Os "novos velhos" enfrentam os desafios de romper as barreiras impostas pela degradação natural do corpo de forma exemplar e vivem tanto quanto a nossa espécie nunca viveu
Os "novos velhos" enfrentam os desafios de romper as barreiras impostas pela degradação natural do corpo de forma exemplar e vivem tanto quanto a nossa espécie nunca viveuFoto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Houve uma época em que completar 30 anos de idade era algo raro para o ser humano. As doenças sem medicamentos eficazes para tratá-las e os perigos de um mundo hostil e ainda pouco desbravado impediam nossos antepassados de chegar a completar sequer três décadas de vida.

O tempo passou, a tecnologia e a medicina avançaram, a alimentação melhorou e os cuidados com o corpo e a saúde ganharam mais importância. O resultado dessa equação vem dando à nossa espécie os “superidosos”, aqueles homens e mulheres com mais de 80 anos - uma barreira de idade nunca tão frequentemente ultrapassada. Especialistas começaram a usar uma nomenclatura inédita para encaixar os novos velhos: a quarta idade. Nós nunca vivemos tanto como agora. E isso traz novos desafios.

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Quarta idade


De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País fechou 2018 com cerca de quatro milhões de pessoas na quarta idade - 1,97% da população de pouco mais de 208 milhões de habitantes. Essa parcela etária de brasileiros deverá saltar para 8,36% em 2060, aproximadamente 19 milhões dos 228 milhões de habitantes previstos. A expectativa de vida do brasileiro ao nascer também vem aumentando com o passar das décadas. De 45,5 anos em 1940 para 76,3 anos em 2018, com um pico de 81 anos em 2060, segundo projeções do IBGE.

Esse envelhecimento populacional implica em uma série de desafios, como aponta a geriatra Carla Núbia Borges. “Ter muitos idosos no Brasil hoje é um grande complexo, que junta equilíbrio da saúde clínica, estímulos social e mental e a proximidade da família. Proporcionalmente, é a população que mais cresce e precisa de um cuidado diferenciado”, explica a médica.

Para a geriatra Carla Núbia, o equilíbrio da saúde clínica, os estímulos social e mental, além de ter a família perto são fatores essenciais para uma longa vida

Para a geriatra Carla Núbia, o equilíbrio da saúde clínica, os estímulos social e mental, além de ter a família perto, são fatores essenciais para uma longa vida - Foto: Julya Caminha/Folha de Pernambuco

O aumento da longevidade do ser humano pode ser explicado por fatores como controle de natalidade, tratamento do câncer, vacinação, mais acesso à saúde e o tratamento das doenças cardiovasculares, segundo a geriatra Carla. “As pessoas começaram a viver mais e as mulheres, a ter menos filhos. As famílias estão cada vez menores e as pessoas estão ficando mais idosas. Houve muito ganho da tecnologia e da medicina no controle das doenças para que as pessoas vivam mais”, aponta. 

Embora os indivíduos estejam vivendo mais, isso não reflete necessariamente que estão mais saudáveis. Por isso, as doenças crônicas e o bem-estar da quarta idade devem ser colocados como desafios de saúde pública global a curto prazo. Para o nutricionista Hillário Damázio, a boa nutrição nessa idade é primordial para a qualidade de vida dessa população. “A alimentação da pessoa idosa precisa ser prescrita por profissional capacitado para isso. É necessário levar em consideração fatores como a cultura alimentar, o ambiente que esse idoso está, a condição econômica e as patologias associadas”, observa o especialista, acrescentando que as dietas do idosos precisam ser definidas de acordo com as carências nutricionais de cada pessoa.

Confira abaixo a entrevista com a dra. Patrícia Guaurino, médica que fala sobre longevidade saudável:


Um dos caminhos para cuidar da saúde dos idosos, também os da quarta idade, é manter uma rotina saudável e se exercitar. A profissional de educação física e coordenadora da academia Oka Gym, Amanda Rodrigues, cita a musculação como uma excelente opção para os novos velhos buscarem o bem-estar e a qualidade de vida. “Temos o cuidado de contratar professores com perfil e capacitação para lidar com esse grupo de idosos acima de 60 anos, que inclui também a quarta idade. É importante fazer uma prescrição mais individualizada, respeitando as limitações e condições de cada um”, descreve Amanda.

“O mais importante de tudo é que com o exercício físico conseguimos reduzir o processo de degradação natural

“O mais importante de tudo é que com o exercício físico conseguimos reduzir o processo de degradação natural", assegura a profissional de educação física, Amanda Rodrigues - Foto: Kleyvson Santos/Folha de Pernambuco

Os idosos, que representam cerca de 7% dos clientes da academia, localizada na Zona Norte do Recife, costumam chegar ao local com falta de força muscular e equilíbrio prejudicado, provenientes da perda de massa muscular. Muitos também chegam com osteopenia ou osteoporose, provocada pela diminuição da massa óssea, o que aumenta a fragilidade e as chances de fraturas. “O mais importante de tudo é que, com o exercício físico, conseguimos reduzir esse processo de degradação natural. O idoso deve saber que, mesmo sem ter antecedente de atividade física, pode se beneficiar dos efeitos do exercício a qualquer momento”, explica.

A prática dos exercícios, porém, deve ser realizada com orientação de um profissional habilitado. Amanda ainda ressalta a frequência que os idosos podem ir à academia. “Recomendo a musculação entre duas ou três vezes por semana, a depender das condições físicas e necessidades individuais de cada um, sabendo que o tempo de recuperação muscular do idoso é mais lento”, pondera. O cuidado deve ser geral, como reforça a geriatra Carla Núbia Borges. “Todo profissional precisa estar atento e ser bem criterioso na quantidade de medicamentos, por exemplo, e no controle rigoroso das doenças crônicas. São indivíduos que precisam de mais pessoas para cuidar deles, gerando mais dependência”, orienta.

Dorinha Wanderley, 80 anos

“Me preparei muito para envelhecer”

“Me preparei muito para envelhecer” - Foto: Kleyvson Santos/Folha de Pernambuco

A professora de enfermagem aposentada Dorinha Wanderley, de 80 anos, costuma ir com o marido, o bancário aposentado Antônio Lins Maciel, de 77, à academia três vezes por semana. Ela conta que encara a quarta idade com expectativa. “Me preparei muito para envelhecer, me sinto jovem na mente, apesar de o corpo ficar um pouco comprometido”. Com alimentação à base de cereais, Dorinha recomenda evitar rancores e sugere ter uma ligação espiritual para viver mais e melhor. “Nós somos corpo e alma. Evito aquilo que pode comprometer a minha saúde”, acrescenta.

Com uma rotina de exercícios constantes, a aposentada relata que sempre fez atividades físicas. “Senti a necessidade de ter um acompanhamento. Esse exercício me ajuda a socializar, e as pessoas aqui [na academia] acolhem a gente com o maior amor. Eu e meu esposo nos sentimos avós da turma”, conta ela, aos risos. Ligada em tecnologia, Dorinha usa as redes sociais para se comunicar com familiares e amigos, especialmente com duas filhas que moram na Itália e uma neta que vive no Canadá. “Fiz um curso de informática com um amigo que ia em casa e sou autodidata. Não sou de navegar na internet, uso o Instagram para me comunicar com as pessoas que eu conheço”, completa.

Geraldo Pereira de Lima, 82 anos

“Todo mundo diz que não pareço ter essa idade”

“Todo mundo diz que não pareço ter essa idade” - Foto: Kleyvson Santos/Folha de Pernambuco

O administrador de empresas aposentado Geraldo Pereira de Lima, 82 anos, ainda ministra palestras para não ficar parado. Entre suas dicas de longevidade, estão ter uma vida equilibrada, não beber,  caminhar e ir à academia. Ele, que deixou de fumar há 40 anos, mantém esses cuidados diariamente para viver mais. “Todo mundo diz que eu não pareço ter essa idade. Não sei se é para me elogiar, mas tenho cuidado”. O aposentado relata ainda que usa técnicas para manter a saúde mental em dia. “Eu escrevo, uso WhatsApp, computador e tudo possível para exercitar a memória”.

As principais dificuldades da idade para Geraldo são as limitações surgidas justamente pelo peso dos anos. “Eu sinto a idade em função do que eu fazia antes, como correr. Hoje em dia eu só posso caminhar”. O aposentado ainda dá dicas para os mais jovens comemorarem mais aniversários: “Em primeiro lugar, respeitar os pais, assim como os pais devem respeitar os filhos”.

Vicente Santos, 96 anos

“Sempre fui muito ativo”

“Sempre fui muito ativo” - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Há dois anos com o andar debilitado em razão dos efeitos de uma chikungunya, o motorista aposentado Vicente Santos, de 96 anos, afirma que sempre cuidou da saúde para viver muito. “Nunca bebi, nunca fumei, sempre fui muito ativo. Me sinto muito feliz de ter chegado a essa idade”. Atualmente sob os olhares de duas cuidadoras, ele procura sempre se envolver em alguma atividade de lazer, principalmente com os familiares. “Costumo jogar dominó e baralho com o pessoal da família, também viajo e isso tudo me faz muito bem”, acrescenta. O carinho da família também ajuda o aposentado, que é viúvo, em seus anos de longevidade. “Minha família me trata muito bem. Estou com essa idade e todo mundo gosta de mim”, comemora, acrescentando que costuma receber visitas dos parentes no finais de semana.

Saudoso, Vicente relata que, quando mais jovem, já possuía uma rotina saudável. “Andava demais nessa época. Cheguei a ir a pé de casa [no bairro de Rio Doce, em Olinda] até o Varadouro [na mesma cidade], num total de quase sete quilômetros. Gostava também de brincar muito, de contar piadas”, relembra. Dono de uma memória afiada, o aposentado vibra ao citar os números de seus documentos e telefone com precisão e rapidez. “Não sou esquecido, tenho uma memória muito boa. Para os mais jovens, diria para evitar fumar e beber para viver mais”.

Heitor Sento-sé, 92 anos

“Sou um peregrino da saúde”

“Sou um peregrino da saúde” - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Contrariando o estereótipo de que idosos devem ficar em casa e sentados em cadeiras de balanço, o aposentado Heitor Sento-sé, de 92 anos, se autointitula um “peregrino da saúde”. Ele saiu da Bahia para morar em Pernambuco há 44 anos. Médico aposentado, o baiano tem sete filhos e cinco netos e afirma que o segredo para a sua longevidade é a prevenção. “A longevidade depende de uma boa qualidade de vida, que está ligada à prevenção e aos cuidados com a saúde”, disse.

Na sua rotina, além da atenção diária à saúde e as idas para caminhar e praticar exercícios no Parque da Jaqueira, na Zona Norte do Recife, a ausência de vícios, diz Heitor, contribuiu para esticar sua jornada. “Todos os dias, faço fisioterapia em casa. Não bebo, não fumo e não tenho nenhum vício. É o que faço para estender minha longevidade”, acrescenta. Questionado sobre se esperava chegar tão longe, Heitor fala que era uma expectativa desenvolvida ao longo da vida. “Sempre tive esse desejo por causa justamente dos meus cuidados preventivos. Eu sou um peregrino da saúde”.

Nayde Pedrosa, 82 anos

“Sempre acreditei que ia mais longe”

“Sempre acreditei que ia mais longe” - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

A comerciante Nayde Pedrosa, 82 anos, diz que o seu segredo para viver tanto é não parar de trabalhar. “A alimentação, o exercício que sempre fiz, mas, sobretudo, trabalho até 9, 10 horas da noite”, são as justificativas dela para chegar à quarta idade. Moradora de um prédio em frente ao Parque da Jaqueira há 37 anos, ela costuma caminhar e rezar na capela do local. “Sempre agradeço a Deus por tudo que tem me dado, de saúde e de bom”, contou à reportagem a caminho para rezar o terço.

A saúde e a felicidade de dona Nayde sempre chamaram a atenção daqueles que estão em volta dela, o que a fez acreditar que viveria bastante. “Sempre esperei porque o pessoal dizia: ‘A senhora não parece ter essa idade com essa atividade toda’. Sempre acreditei que ia mais longe e com saúde”. Por fim, ela recomenda trabalho, exercício físico e cuidados com a alimentação como dicas para viver bem a quarta idade.

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