endorfinas que têm uma função antagônica aos hormônios do estresse”, explicou. Hoje o hospital agrega cerca de 15 projetos dentro do Programa MAIS. Entre eles está a palhaçoterapia, ou arte clown. “A repercussão da palhaçoterapia na saúde de é fantástico. Seja para o paciente, o acompanhante e também o profissional de saúde. A figura do palhaço e a linguagem do palhaço dentro do hospital são revolucionárias. Causa uma transgressão naquilo que a gente conhece como hospital”, reforçou o coordenador do projeto, o professor Bruno Gomes.

Uma pesquisa recente sobre o impacto da arte de clown com pacientes renais crônicos no HC verificou influência no sistema nervoso parassimpático, que relaxa o corpo e diminui a frequência cardíaca. Ganhos para o público infantil incluem a redução do período de internamento e aumenta a taxa de cura. “Eu acho ótimo. Temos muitas crianças aqui precisando de alegria e brincadeira e eles trazem isso para dentro das enfermarias”, avaliou a dona de casa, Abnadávia de Oliveira, 35, sobre os palhaços “doutores”.

Música, corpo e mente

Além do SUS, serviços privados de saúde também têm investido na humanização alinhada à normativa federal da PNH. O programa Real Encanto, do Real Hospital Português (RHP) é um deles. A musicoterapia virou rotina na enfermaria de pacientes renais há quase três meses e deve ser expandida para outras áreas como UTIs e oncologia. “Percebemos que a música não era mais um fazer artístico apenas. Ela, de fato, tem uma influência na saúde e no bem estar do paciente e da equipe”, comentou o musicoterapeuta Tarik Bispo.

Munido de violão e outros instrumentos de percussão, o profissional é sempre muito esperado nos leitos. “Este é sempre um momento de inspiração. A música tira o medo, o nervosismo. Reanima a vida e traz boas lembranças”, comemorou a paciente Maria da Penha da Silva, 56. “Sempre nos traz bem estar e um conforto nessa apreensão que vivemos com os nossos tratamentos”, corroborou Nércia da Costa Lina, 45.

Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de Humanização
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de HumanizaçãoFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de Humanização
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de HumanizaçãoFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de Humanização
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de HumanizaçãoFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de Humanização
Arteterapia, musicoterapia e palhaçoterapia ajudam a consolidar a Política Nacional de HumanizaçãoFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco
Leniée Camp, coordenadora do Programa MAIS
Leniée Camp, coordenadora do Programa MAISFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

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