Angelina Maia, médica
Angelina Maia, médicaFoto: Cortesia

Angelina Maia é a convidada desta quarta-feira (14) da coluna Sucesso, uma parceria do Portal FolhaPE com o Sucesso.site, de Felipe, Eduarda e Camila Haeckel. Angelina é especialista em Sexualidade Humana e em Psicologia na área cognitivo-comportamental.

Seria bom que todos vivessem o “Prazer Sexual” de uma forma ampla, como os dicionários descrevem a palavra prazer: sensação ou sentimento agradável, harmonioso, alegria, contentamento, satisfação, deleite ou ainda gozo. O termo prazer sexual não é sinônimo de orgasmo... O orgasmo é uma forma de prazer dentre as tantas possíveis experiências prazerosas que o sexo propicia. Existem tantos outros prazeres, como o de tocar, o de olhar, o de cheirar... O importante é que o encontro sexual seja “satisfatório”.

Até 1960 não se falava em orgasmo feminino e nem por isso as mulheres deixavam de vivenciá-lo. Infelizmente ainda existe uma cobrança de sentir orgasmo. O direito ao orgasmo é diferente da obrigação em tê-lo. Assim, podemos entender o prazer sexual como o somatório dos fatores fisiológicos e emocionais que envolvem um relacionamento.

Também é preciso ampliar o entendimento da expressão "relação sexual". A maioria das pessoas quando pensa em relação sexual foca apenas na penetração, também chamada de coito. E assim, muitos dos encontros sexuais se restringem a penetração, muitas vezes parecendo uma “ginástica sexual” com monotonia, habituação e distanciamento dos parceiros.

A relação sexual é mais gostosa quando é uma atividade sensorial, um percebendo o outro através dos cinco sentidos: audição, tato, visão, olfato e paladar. Nada melhor do que ouvir com atenção, sentir com prazer, ver com admiração, cheirar com carinho e saborear com gosto a pessoa que lhe é significativa nesse encontro.

Segundo Helen Kaplan, psicanalista americana que definiu a base da ciência sexualidade humana, o prazer sexual é uma construção, não chega do nada. Para ela, esse tão almejado prazer sexual é o encontro de dois efes: F & f . Onde o “F” representa a "Fantasia Sexual" e o “f” a "fricção" (o toque). A fantasia sexual (“F”) são pensamentos eróticos que libertam e seduzem o nosso maior órgão sexual que é o cérebro. O ato sexual não é só o encontro de peles; ele é, sobretudo, um encontro de fantasias.

Gosto de explicar o termo fantasia sexual como “pensar em safadeza”. Na minha experiência profissional, a paciente pode até estar séria ou triste, mas quando eu falo a palavra “safadeza”, ela sorri... Então, vamos buscar na lembrança aquela safadeza que foi feita escondida, dentro de um carro, atrás de uma porta ou mesmo falado ou escrito em um celular. Puxar pensamentos tipos: hoje eu vou ter sexo!, vou dar beijo de língua..., vou dançar coladinha sentindo tudo, quero que ele alise o meu clitóris... Criar na mente situações excitantes, usando qualquer pessoa na sua fantasia. O pensamento é livre e privado e não precisa ser compartilhado com sua parceria. Compartilhar fantasias eróticas com sua parceria é perigoso e deve ser evitado.

Sussurrar as coisas que se pretende fazer com o par na cama, com todos os detalhes, criará fantasias em sua mente provocando excitação quase tanto quanto a realidade. Lembrar que homens gostam de ser elogiados quanto à sua habilidade sexual. Rir com seu par na cama é erótico. O riso produz um relaxamento corporal, um prazer que alivia e descontrai, daí ser uma porta de entrada no outro... Assim, abre o coração e o corpo... Usando apenas a fantasia sexual é possível obter excitação e até orgasmo.

Apesar da fantasia erótica (“F”) ser a mais importante para obter o prazer sexual, existe um corpo que quando tocado adequadamente, todo ele é erotizável e será uma importante fonte de excitação. Isso é o que Helen Kaplan denominou de “f”, "fricção" (o toque). As mulheres tendem a ficar excitadas quando são tocadas delicadamente, sem pressa. As pessoas têm diferentes zonas erógenas, de uma maneira geral gostam de serem alisadas nas orelhas, na região interna das coxas, beijadas no pescoço, tocadas nas mamas e na vulva. Comumente confundida, a vulva é a parte da genitália feminina visível e a vagina é o canal que liga a parte externa ao colo do útero, lá dentro. Isto é, a vagina é o local onde o pênis penetra.

Na porção superior da vulva encontra-se o clitóris, recoberto por um capuz. Nenhuma outra parte do corpo feminino é tão sensível ao toque como o clitóris. Ele é tão sensível que o toque direto nele (abrindo o capuz) pode ser doloroso para muitas mulheres. Cada mulher sabe como gosta que a parceria mexa no seu clitóris. De uma maneira geral, aprecia movimentos giratórios com os dedos fazendo uma pressão suave, sucção, lambida, passagem dos lábios, beijinhos, podendo ser devagar ou rápido. Tudo isso ganha um maior prazer se a região se encontra umedecida. É importante que a mulher ensine a parceria como ela gosta de ser mexida no clitóris... Mas, para aproveitar todo o prazer que o "f" proporciona é essencial que o "F", pensamento erótico, esteja presente. Mexer no corpo com a cabeça pensando em outras coisas não vai gerar um bom prazer sexual.

Alguns estudiosos referem que foi Freud o responsável por ter postulado que existiam dois tipos de orgasmos na mulher: um clitoridiano e outro vaginal. Freud detalhou que o orgasmo clitoridiano seria aquele da infância e da adolescência, de caráter masculino, semelhante ao do pênis. E o outro orgasmo, o vaginal, seria aquele da mulher adulta e psicologicamente madura, especificamente feminino. Até hoje, muitas mulheres sofrem em busca desse orgasmo vaginal nos padrões descritos por Freud. Estudos posteriores definiram que o orgasmo clitoridiano e orgasmo vaginal não são entidades separadas. Todo orgasmo tem estimulação direta, indireta ou até psíquica no clitóris. O clitóris é tão sabido que quando se fala ou pensa em safadeza, ele já começa a se excitar, inchando (congestão sanguínea) e latejando... Imaginem o tanto que o clitóris faz se for tocado... Então, o processo de excitação iniciado no clitóris será sentido na vagina.

Mulher


No terço inferior da vagina existe um conjunto de vasos que na excitação se enche de sangue (congestão vascular), estreitando um pouco essa vagina. Desses vasos congestos da vagina, saem aquele líquido da fase de excitação da mulher. No auge da excitação, o orgasmo é sentido na vagina através de contrações musculares ritmadas na sua porção inferior e, subjetivamente, vem uma sensação de prazer sexual.

Essa sensação de prazer pode ser expressa de várias maneiras: um alívio, uma paz, uma vontade de ficar quieta, um desligamento do meio externo ou ainda como uma explosão com gritos e movimentos. Cada uma tem seu jeito de expressar o orgasmo. Assim, mexe no clitóris iniciando o processo de excitação e a vagina responde com lubrificação e mais adiante é sentido o orgasmo através das contrações musculares associadas ao prazer.

Segundo Helen Kaplan, é o toque do clitóris, entre todos os tipos de atividade sexual, que a mulher mais se excita e atinge, com mais freqüência, o orgasmo. Do ponto de vista fisiológico, a penetração é um método relativamente ineficiente de produzir orgasmo feminino quando comparado à estimulação direta do clitóris. Lógico que alguns tipos de penetrações podem exercer uma mexida no clitóris. O interior da vagina mostra-se insensível à grande maioria das mulheres. Do ponto de vista psíquico, as mulheres gostam de serem penetradas por ser uma importante interação simbólica. Algumas mulheres que gozam com a penetração simples do pênis na vagina têm uma fantasia sexual tão grande que nem precisam do toque no clitóris.

É importante saber que apenas 30% das mulheres conseguem atingir o orgasmo com a penetração simples. Helen Kaplan chega a referir no seu livro dirigido para o público leigo, Enciclopédia Básica de Educação Sexual, que o sexo pode ser altamente gratificante, mesmo que cada um goze por seu turno. Ela ainda alerta que muitos atos de amor são estragados por um esforço compulsivo para conseguir um orgasmo mútuo ou por tentativas heroicas para fazer a mulher gozar durante a penetração.

Enfim, foi importante apresentar conceitos e estudos, mas o que importa é o que você sente e o que você gosta. É adequar você a si mesma e a outra pessoa que lhe é significativa. Na função da adequação sexual do par não se deve ter compromisso com vulva, nem com vagina, nem com pênis, mas com a felicidade das pessoas.

A imortal Amparo Caridade, grande sexóloga pernambucana, nos ensinou que: Quando ficamos muitos presos ao “fazer” sexo podemos deixar de “viver” o sexo, que é mais gratificante. Ensinou ainda que um olhar terno, um apoio, um toque, um abraço, um beijo, valem mais que certas relações sexuais sem trocas. Ensinou que a maior das satisfações vividas pelo ser humano é a de sentir-se desejado e importante para o outro, como também poder desejá-lo e apreciá-lo. E que somente os gestos especiais se eternizam...

Nascida em Vitória de Santo Antão, Angelina Maia é filha de dois médicos apaixonados pela profissão. Morou até os 10 anos nessa cidade do interior de Pernambuco, onde os pais fundaram um pequeno hospital, local onde Angelina descobriu que a medicina também faria parte do seu futuro. Junto com seus dois irmãos, mudou-se para o Recife para estudar e se formou pela antiga instituição Ciências Médicas de Pernambuco, atual Universidade de Pernambuco (UPE), em 1977. Fez residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital das Clínicas/UFPE nos anos de 1978 e 1979. Especializou-se em Sexualidade Humana e em Psicologia na área cognitivo-comportamental. Como médica ginecologista, começou desde cedo a atuar com prevenção do câncer do colo do útero e, através de concurso, voltou a trabalhar no Hospital das Clínicas/UFPE, onde logo em seguida tornou-se coordenadora do Setor de Colposcopia e Trato Genital Inferior e criou um serviço de referência em Doenças da Vulva. Em paralelo, fundou também a Clínica Angelina Maia e, mais recentemente, a Angelina Maia - Vacinas que além da imunização contra o HPV, oferece todas as outras vacinas para crianças, adolescentes, adultos e idosos; tendo o diferencial de adicionar uma consulta para atualização do calendário vacinal. Tornou-se palestrante em congressos em todo o Brasil e escreveu o "Atlas de Vulvoscopia", o livro "O Papel da Vulva e da Vagina no Prazer Sexual" e vários capítulos sobre colo do útero, vulva, sexualidade e vacinação em livros nacionais. Tem sido considerada uma das maiores referências nesses temas no país. Angelina Maia tem dois filhos, Renato e Luciana, e três netos, Isabela, Manuela e Renato, que muito encantam sua vida.

* A Folha de Pernambuco  não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

 

veja também

comentários

comece o dia bem informado: